quinta-feira, fevereiro 26, 2015

O INVERNO - Visitas quentinhas



Tudo para estar "quentinho".
Absolutamente tudo.

É esta demência que me interessa. É a loucura dos hibernantes que me fascina.
Tudo se transforma quando não estão "quentinhos".

Pessoas que passam três estações do ano num hedonismo narcisista extremo, delirando com espelhos, regendo a vida em função da aprovação dos outros... Não se importam do ridículo estado a que chegam durante o Inverno.

Tenham paciência.
Deixar de tomar banho, evitar sair de casa, entalar as calças do pijama nas meias... É ridículo.
Passar dias com uma tenaz na mão a "snifar" o fumo da fogueira, estar a ver televisão com um saco de água quente nas mãos, ou ter um cobertor com 250kg na cama... É ridículo.
- Ah mas eu só me sinto "quentinha" quando sinto "peso" em cima de mim.
Fácil. Tapa-te com um gordo.
Nem precisas desse pijama piroso tipo Auschwitz, que custou os olhos da cara.
Nem do robe da feira.
Nem das meias de lã da Nazaré.

De repente aí estão vocês... Curados de todas as inseguranças. Epá... Devia ser Inverno todo o ano. Podiam arrastar-se descorados, com esse ar desmaiado e uma talha de azeite na cabeça. Untados. Balançando o excesso de peso da cozinha para o sofá, sempre brilhantes e sempre "quentinhos".

É todo um novo mundo estético que vos assenta como uma luva.
Sim porque os hibernantes vibram com as suas preferências como se fossem autores de tão revolucionaria ideia.
- Mantas com mangas. Que fixe. Parecemos uns tontinhos. Vamos brincar aos fantasminhas ou à maçonaria?
- Eu cá adoro lençóis polares. Eu sou mais dos novos materiais. É que adoro suar à parva, de preferencia sempre na mesma posição. Tipo velcro, 'tás a ver?
- Para mim são os pijamas com bichos. Olhem para mim eu sou um animal fofinho com pantufas a condizer. E já que estou em regressão vou passar a usar babete nos restaurantes.
- Comprei um aquecedor de pés eléctrico. Aquilo é formidável.

Parem com isso.
Nem mais uma justificação. Há quem exagere nos comportamentos em relação ao frio.

Está provado.
O Inverno é um assunto psicológico!

quarta-feira, fevereiro 25, 2015

O INVERNO - Visitas



O Inverno é decadente.
Pelo menos o que eu conheço.
O boreal.
O que está sempre irritado e a irritar toda a gente, só porque tem de esperar pela Primavera. É um fanfarrão.
Nitidamente é a estação do ano com maiores problemas de autoestima.  

O Inverno insiste em esconder as pessoas. Em lhes mudar a cara.
Gosta de as tornar mais feias. Adora o desconforto. O desconsolo. O desalento.
E adora ser chato.

O Inverno só pode parecer bonito quanto todos os restantes estão piores.

É por estas e por outras que muitas pessoas evitam sair no Inverno. Não se sentem à vontade.
- Que se lixe. Vou hibernar. Acordo um bocadinho no Carnaval e depois "pufa". Volto a adormecer até ouvir um passarinho.
(entenda-se que segundo os parâmetros actuais, "ouvir um passarinho" significa, invejar alguém, depois de ver uma foto com algum sol numa qualquer rede social.)

Adiante.

Está aberta a época de "paneleirada" do costume: "Eu hoje não vou sair."
Porque está a chover. Porque está frio. Porque está engripado. Porque a namorada está engripada. Porque os filhos estão engripados. Porque os pais estão engripados. Porque o gato espirrou. Porque é tempo de passar os fins-de-semana em casa a ouvir chover e a ver filmes dos beras. Porque se está mais gordo. Porque já saiu antes, entretanto trocou para a roupa de casa e dá demasiado trabalho equipar-se para a intempérie...
- Mas se quiseres aparece aí. Tenho a lareira acesa e está quentinho cá em casa.
Tradução: Apanha tu frio.

