segunda-feira, janeiro 20, 2014

O Divã - IX - A FÉNIX pt II




Espera um bocadinho...
Vou só apagar o cigarro e buscar o meu caderninho.
Daqueles pretos com elástico, meio pretensiosos, a dar para o intelectual.
- Puro clichê.
É que eu tenho a mania de anotar.
De apontar, de assentar, de esquematizar, de organizar, de planear... E isso nem sempre me faz bem.

Não combina com o resto da minha vida.

É que eu tenho uma deficiência.
Eu adoro gente doida.
Mas adoro-os visceralmente.
Passo horas da minha existência em surreais conversas, cheias de máximas e certezas. Dias a deambular por estranhos dogmas, que misturam filosofia, vício e mania nos cornos.
Sou "socialmente activo".
Faço-o para me divertir.
Gosto de sair e falar com diferentes tipos de pessoas. Gosto de as observar, de as ouvir e de me rir com elas. Gosto de debater ideias, assuntos, opiniões, gostos, e tudo o que as circunstancias permitirem.
Gosto de partilhar.
Apesar de manter um infantil fascínio pelos mais invulgares - os vilões, os não-alinhados, os renegados, os incompreendidos, os rebeldes, os que "têm pancada", os que "não jogam com o baralho todo" - estaria a mentir se dissesse que aprendo menos com os "comuns". Os normais. Os mais simples. Os que estão no rebanho. Os chatos.
O retorno é idêntico.
É que eu tenho uma deficiência.
Gosto desta simbiose.
Fomento essa dicotomia.
Preciso que ela continue a existir, porque estou completamente viciado em observar pessoas, inventando novos estereótipos.
Adoro com o mesmo fulgor, tanto uma boa hipnose de massas, como o louco da aldeia que apenas consegue dizer a verdade.

- 'Tás ai?
- 'Tou - responde ela do outro lado com aquele sorriso.
- Quando te quiseres ir deitar, diz. Eu desligo.
- Não tenho sono. Sabe-me bem ouvir-te. Gosto de falar contigo.
- Eu nunca tenho sono - desabafo.
- Já reparei. És puro desassossego. Tens toda a vida dentro de ti... Eu gosto disso.
( Comigo é sempre "Eva e Adão". Nunca o inverso.)
 - Achas-me doidinho de todo, portanto - respondo brincando.
( Nunca sei como responder a um elogio. Mas tenho de aprender. Já é hora de correr bem.)
- Ache o que achar. Acredita que não têm importância. Adoro-te na mesma... Desassossegas-me. Não me sais da cabeça.
( Uma mulher que tudo revela, não tem golpes para dar.)
- E da pele? - provoco.
- Não me sais de lado nenhum - responde-me num suspiro doce.
( Adoro-a. Sinto-me um puto. É a prova. Estou vivo e ainda acredito.)
- Queria estar contigo... Queria tanto te beijar, mas tanto... - confesso baixinho.
- Eu também. Preciso tanto de te sentir.
- Então temos de resolver isso - respondo fanfarrão.
- Agora! Vem ter comigo agora. Já!
- Agora?
- Já devias cá estar.
- Nem tenho hipótese pois não? - brinco mais uma vez.
- Não.
( Silêncio. Ainda estou a digerir a coisa. O peito acelera.)
- Vens? - pergunta-me irresistivelmente.
- Vinte minutos e estou ai.
- Dá toque quando chegares.
- Ok. Beijos.
- Beijo.

