segunda-feira, julho 27, 2015

Do próprio

É normal teres saudades minhas.
Eu por vezes, também tenho saudades de mim mesmo.
Do próprio.

Mas não sinto que seja próprio. Devia ser outra coisa.

E dever é faltar e a mim custa-me ser lamentoso.
Só o faço por desabafo.
Só o faço porque quem não tem nada para dizer, desculpa-se.

Mas não sinto que seja próprio. Devia ser outra coisa.

E devia... mas não é.
Devia ser imaginável para ti.
Para que pudesses escolher. Para que a tua existência fosse mais que uma sorte. Para a liberdade.
A ti soa-te a coisa excêntrica.
A mim pulsa-me como direito divino.

É-me próprio.

Mas não sinto que seja próprio esconder-me.
Lamber feridas na escuridão.
Assistir de longe às tuas desprezíveis reacções passivo-agressivas... Reforçando ignorâncias.
Sabes que não tenho medo de infelizes. Nem de transtornados. Nem de cobardes.
Não tenho medo de ti.
Desconsidero as tuas infantilidades. As tuas sonsas agressões fugazes.
Vitórias que nunca vi.

Nada te pertence aqui.

Nem o breu.
Aqui... É tudo meu.

Tudo o que és. Tudo o que imaginas. Tudo o que sonhas.

Nem o breu.
Aqui... É tudo meu.


Repete em voz alta


"Nada me pertence aqui.

Nem o breu.
Aqui... Nada é meu.

Tudo o que sou. Tudo o que imagino. Tudo o que sonho.

Nem o breu.
Aqui... Nada é meu."


É TUDO MEU.


Percebe que não tens dimensão animal.
Não és estirpe. És excesso.
És o que és.
És apenas o que os outros entenderem.
E sai daqui antes que nada sejas.

Eu vou ficar por aqui mais um bocado.
Só por adorar estar no escuro.

É cedo demais para os demais.
É demasiado tarde para ti.
e é o que é... para mim.

É-me próprio.
É meu.

quarta-feira, julho 22, 2015

Merdas Sentimentais - I

I

- Merdas sentimentais. O problema disto tudo são Merdas Sentimentais.

Não se define... E ele nada inventa ou aumenta, quando lhe chega bem dentro, o vazio do que deveria chegar.
Ali não há exagero.
Não é como a maioria, gente que não se sabe comportar. A sua convicção nunca esbarra no ressentimento ou no entendimento alheio. Para ele são só Merdas Sentimentais, a causa disto tudo.

- É como estares a ouvir alguém por cortesia. Quanto não te apetece fazê-lo.
- Sim...
- Ficas ali com aquela cara. A tua única cara para todos aqueles momentos de desinteresse. É a cara menos genuína que tens.

Ele tem razão. Faço-o constantemente.

- E ali ficas. A testar a resistência até à tua pior desculpa. Não há microexpressão que te salve.

Ele ri. Tem uns dentes bonitos.

- Com sorte ninguém vai dar pelo teu enfado. Possivelmente só davam pela tua vontade depois de dares um tiro na cabeça.

Realmente... As pessoas estão de tal forma autocentradas, que ignoram toda e qualquer essência.

Eu mesma.
Ontem estava naquela festa de gente feia, a ouvir aquele casal medonho que tinha vindo de férias há pouquíssimo tempo. Dessas férias de merda que toda a gente faz para depois repetir o que toda a gente já repetiu.
Entre os enormes dentes da rapariga e o seu timbre de voz cortante, consegui escrever no telemóvel; "Mais vintes minutos. Assim que me despachar arranco. Quando chegares não faças barulho. A porta está aberta. Beijos."

- Aquilo é... ai - suspirou juntando a mão direita ao peito - Olha... Fiquei sem palavras.
Eu estou com a mesma expressão. Ela está com os mesmos dentes.
- O Luis feito parvo, não pôs protector e apanhou um escaldão enorme.
Ela ri e aponta para ele. O Luis é o imbecil castrado que está ao lado dela com o sorrisinho mais patético de sempre. Ali fica como uma mesa de cabeceira de camisa para dentro das calças. Treinou-se para se abstrair da quantidade de merdas desinteressantes, que a futura esposa diz por minuto.
Parece que o tempo não passa.

- Eu acho que ias gostar muito de lá ir - insiste apontando para mim com o copo da caipirinha.

Ela pisca-me o olho e manda-me aquele sorriso batido.

- Queres beber alguma coisa? - Pergunta-me o Luis com o seu ar "fixe".
- Vodka limão, se faz favor.
- E tu 'mor?
- Eu quero mais uma destas - disse apontando para o copo.
Assim que o Luis e a sua camisa arrancam para o bar, os dentes encostam-se a mim numa proximidade invulgar.
- Já tinha saudades tuas... Já há muito tempo que não falávamos.
Sim já há algum tempo que não assistia ao teu monologo.