Generalizou-se que só conhecemos o total esplendor da fealdade alheia, quando a vemos acordar. É nesse hediondo espectáculo que tudo se sabe.
Nada está mais longe da verdade.

Onde nós temos a percepção total do próximo - plasticamente e não só - no momento em que visitamos alguém no Inverno.

Devo confessar que este tema me causa algum assombro. Provavelmente terei de lidar com este terror durante longas noites de insónia.
E por onde começar...

Talvez pelo fracturante momento da chegada.
Uma pessoa está vestida decentemente e a outra parece um mendigo. Sinceramente não sei se lhe devo estender a mão ou lhe disponibilizar uns trocos para uma carcaça.
Durante o choque os meus pés esfregam com força um tapete castanho. Como se a violência aplicada naquele objecto expurgasse todos os males do mundo.
E ouço:
- Põe-te à vontade. Tira o casaco. Tens ali o sítio dos chapéus de chuva.
Sim porque os chapéus de chuva têm um sítio especial, geralmente a um canto, perto de um bengaleiro empoeirado, onde convivem uns com os outros enquanto escorrem, ou esperam... e eles esperam bastante.
Tiro a outra luva, o gorro, o cachecol e o casaco, deixando tudo em "ponto de fuga". É um reflexo.
- Senta-te. Queres alguma coisa?
- Não obrigado. Estive a beber chá há pouco. Não tenho vontade de nada.
E é quando o meu olhar atravessa a sala, que reparo no ser perigoso que se dispõe no sofá em posição Cleóptera.
Depois de sacudir os chinelos "apantufados à velho", recolhe-se no sofá, cobrindo-se da cintura para baixo com uma manta de cor duvidosa.
Um hino ao borboto.
No tronco exibe uma armadura esquisita - dizem que se chama robe - e ficam a sorrir para uma pessoa com um ar tresloucado.
Na minha cabeça um único refrão: Síndroma da cabana!
- Tens a certeza que não queres nada?

Muita atenção neste momento!
Estamos frente a frente com a fera.
Nada de movimentos bruscos.
Uma simples hesitação e podemos causar desconforto no hibernante. Correr o risco de o colocar em contacto com uma temperatura ligeiramente mais baixa, pode ser fatal.

- Não não. Deixa estar... Que estás a ver na televisão?
É importante distrai-los. Mudar o foco ao bicho.
- Olha nem sei. Tenho estado aqui toda a tarde a ver filmes de merda. Ontem vi a 2ª, 3ª e 4ª série daquela série... Porra. Aquela dos reis e das brigas.
Perda de memória, seguido de irritação. Mau gosto. Sinais evidentes de desequilbrio.
- Pois já sei, pois...
- Então e tu? Que tens feito?
Tenho vivido.
Eu optei por apanhar frio mas posso parecer-me com uma pessoa.
- Nada de especial - minto descaradamente.
- Pois. Está muito frio não é! Com o tempo assim não apetece.
Ninguém sabe o que é suposto apetecer, mas aceno com a cabeça, como se os nove graus centígrados que estão na rua, fossem os quarenta negativos da Sibéria.
- Aqui está-se bem!
Até dava para estar em tronco nu!
- Aqui está... Quentinho - dizem com aquele ar insano - Também tenho o desumidificador a funcionar há 8 dias.

