quarta-feira, março 18, 2015

O INVERNO - Alvíssaras



"Alvíssaras, capitão, Meu capitão meu General..."

Também eu te renego demónio. Deixa-me ficar com minha alma.

Eu sei o que fazes.
Vens de noite, inventando a tempestade e um novo pesadelo. Para me quebrares. Para me deixares moído e mal-disposto. Para me endividares. Queres vender-me invernos passados. Outras almas de veneno, mensagens corrompidas e aflições.

Eu já sei.
Já ouvi essas historietas todas. Já me passaram à frente dos olhos e até já as li.
Até tive de enjoar, carradas de imitações. Falsificações baratas cheias de vento frio. Uma substância nenhuma cheia de nada.

Hoje quando acordei já sabia o guião.
Como?
Tenho o texto decorado. Enraizado por todo o corpo. Batido por toda a estrada.
Foi só mais uma actuação.

Alvíssaras?
Podes ficar com as palmas todas que eu só quero que o Inverno acabe.

Da mim?
Mais nada.

terça-feira, março 17, 2015

O INVERNO - O que é constante



Este Inverno já teve mais fibra.

Parece que quer desaparecer com um sorriso. Trocista o canalha!
Deixa o sol fazer a sua parte de dia, para depois me encolher à noite.
Nos passos que repito.
Nos passos onde me retiro.

O telefone nunca pára.
São outros tempos... Distantes dos dourados pechisbeque e das mentiras compulsivas. Pode ser até uma questão de hastes, de lentes ou de falta de olfacto.
Parece que a droga continua um bom negócio. Há fome de fartura e de mesura.
A extinção está por todo o lado e dá nestas coisas.

Admite.
Assume.
São outros tempos.

O telefone não se cansa.
Há uma estranha leveza... Mesmo quando tudo investe contra mim. Ainda assim... "Olha para ti. Feliz no desassossego."
Falo com botões, com espelhos, com o que tiver de ser. Falo porque ainda tenho voz.
Vou ficar rouco de tanto festejar. Perdi a conta aos pontos que tenho de avanço.
E balanço até dançar.

Estafa-te
Envelhece-te.
Que o teu tempo não é da mesma estirpe do meu.

O telefone é inevitável.
Aparece na cama, nos bolsos, em cima da mesa, no sofá, no banco do lado. Aparece na tua mão de vontade em vontade.
Até parece que existe um código secreto... E sempre que és apanhada, parece que estiveste a treinar para derrotar o maior vilão da história.
Já não sei se te apanharam, se te deixas apanhar ou se és simplesmente apanhada.
Seja lá o que for.
Se calhar foi o Inverno que te mandou para tentares acabares comigo.

O que é constante!

Primeiro foi o Outono, depois a Primavera e o Verão. Agora o Inverno.
Foram eles que te mandaram não foi?

quinta-feira, março 12, 2015

O INVERNO - Cheiras bem. Cheiras tão bem.



Sabes disso porque continuas a precisar de uma mulher-a-dias.
Porque há gente louca por todo o lado a agir tão normalmente, que é de doentio.
Porque há espiões psicóticos em negação.
Porque não há rasgo que te atormente. Porque não tens medo. Porque já estás por tudo.

Deixo-me colidir.

Deslizo para dentro dos meus lençóis novos.
Ah... Viva o luxo.
Nada é pequeno demais a esta hora da noite. Não há memória que me possa angustiar, nem decisão futura que me apoquente.

Até desconfio do que escrevo e à cautela, faço a minha pausa para me certificar que nada explodiu. Que ninguém gritou. Que tudo continua tão calmo como antes.

Uma noite lenta.
Finalmente...
Merecida.
Acarinhada com uma nova saudade.
O teu cheiro.
Cheiras bem. Cheiras tão bem.

Sabes disso porque nada mais desejas.
Porque estás quase absoluto.
Porque só usas "quase" por falsa modéstia.
Porque te divertes com isso.

Deixo-me eclodir.

Resvalo brandamente para dentro do mim.
Que viva o júbilo.
Tudo me aquece sem me afoguear. Tudo me sustêm sem me cobrar. Tudo me aparece... É só fechar os olhos.

Uma noite lenta para triunfar.
Absolutamente...
Merecida.
Abençoada pelo acaso da multidão e pelo teu cheiro.

Cheiras bem. Cheiras tão bem.


quarta-feira, março 11, 2015

O INVERNO - Não corras



"Coisas perigosas para fazer nú."

- Cozinhar.
- Andar de mota.
- Breakdance.
- Espirrar.
- Correr pelo meio do mato.

Continuo a precisar de uma mulher-a-dias.
Profissional e discreta. Escusa de passar a ferro.
Sou contra.
Dou-me mal com a falta de movimento.