Por um segundo olho para o telefone mudo e penso: "Devia ter dito trinta."
Mas aqui não se luta justamente. "Azar o meu."
Na minha cabeça apressada desenrola-se um infalível plano de acção.
Tomei banho há pouco tempo e apresso-me a lavar os dentes.
Visto-me num par de minutos, borrifo-me ligeiramente com o meu melhor perfume e encho os bolsos do casaco com o indispensável: Carteira, chaves de casa, chave do carro, maço de tabaco e isqueiro. Os trocos vão para o bolso das calças.
"Caramba, já sei que se vão espalhar todos assim que me sentar no automóvel. Que se lixe."
Vejo as horas, apago todas as luzes, faço uma festa ao cão que dorme a sono solto e fecho a porta de casa.
Enquanto desço para a garagem vou pensando se me esqueci de alguma coisa.
"As luvas, porra."
Ao último degrau viro o sentido da marcha e corro escada acima.
Mal abro a porta, tento fazer uma selecção de qual interruptor me poderá ajudar a ver o caminho até às luvas. "Não penses mais nisso. Carrega em todos."
Tenho pressa dentro do peito e por mais rápido que seja o pensamento, nunca conseguirá bater a minha ansiedade.
Apago tudo outra vez, volto a fechar a porta e assim que desço as escadas pego nos trocos que tenho nas calças, e transfiro a quantia para um bolso do casaco.
Chave do carro.
Click.
Fecho a porta e atiro o casaco para o banco do pendura.
Carro a funcionar. Música.
Mute.
Isto não é viagem para distracções. Aliás, raramente conduzo à noite com o radio ligado.
Comando do portão.
Click.
Pela primeira vez na vida, acho o mecanismo demasiado lento para as minhas necessidades.
"Será que dá para programar isto para abrir mais depressa?"
Rio sozinho da minha estupidez e acalmo um bocadinho.
"Tem calma rapaz. Olha para o relógio. Tens tempo. Vai com cuidado."
Adoro o meu carro novo. É a extensão ideal do meu ego masculino. É potente, bonito e confortável. Melhor, só mais caro... e mais raro.
Deslizo dentro da lei, pelas ruas molhadas, agora vazias. Sereno e atento. Pelas ruas onde já passei tantas vezes e de tantas formas diferentes. Ora sozinho ora acompanhado. As ruas onde tanto aprendi. As ruas que me foram aconchegando pensamentos, paixões, surpresas, traumas, eu sei lá...
"Agora... Já sou grande. Já sou adulto... ou quase" penso para mim, troçando da minha urgência em amar.
Ela inspira-me.
Esta mexe comigo de uma forma diferente.

Os passos vão-se dando lentamente e tudo se apaga devagarinho.

Aqui estou, rodando de somáforo em somáforo. Recordando de como as mulheres são tramadas. Têm um péssimo timing de chegada à minha vida! Ou é muito cedo, ou demasiado tarde. Ou está muito frio, ou o verão é impiedoso. Mas sempre fora de tempo, acompanhando-me madrugada fora, em insónias, onde as unhas sofrem, até saborear o sangue. Até ouvir acordado o irritante barulhinho do despertador.
Esta deixa-me dormir.
Nada inventa.
Apenas sente.

Há quem diga que "não se pode ter tudo"! Mas bem cá dentro, tenho um demónio, bem gozão e persistente, que me questiona sempre: "E porque não?"
E insiste:
- Porque não hás-de ter tudo?

Faço pisca para a direita e cheguei ao meu destino.
Na rua amontoada de carros, um qualquer acaba de sair, deixando-me um espaço para estacionar a poucos metros da entrada do prédio dela.
Puxo o travão de mão e desligo o veículo.
Click
Arrasto qualquer coisa impalpável e ligo.
- 'Tou?
- Estou cá em baixo.
- Eu abro-te a porta. É o 2º esquerdo.
Click
Caminho em direcção à porta do edifício.
Bbbzzzzt
A porta da rua abre e logo a seguir bate devagar.
O elevador já cá está em baixo.
Carrego no 2 e olho-me ao espelho. Dou um jeito ao cabelo até gostar do que vejo e sorrio para mim mesmo.
Pim.
Na porta entreaberta está o sorriso mais lindo do mundo, emoldurado por um fino robe pérola aberto, disfarçando uma condizente camisa de noite, muito elegante.
- Despacha-te - diz baixinho enquanto ri, fazendo-me sinal com a mão.
Eu faço-lhe a vontade com prazer.
A porta fecha.
Um beijo da-se.
Um abraço sente-se.
Com as mãos na parte de trás do meu pescoço, olha-me sorridente, bem no fundo dos meus olhos e troça.
- O menino está 3 minutos atrasado.
- Desculpe, mas chegar-se a horas não dá estilo. É sinal que não se tem mais nada para fazer - respondo brincando.
- Ah sim? Por acaso tens melhor coisa para fazer que me beijar? - questiona confiante.
- Para ser sincero... nunca tive.

A magia acontece.

quarta-feira, janeiro 15, 2014

O Divã - VIII - A FÉNIX pt I




A porta do carro do carro fecha-se automaticamente.
Agora tenho um carro fino.
O chão do parque de estacionamento está cheio de poças de água. Por algum vaidoso motivo o caminho mais rápido entre dois pontos não é uma recta.
Ajeito as luvas e preparo o guarda chuva enquanto subo as escadas.
Olho para o céu mas ele não me sorri. Chora-me um inverno vulgar e um arco-íris pouco colorido.