O desumidificador, a lareira, o recuperador de calor, o aquecedor a óleo, o radiador, o radiador da casa de banho - porque Deus nos livre e guarde, de sentir uma brisa fria na ponta da pila durante dois segundos, enquanto pomos a toalha à volta do corpo.
"Tem de ser meu. A casa de banho está muita fria. Eu ligo aquilo sempre que lá vou... Quando vou cagar e tudo".
(Agora a situação sonoramente)
Caaaaaaaaajjjjjjjjjjjjjjjjjjjuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuhhhhhhhhhhh
Ploc
uhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh
Ploc ploc
uhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh
- Ehhhhhhh... Ahhh. Pfff
uhhhhhhhhhhhhhh
rehkkk rehkkk
- Autoclismo a descarregar.
uuuuuuuhhhh
Continuando.
A chaleira eléctrica, o cobertor eléctrico, o saco de água quente dos chineses, também ele... eléctrico.
(Isto quando não existe um ar condicionado envolvido. Isso já se sabe. Quando existe um comando a pilhas com números, uma pessoa muda de hemisfério. Brasil no Inverno. Groenlândia no Verão. É sempre "a bombar".)

Tudo para estar... Quentinho.

(Continua)

terça-feira, fevereiro 24, 2015

O INVERNO - Duas estrelas cadentes



Há semanas que não durmo, porque há meses que não sossego.
E há anos que ando nisto.

Fico-me pela esperança de um dia não haver tanto dantes. É que preciso mesmo de ter o que fazer. Não gosto de me dispor à espera do nada, quando foi ele que me plantou ali... e por nada.

Fico-me por aqui.
Talvez para manter a paz e o sossego. Talvez tenha aqui alguma coisa entalada? Talvez seja por antes?
Talvez seja por dantes?

O dantes era normal.
Dantes havia Inverno, sem alertas ou alarmes.
Chovia, nevava, fazia frio... Era o que tinha de ser.
Era normal.

Hoje.
Hoje está tudo por fazer "à pala" do dantes e dos que vivem lá... mesmo no meio do dantes.

Para mim tanto faz. Resta-me agasalhar e para andar ao frio, com os olhos no céu. Coleccionando sonhos...

Juro.
Ontem vi duas estrelas cadentes.
Foram as duas para ti.

quinta-feira, fevereiro 19, 2015

O INVERNO - Elas evangelizam



Este Inverno fartam-se de bater ao portão.

Ao meu lado está um cão muito sério e atento. Pronto para tudo. Afinal de contas, é gente que não é cá da terra e com a gandinagem que anda por ai, há que ter prudência.

Andam ai a evangelizar.
Querem me salvar. Dar-me "uma palavrinha".

Costumam vir aos pares, de papel colorido nas mãos, cheios de fé alambicada e retórica fraquinha.
Trazem sempre o mesmo sorriso de missão, contido e cordial, enquanto me avaliam o espirito.
O pitch é rapido e inconsequente.
Agradeço e despeço-me educadamente, rebatendo a insistência ao desejar um resto de bom dia aos caminhantes.

Ou seja.
É sempre a mesma cantiga.

Mas como este inverno fartam-se de bater ao portão, cheguei à surpresa de encontrar quatro moças à entrada dos meus domínios.

Quatro.

Quatro raparigas novas.
Quatro miúdas sorridentes e felizes. Fervorosas missionárias, cheias de calor divino no peito.
Todas de saia.
Todas de botas.
Todas de cabelo apanhado e com aquele ar de "professora safada".

- Olá, boa tarde - saudou a mais alta de forma arrastada.

Mas que camada de dourados que para aqui vai. Pechisbeque do bom. Sim senhor.

- Boa tarde - respondi com a minha melhor voz.

- Boa tarde - cumprimentaram as restantes cheias de dentes.

Está aqui um rebanho muito arranjadinho. É só unhas e madeixas. Glória Glória. Aleluia.

E a lider, liderou.
Inclinando a cabecita cheia de enfeites para o lado inquiriu:
- Então bem disposto? Como está?
- Estou bem muito obrigado.
- Já vi que sim - gracejou a loura da outra ponta do grupo, enquanto as outras deixam escapar um risinho maroto.

Que engraçado! Ficam logo com legendas. Basta terem uma amiguinha ao pé.

- Como disse? - Perguntei, fazendo-me despercebido.