Daí chegar tão depressa aquele momento arfante e lambuzado.
- Espera, espera...
(Não me apetece nada, mas tenho de por ordem no assunto.)
- Que foi?
- Não tenho preservativos. Não podemos fazer nada.
- Não sabes estar preparado?
(Obvio. A culpa é exclusivamente minha. Tenho de andar sempre pronto para a cobrição.)
- Não 'tava à espera. Não saio de casa a pensar que vai acontecer.
- Esquece isso...
- Como?
(Hã? Ouvi bem?)
- Não há problema... Eu tomo a pílula...
(Curiosamente isso não me deixa mais descansado.)
- É melhor não.
- Sério, entra dentro de mim. Não há stress. Já viste como estou?
 (Já. Já mas tenho de abandonar. Para bicheza já me basta a que anda por aí.)
- É melhor não arriscar.
- Não arriscas nada. Tranquilo. Eu porto-me bem.
(Estou a ver que sim. Aliás eu quando digo a alguém para se portar bem, o que quero mesmo dizer é: Despeja o bar, dá cinco riscos de branca, beija-me à traição e insiste em ter sexo desprotegido comigo.)
- Não digo que não...
- Então, confia em mim. É na boa.
(De repente estou eu a levar com a conversa da virgem.)
- Eu confio, mas é que...
Ela agarra-me no pulso e num gemido humedece-me a mão direita.
(Antifúngico, auto-imune, teste, venérea, doida, amanhã, morte, retroviral, vírus, número, farmácia, droga, imunodeficiência, fim, bichos)
- Não vais desperdiçar isto, pois não?
(Se calhar vai ter mesmo de ser.)
- Eu não queria mas... E tu? Confias?
- Confio.
- Como é que sabes que estou limpo?
(Tentativa de consciencialização número... perdi a conta.)
- Tens cara disso.
(Já me esquecia. Dá para ver pela cara. Claro. Como é que não me lembrei disso antes?)
- Desculpa mas não vai dar. Sem preservativo não.
- Oh, mas é na boa. É só contigo. Sério... Prometo... Juro...
(Sim sim. Conta-me histórias.)
- Assim não estou bem. Têm paciência.
- De certeza que não?
- Não.
- Ok. Então deixa-me ligar à minha amiga. Talvez ela tenha alguma coisa.
(Custava muito?)

Amiguinhos... Sim vocês do escape livre - Fiem-se na não virgem e não corram!

"Coisas perigosas para fazer nú."
(Continuação.)

- Vindimar.
- Jogar polo.
- Votar.
- Pegar touros.
- Ir ao cinema.
- Rally tascas.
- Ladrilhar.
- Ser policia sinaleiro.
- Luta Greco-romana.

terça-feira, março 10, 2015

O INVERNO - Lagostins Judeus



Preciso de uma mulher-a-dias

Sabes disso quando estendes roupa às quatro e vinte e cinco da madrugada.
Até podia ser ao contrário, mas não.

Preciso de uma mulher-a-dias e de saber o que querem dizer as minhas notas. Auxiliares de memória para gente doida com mania de artista, viciada em conceitos.
- Contemplar, absorver, criar, inventar, redefinir e marcar.

Mas porque raio escrevi eu Lagostins Judeus?

Mesmo quando estou indolente, depressivo ou derrotado nunca desligo. Não consigo. Os demónios saltam-me no peito a cantar... Coisas das causas... E por algum motivo faz-me sentido.

Sabes disto quando gostas de os ouvir cantar até ficares exausto. Até podia ser ao contrário, mas não.

Lagostins Judeus?
Uma piada de mau gosto sobre a circuncisão, ou uma metáfora anti-semita. Eles que põem em risco todas as outras espécies endémicas.
Rejeito a segunda.
Não faz o meu tipo e eu adoro os meus amigos Judeus. Adoro fazer a minha piada a meio do debate, "Cristão Novo, tenho três palavras para acalmar a tua insolência: Marquês de Pombal."

Por outro lado, treinar Lagostins para excisar prepúcios parece-me extremamente difícil.

Sabes disso porque pouco te faz sentido mesmo quando te sentes. Até podia ser ao contrário, mas não.

Talvez esteja apenas debilitado. Tenho o sistema imunitário em baixo.
São demasiadas imagens.
Gentes estranhas a fumar ao pé de bebés. Forradas a ganga. Horas num estofador para combinar ganga com ganga, por cima de ganga.
Modas mitológicas. Pessoas vestidas com animais, ou como animais, ou imitando animais. Colete de pêlo, blusa tigresa e calças reptícias.
Tudo falso. Até a atitude.
Taxidermia em movimento.
Taxidermia cerebral.
As mais profundas fantasias em voz alta a todo o instante. Sem filtro e sem futuro. Para me testar, para me converter e para me atormentar.
Música vampiresca, minimalista e de série.
Amanhã acordas com uma narina entupida e uma dor de cabeça indigna.