A cidade não faz muito. As pessoas acabaram de almoçar há pouco e o ritmo é tranquilo. Uma massa cuidadosa, sapateando no compasso dos pingos grossos.
Esses incómodos kamikazes líquidos.

As botas novas podem ser lindas, mas quando combinadas com a calçada, fazem-me gingar mais do que necessário. Aí vou eu, dançante e fora de tempo, a caminho do consultório.
Danço sem querer.
Desvio-me duas vezes e troco olhares com uma loira serena. Rapariga para as minhas idades, muito bem vestida e certamente comprometida.
Ela sorri discretamente mas a minha responda é mais rasgada.
A ousadia vale-me aquele mágico rodar de cabeça. Silencioso. A cena é composta pelo sorriso surpreendido. Arrancado pela minha falsa segurança. Olhos nos olhos em passo lateral, afastando-nos lentamente.
- E como era lindo aquele sorriso.
Volto a olhar para trás e encontro-a de novo. Embaraçada e brilhante. São demasiados sacos de compras pela porta de trás de um carro.
Ela ajeita o cabelo e endireita a pose como se esperasse por mim, mas eu encolho os ombros e aponto para o pulso.
- Estou atrasado.
Ela responde resignada com a expressão no rosto.
- É pena! Fica para a próxima.
Retorno ao meu caminho e antes de bater com os olhos no chão, já vou a pensar.
- Cobarde de merda. Por uma mulheres daquelas vale a pena chegar atrasado a todo o lado. Até podia ser a mulher da tua vida. Agora nunca mais a vês.
Faço sempre isto: Recebo o convite, mas nunca avanço... e depois arrependo-me.
Já está na altura de virar à direita, andar uns metros por uma rua torta e tocar à campainha.