Com um olhar fulminante, tipo 4 da manhã, respondeu-me desafiante.

- Já vi que está bem.

Deve ser do meu ar cristão. É da barba.

- Não estamos a incomodar? - certifica-se simpaticamente uma terceira com mais peito. Interrompendo o momento.

Ó Diabo. Isto aparece de todos os lados...

- Não, não... Diga.

E a lider, liderou.
- Nós estamos aqui para lhe dar uma palavrinha sobre "o Senhor". Sobre Cristo. Não sei se é crente?

Ah... Que pena. E eu cheio de pecado. Com a imaginação a correr solta, pelos quatro corpos destas santas almas.
Mudaram de estratégia de marketing, e eu estou tão longe da salvação.
Era um recorde.
O verdadeiro "Fim do Mundo".
Ora então vamos lá ouvir a cantiga do costume.

Blá blá, blá blá, blá blá, blá blá, blá blá, blá blá...

A loura toca-me no braço, fixando o olhar.
Com um sorriso pergunta:
- Desculpe... Mas... Não se lembra de mim?

Luz.
Agora sim.
Coincidencia milagrosa.

Um olhar fulminante, um sorriso de volta, uma conversa sobre a moda do gin, um top que explicava "god made me this way", um parque de estacionamento enlameado, uma gritaria das boas, um par de cuecas de renda vermelhas para o lixo, e uma frase que me sai da boca como um raio:
- Ainda tenho ali no carro os teus sapatos pretos.

É obvio que o nome dela é Maria.




quarta-feira, fevereiro 18, 2015

O INVERNO - Prólogo



Eu não gosto muito do Inverno.
Nunca gostei!

Não sou amante dessas coisas.
Ter frio faz-me sentir um mariquinhas.
Desses mesmo. Daqueles que se mexem ao toque do desconforto. Encolhidos como se não lhes crescesse barba. Escondendo o peito como tivessem decote.

E não contem comigo para a extinção da "machesa".

Volto com essa missão,
Volto para liderar.

Volto para vos lembrar que há ainda mais um mês de Inverno.
Deste Inverno.
Deste que me aborrece com a sua cadência torturante.

Repetindo e vulgarizando toda uma espécie. Todos os dias, todos os dias, todos os dias, todos os dias, todos os dias, todos os dias, todos os dias, todos os dias, todos os dias... e mais copy pastes me apetecesse fazer.

Todos os dias uma merda qualquer.
Uma guerra, um escândalo, um assassinato, um atentado, uma brecha nova na civilização.

Volto para vos lembrar que são merdas desnecessárias. Que afinal de contas, também está nas vossas mãos fazerem alguma coisa além de engordarem. Além de se tentarem tornar em falsos ídolos.
Eu, como falso profeta, vos predigo:
Vocês não são ninguém!

São livros para quem não sabe ler, versos para quem não os sente crescer, e linhas de quem não sabe viver, tudo isto por gente que não sabe escrever.
São notas sem rasgos ou tempo, vazias de qualquer sentimento, longe de ser mais que um momento, numa morte sem qualquer nascimento.
É frustração e pequenez. É medo e fuga. É traição e deslealdade. É ódio e vulgaridade a correr a sangue solto, com a força de uma turba de selvagens, só porque querem ser... o que nunca serão.

Estou farto do vosso Inverno.
Cobardes.
Reles.

Volto com essa missão,
Volto para liderar.

"Um elefante nunca esmaga um rato" disseram-me um dia. Essa puta dessa frase têm-me refreado ao longo de anos, como uma máxima zen que me devolve ao chão.
Eu acrescento: Depende do espaço e depende do número de ratos.

E eu nem estou zangado.
Estou só farto do vosso Inverno

A Dieta - 5 - A Pesagem

IMC - 26,33 Sobrepeso Não me posso pesar todos os dias. Diz que torna a malta ansiosa e acho que a ansiedade engorda. Posso-me pe...