Merdas Sentimentais - I

I

- Merdas sentimentais. O problema disto tudo são Merdas Sentimentais.

Não se define... E ele nada inventa ou aumenta, quando lhe chega bem dentro, o vazio do que deveria chegar.
Ali não há exagero.
Não é como a maioria, gente que não se sabe comportar. A sua convicção nunca esbarra no ressentimento ou no entendimento alheio. Para ele são só Merdas Sentimentais, a causa disto tudo.

- É como estares a ouvir alguém por cortesia. Quanto não te apetece fazê-lo.
- Sim...
- Ficas ali com aquela cara. A tua única cara para todos aqueles momentos de desinteresse. É a cara menos genuína que tens.

Ele tem razão. Faço-o constantemente.

- E ali ficas. A testar a resistência até à tua pior desculpa. Não há microexpressão que te salve.

Ele ri. Tem uns dentes bonitos.

- Com sorte ninguém vai dar pelo teu enfado. Possivelmente só davam pela tua vontade depois de dares um tiro na cabeça.

Realmente... As pessoas estão de tal forma autocentradas, que ignoram toda e qualquer essência.

Eu mesma.
Ontem estava naquela festa de gente feia, a ouvir aquele casal medonho que tinha vindo de férias há pouquíssimo tempo. Dessas férias de merda que toda a gente faz para depois repetir o que toda a gente já repetiu.
Entre os enormes dentes da rapariga e o seu timbre de voz cortante, consegui escrever no telemóvel; "Mais vintes minutos. Assim que me despachar arranco. Quando chegares não faças barulho. A porta está aberta. Beijos."

- Aquilo é... ai - suspirou juntando a mão direita ao peito - Olha... Fiquei sem palavras.
Eu estou com a mesma expressão. Ela está com os mesmos dentes.
- O Luis feito parvo, não pôs protector e apanhou um escaldão enorme.
Ela ri e aponta para ele. O Luis é o imbecil castrado que está ao lado dela com o sorrisinho mais patético de sempre. Ali fica como uma mesa de cabeceira de camisa para dentro das calças. Treinou-se para se abstrair da quantidade de merdas desinteressantes, que a futura esposa diz por minuto.
Parece que o tempo não passa.

- Eu acho que ias gostar muito de lá ir - insiste apontando para mim com o copo da caipirinha.

Ela pisca-me o olho e manda-me aquele sorriso batido.

- Queres beber alguma coisa? - Pergunta-me o Luis com o seu ar "fixe".
- Vodka limão, se faz favor.
- E tu 'mor?
- Eu quero mais uma destas - disse apontando para o copo.
Assim que o Luis e a sua camisa arrancam para o bar, os dentes encostam-se a mim numa proximidade invulgar.
- Já tinha saudades tuas... Já há muito tempo que não falávamos.
Sim já há algum tempo que não assistia ao teu monologo.

E de mão no meu braço, num sussurro preciso e grave, me pergunta:
- Viste o Pedro?
Olhos nos olhos.
A primeira coisa que me ocorreu foi dizer a verdade.
Que o querido Pedrito, me anda a chatear há semanas. Até já me mandou uma fotografia depois da paneleirada do ginásio. Só hoje, tenho 1 "bom dia", 3 "olás" e 2 chamadas não atendidas. Tudo do Pedro.
- Não. Por acaso não.
- Achas que ele vem cá hoje?
- Não sei... Deve aparecer. Também não esta aí o Tiago "Mossa"... Se calhar vêm juntos. Mas isso não tinha já acabado?
Ela olha pelo ombro. A camisa continua ao balcão.
- O que é que queres? Ainda na antevéspera da viagem dormiu lá em casa. O Luis estava lá para cima...

Pim
"Mais hora e meia. Estou preso por aqui. Pode ser?"
Respondo
"Sim. Avisa depois."

Já vi tudo.

- Olha está ali o Pedro - dizem os dentes excitados.
- Onde?
- Ali a cumprimentar o Luis.

Que grande abraço dão eles.

Um minuto depois estou de vodka na mão a distribuir beijinhos.
- Liguei-te hoje - diz o Pedro ajeitando o colarinho da camisa.
- Ahh não vi. Desculpa - menti enquanto me chegava ao "Mossa" - Está tudo bem Tiago?
- Sempre - respondeu com um super sorriso - Olha este é Carlos.
- Prazer...

Dois beijinhos...

Cheira bem.

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