- Bom dia. Como é que está? Tudo bem? - Pergunta-me ele com um tremendo sorriso.
Este tipo está mesmo contente por me ver.
- Está tudo bem obrigado - respondo educadamente.
- Entre, entre. Pode deixar ai o guarda-chuva - Indicando-me o local com um gesto.
- Obrigado - agradeço enquanto limpo os pés no tapete.
- Venha, venha. Há tanto tempo que não aparecia cá. Até pensei que já me tinha abandonado.
Eu vou andando, desapertando o casaco e retirando as luvas.
- Entre e esteja à vontade. Quer alguma coisa? A mim apetece-me numa chazada. É de camomila.
- Não doutor. Obrigado. Estou bem. Acabei há pouco de almoçar.
- Se mudar de ideias, não faça cerimonia.
Deve estar a tentar bater um recorde de amabilidade - penso eu sarcasticamente.
- Sente-se se faz favor.
Eu aceito o convite e continuo a despir-me. O consultório está quente. Primeiro o casaco, depois o cachecol.
- Já estava com saudades suas - diz sorridente - Está com bom aspecto! Está mais magro?
- Estou sim - respondo sorrindo.
- Mas tem feito alguma coisa? Desporto?
- Não doutor. Só stress, má alimentação e tabaco - ironizo.
Ele sorri.
- Mesmo para quem se tem tratado tão mal, está muito bem. Mas diga-me. O que o trás por cá? Que é que tem para me contar? Já não aparecia por cá há uns meses.
- Deixe-me só por o telemóvel no silêncio.
- Faça favor.
Suspiro fundo e atiro:
- Nem sei por onde começar.
- Diga-me você! Eu não sou adivinho - diz brincando.
- Esta altura do ano é sempre tão cheia, que tenho medo de não conseguir organizar o discurso de forma cronologicamente eficaz.
- Então, se bem me lembro da ultima vez que cá esteve... Como é que está aquela situação com a rapariga? Já resolveu a questão?
- Sim já - respondo orgulhoso.
- E então? Como foi?
- De uma forma pouco ortodoxa - respondo divertido.
- Não esperava que fosse de outra forma. Afinal de contas, não podemos deixar de ser o que somos.
Ele tem graça.
- Por vezes dava jeito, mas realmente não podemos.
- Mas conte-me!
- Estou resignado e de consciência tranquila. Tentei de tudo mas não tive hipótese. Ela não me deixou alternativa. Ainda nos voltamos a reaproximar mas as dinâmicas dela continuaram. Dizia que ainda me amava mas as suas acções não o comprovavam. Dizia-me uma coisa mas acabava sempre por fazer outra. Além disso, tudo se tornou ainda mais doentio. Obsessivo. Compulsivo. Mentiras sobre mentiras, turbilhões de emoções, enfim... você tinha razão.
- Sim eu alertei-o para as condições dela. Pelo que me contou, era pessoa que nunca poderia encaixar na sua dimensão, na sua vida. Até pelos comportamentos que apresentava consigo. Seria muito difícil para si. Não estava em posição de lidar com uma personalidade tão conturbada.
- Pensei que fosse mais complicado. Terminar tudo, entenda-se. Até porque a páginas tantas, pensei ainda em tentar ajuda-la.
- Como assim?
- Com aquela doença toda que se apoderou da vida dela. Ela estava irreconhecível. Completamente insatisfeita e destruída... mas... se o fizesse, poderia comprometer o meu equilíbrio. A minha própria estabilidade emocional. Então fui estremando a minha posição e ela nunca se superou. Sequer uma única vez. Não aguentava a pressão.
- A pressão? Não entendo.
- Ela é que chamava pressão ao facto de eu lhe exigir respostas.
- Bem, qualquer exigência cria pressão.
- De acordo, mas eu precisava de resolver o assunto e não arrastar a novela para sempre. É legitimo querer esclarecer a nossa relação. Sentia mesmo a necessidade de resolver a minha vida. Aliás, foi o doutor que estabeleceu como prioridade este assunto.
- É verdade. E digo-lhe que estou bastante feliz consigo. Por te-lo feito. É grande prova de força.
- Não vamos embandeirar em arco - aviso pertinentemente - Ela facilitou-me muito a coisa. Cada mensagem, cada conversa, cada resposta, acentuava mais a sua falta de carácter. Tudo o que me disse e me escreveu, afastou-me dela. Hoje em dia, ela é uma pessoa totalmente diferente. Não tem nada a ver com a mulher pela qual me apaixonei. Sequer reconheço algum aspecto nela que me cative actualmente.
- Compreendo... Mas na minha opinião, deveria ficar com alguns créditos por essa libertação.
- Olhe que eu estava a ver o caso mal parado. Tive muito medo de não o conseguir. Não sei se fui eu, se foi ela, se foi Deus ou o diabo... Nada sei. Mas a coisa esteve muito negra.
- Mesmo assim deve recolher alguns louros por esse passo.
- Acabo por recolher agora, que me sinto melhor.
Ai está ele a rabiscar qualquer coisa.
- Por favor prossiga.
- Uma coisa que me surpreendeu, foi que pouco tempo depois de terminarmos, senti-me logo... como dizer?
- Aliviado? - interrompeu.
- Sim. Fiquei aliviado. Soube muito bem conseguir respirar fundo e encaixar todas as peças.
- Soube bem arrumar a casa...
- Sim. Essa situação foi determinante para não ter momentos muito pesados ou recaídas... pelo menos até agora. Assumi uma posição muito recta. Meio espartano, meio estóico. Encaro isto com uma tremenda seriedade. Por exemplo: Apaguei os números de telefone, destruí cartas de amor, presentes, etc.
Mais um apontamento e continuo.
- Evito estar no mesmo sitio que ela, cruzar-me com ela nas suas novas rotinas, enfim... faço para que a coisa corra pacificamente, sem problemas.
- Mas não acha um pouco forte, o tom da separação? Estou a notar um certo extremismo nas acções. Não ficaram amigos?
- Eu até um certo ponto tentei. Confesso que não gosto de condicionar a minha vida por causa de terceiros.
- Sim pelo que conheço de si. Deve-lhe custar bastante, sendo como é - interrompe franzindo a testa.
- Mesmo muito - respondo com um sorriso.
- Mas não se afaste do tópico. Elabore um pouco mais sobre a separação.
- Eu quando me apercebi do desnorte dela, procurei assegurar a amizade. Já o tinha referido. Mas não foi possível. E nisso atribuo-lhe a totalidade da culpa, porque mentir-me compulsivamente era desnecessário. Não havia qualquer razão para entrar nesse tipo de espiral emocional negativa. Acho que chegou mesmo a terminar o namoro com o actual rapaz e tudo. No entanto a minha posição afectiva não estava assegurada. Eu não queria voltar a ela de qualquer maneira. Insegura como é, sentiu ali um salto no caminho de volta. Ela é rapariga que gosta de "transitar" com segurança.
Uma contagiante gargalhada vibra do outro lado da conversa.
- Desculpe, mas tem muita graça. Realmente é bastante comum nos dias que correm. Por favor.
Com um sorriso prossigo.
- No caso dela, é histórico. Sempre assim foi. Só sai dali quando tem certeza que tem "poiso" noutro lado. Ela não foi feita para estar sozinha - troço também um bocadinho.
Ele ainda ri e limpa uma lágrima.
- Por favor. Sabe que isto de imaginar estas situações, pode ser complicado. Eu também só o faço consigo porque sei que tem sentido de humor.
- Esteja a vontade. Que isto seja divertido para alguém - afirmo descontraidamente.
- Desculpe-me. Por favor. Faça o favor de continuar.
- São coisas que não posso controlar. Fiquei triste porque tenho um carinho especial por ela, mas os últimos dias, foram momentos de descontrolo total. Foram momentos muito feios: Discussões, guerras, ameaças. Nada mais podia fazer senão implodir a relação. Tive de o fazer assertivamente. Tive de ser agressivo. Deixar que o pior de mim resolvesse o problema. Daí levar tão a sério este período de tranquilidade.
- Compreendo. Então para si, esta pessoa pertence ao passado? Não se imagina a restabelecer contacto com ela?
- Não - respondo serenamente.
- Sabe que a vida dá muitas voltas? - pergunta-me nos olhos.
- Sei que não existem "nuncas"... Mas que também não existem "sempres"...
Recosto-me no divã e aprecio o silêncio que a minha frase deixou no ar.
Segundos passaram por olhares sérios, numa nova paz de respirar tranquilo.
Do outro lado um sorriso compreensivo acompanha-me até ao som.
Já adivinho o próximo tema de conversa.
- Então estando isto "arrumado", que mais o trouxe cá?
- Pois é doutor. Metei-me noutra.