Sabes disso quando ela arrancou as cuecas e ofereceu-se na tua boca. Até podia ser ao contrário, mas não.
Era só um pesadelo. Um trauma mais. Um toque malandro no jogo, só para te lembrares que estás dorido.
Sabes disso porque tens os lençóis rasgados e não te lembras de nada. Mais... Sabes que não te queres lembrar.

Vou experimentar fazer os tratamentos até ao fim. Ignorar as mensagens e as repetições. Resoluções para melhor decifrar o que o vento frio te esclarece. Já não. Nem ele. 
Também ele dormente me questiona confuso:
- Mas que raio queres dizer com isto dos Lagostins Judeus?
- Não sei. Mas que estupidez. Estou a ficar fora de controle. Vou-me entregar. Rendo-me à genética e à circunstancia. Vou assumir...

Quando viro a página leio.
"Coisas perigosas para fazer nú."

quarta-feira, março 04, 2015

O INVERNO - Nunca me dei bem com o sono



Este Inverno não tenho dormido nada.
Parece que estou a voltar à minha antiga doença do sono e isso é mau...
Muito mau.

Estou a prever um tratamento de choque.

Conheço estas histórias de cor.
São sérios e compridos planos de sequência. Cores arrastadas em composições complexas.
Lembro-me de todos os sonhos e de todos os pesadelos.
Enredos cruzados, de violência sensorial extrema.
Tudo... E com todas consequências.

Talvez esteja há demasiado tempo exposto.
Agressões variadas... Algumas auto-infligidas...

Mas que posso fazer eu?
Sou dos que gostam de sentir. Aproveitar todos os centímetros da estrada e inventar trajectórias.
E que se lixem os centímetros. Quero milímetros, detalhes, coisas sublimes e sem certezas.

É defeito.
E o feitio também é uma merda.

Boa noite.

terça-feira, março 03, 2015

O INVERNO - Nove conselhos para as gajas no Inverno



1 - Não sejas chata.
Salvo algumas excepções, várias pessoas conseguem sentir a baixa de temperatura simultaneamente. Escusas de referir ao assunto constantemente.
Especialmente quando não queres estar no sitio onde estás.

2 - Arranja-te.
Curiosamente com o avançar da idade as mulheres vão ficando mais friorentas.
É normal que o homem comum estranhe tal característica. É que existe um tremendo contraste com a disponibilidade e resistência apresentada no passado... Quando a senhora tinha 15, 16, 17, 18, 19, 20, 21 anos.
Depois houve um namorado, uma zanga, e os calores voltaram aos 28, 29, 30 anos.
Quanto mais solteiras e soltas, menos frio têm.
Lembra-te que existem sempre "coisas" mais quentes.

3 - Por cima e por baixo da roupa.
A cena dos pêlos continua. Não há defeso. Tudo a rapar e a aparar como dantes.
Não usas saia tantas vezes, nem vais à praia, mas se eu quisesse uma lixa... comprava!  

4 - Sim. Estás mais gorda.
É só isto.

5 - Aproveita e deixa os lugares comuns descansados.
Refiro-me aquela perigosa fantasia de fazer amor em frente a uma lareira. No chão. Mesmo à filme.
Ora nos filmes o vento nunca muda de direcção, sequer saltam fagulhas direitinhas ao rabo de um gajo.

6 - Os Collants são uma invenção ou do diabo, ou da santa inquisição.
Quando surge aquele súbito momento de paixão e de repente, um par de collants pelo meio... epá... Todo o fervor, a entrega, o calor, a magia... desaparece. É aquele tipo de pausa mil vezes mais incomoda que por um preservativo.
Isto tudo depois de um gajo ter lutado com casacos, camisolas de gola alta, camisolas interiores,   calças e um soutien... básico.
É duro.

7 - Paciência é uma virtude.
Eu sei que tens saudades do verão.
É que existem uma data de fotos de gajas em bikini espalhadas pela internet, com essa legenda.
Cheguei a pensar que era um movimento de solidariedade.
Afinal é só...
São só saudades.

8 - A cama é de todos.
Quando partilhamos a cama com alguém, é possível - nem sempre acontece. Existem tipos mesmo muito mariquinhas - mas é possível, que tenha de existir algum tipo de acordo, a fim de evitar problemas.
Por exemplo.
Respeita o lado da cama de um homem. Nós não somos peluches - embora alguns pareçam - Não nos podem agarrar, abacelar e amarfanhar a noite inteira e esperar que acordemos bem dispostos.
Queres dormir ainda mais em cima de um gajo?
Outra coisa.
Acho que três edredões - e sim este é o plural de edredão - numa cama com duas pessoas, talvez seja um bocadinho quente demais.

9 - A verdade doi.
Sim. Continuas mais gorda.
Aceita-o sem dramas e não tentes arrastar os teus entes queridos para as compras. Protege-te emocionalmente.


A Dieta - 5 - A Pesagem

IMC - 26,33 Sobrepeso Não me posso pesar todos os dias. Diz que torna a malta ansiosa e acho que a ansiedade engorda. Posso-me pe...