E de mão no meu braço, num sussurro preciso e grave, me pergunta:
- Viste o Pedro?
Olhos nos olhos.
A primeira coisa que me ocorreu foi dizer a verdade.
Que o querido Pedrito, me anda a chatear há semanas. Até já me mandou uma fotografia depois da paneleirada do ginásio. Só hoje, tenho 1 "bom dia", 3 "olás" e 2 chamadas não atendidas. Tudo do Pedro.
- Não. Por acaso não.
- Achas que ele vem cá hoje?
- Não sei... Deve aparecer. Também não esta aí o Tiago "Mossa"... Se calhar vêm juntos. Mas isso não tinha já acabado?
Ela olha pelo ombro. A camisa continua ao balcão.
- O que é que queres? Ainda na antevéspera da viagem dormiu lá em casa. O Luis estava lá para cima...

Pim
"Mais hora e meia. Estou preso por aqui. Pode ser?"
Respondo
"Sim. Avisa depois."

Já vi tudo.

- Olha está ali o Pedro - dizem os dentes excitados.
- Onde?
- Ali a cumprimentar o Luis.

Que grande abraço dão eles.

Um minuto depois estou de vodka na mão a distribuir beijinhos.
- Liguei-te hoje - diz o Pedro ajeitando o colarinho da camisa.
- Ahh não vi. Desculpa - menti enquanto me chegava ao "Mossa" - Está tudo bem Tiago?
- Sempre - respondeu com um super sorriso - Olha este é Carlos.
- Prazer...

Dois beijinhos...

Cheira bem.

terça-feira, julho 21, 2015

FEL DAS VELHAS - Os pequenos

- A senhora tem aqui uma cadelinha tão bonita.
- É... Chama-se Bianca. Faz muita companhia... E é muito boa vigia. Dá sinal de tudo.
- É tão meiguinha.
- E agora 'tá magrinha que foi mãe. Eu tive até que deixar de lhe dar de comer... Você sabe... Enquanto o Joel não foi por os piquenos ao rio.

Nota do autor: Esta história é "mais que baseada" em factos reais.

quinta-feira, julho 16, 2015

Artur Gonçalves - Vamos a todas, não escapa nada



Desde que me lembro que vou a arraiais, bailaricos, festas de santos populares, na província e na cidade.
Sou um "moinante".
Gosto de vadiar com o resto da "trugia" noite fora, sem destino nem propósito. Fazer festa porque sim. Simplesmente por estar vivo.
Endoidecer aos poucos e ver nascer do sol.

É lindo.
É mágico.

É nessa vida que conhecemos o fabuloso carnaval que nos caracteriza.
É por aí que aprendemos Portugal.

Desde que me lembro que ouço um pouco por toda a parte, as rimas de Artur Gonçalves, roubando sorrisos.



(Eu também acho que o Bairro Alto está cheio de entulho.)

Hoje Artur Gonçalves luta contra o Alzaimer.
Espero que com um sorriso na cara.



quarta-feira, julho 15, 2015

FEL DAS VELHAS - A subtileza

- Ahhhhh. Tu é que és filha da Maria, não é?
- Sou. Sou sim.
- Ahhhhh... a tua era tão bonita... Era mesmo bonita quando era nova.
- Muito obrigado.
- Não és nada parecida com ela...

Nota do autor: Esta história é "mais que baseada" em factos reais.

segunda-feira, julho 13, 2015

FEL DAS VELHAS - Eras para ser um desmancho

As velhas rudes admiraram-se muito.
Ninguém sabe realmente a causa de tanto espanto. Empíricamente falando, as velhas rudes são mais susceptíveis ao factor surpresa que as restantes pessoas.

- Ahhhhh... Aqui estás tu. Olha como tu estás
- Olá Ti Lídia. ´Tá boazinha?
- Ai que rica menina. Estás tão bonita... E tu que nem eras para ter nascido! A tua avó e a tua mãe queriam que... tu percebes... o teu pai é que na tava de acordo... E eu também não. Eu bem lhe disse. Tudo se cria melher.

Nota do autor: Esta história é "mais que baseada" em factos reais.

quinta-feira, julho 09, 2015

HEY... PAROU...

HEY... PAROU...

Calma,
Calminha,
Ou como se dizia nos anos 80, Calmex!

Muito obrigado pelo interesse e agradeço a dedicação mas deixem-me chegar.
Sei que são os melhores leitores do mundo - graxa nível básico - e não tenho escrito com a frequência desejável, mas uma pessoa faz "coisas".

Podem deixar de enviar mensagens que o blog vai voltar em força.
Vai ser um verão a varrer.
Todas as semanas a dar-lhe na "rudelândia", com rubricas novas e muitas surpresas...

Agora vou acabar de fazer "coisas".  

Até já e obrigado pelo carinho.

Daniel
 

A Dieta - 5 - A Pesagem

IMC - 26,33 Sobrepeso Não me posso pesar todos os dias. Diz que torna a malta ansiosa e acho que a ansiedade engorda. Posso-me pe...