segunda-feira, janeiro 13, 2014

Ferro Velho

Estaria rico com a quantidade de "ferro velho" com que me carregam todos os dias.
Fosse eu sucateiro.
Vendia ao peso a quantidade de patranhas que ouço há anos. Construiria uma fortuna porca.
É impressionante.
E para quê?
Ninguém sabe.

De qualquer forma existe algo que me diverte. Há algo de cómico no entulho.
Fascina-me a inconsciência do impostor.
Como é o próprio a perder a noção do que é real - sempre convicto e cínico - mentira atrás de mentira, até chegar a um embaraçoso silêncio.

Nos meus mais pacientes dias, assumo a minha posição e delicio-me com a historieta.
Acho graça e ali fico vibrando com a mirabolante construção que me estão a impingir.
Aceito o desrespeito com um sorriso e assumo a minha posição.
Não sou do tipo de acenar afirmativamente com a cabeça, ou desviar o olhar entre trejeitos  amarelados.
- Sim, sim, pois, pois.
Sou instigador. Sou publico. Um interessada audiência que incita o devaneio ao embusteiro.
Tenho um sádico prazer, em assistir ao contorcionismo de uma alma conturbada. Todos os movimentos errados, nos mais inoportunos momentos, até ao desgraçado embate com a realidade.

Eu assumo. Sou má pessoa.
Mas também ter de levar com isto, todos os dias, durante anos... custa.
Não nasci para sucateiro, mas tive de tirar o curso depressa.

E para quê?
Ninguém sabe.

quarta-feira, janeiro 08, 2014

O Picuinhas

Todos nós temos aquele amigo.

Aquele rapaz mais tímido, solitário, um pouco introvertido, com pinta de "menino copo de leite", meio totó, com medo de ficar solteiro para o resto da vida...
Esse mesmo.
Aquele que teve duas ou três namoradas, todas elas a dar para o esquisito. Das que "não arrebanham bem o gado".
Esse gajo.
Esse tipo que parece que puxa o azar. Que o raio cai duas ou mais vezes no mesmo sítio. Que nasceu embruxado.

Ora eu também tenho um amigo dessa espécie.
Vários talvez.

Acontece que o meu amigo, além das características acima enumeradas, tem outra que lhe faz correr o tempo mais depressa: É "picuinhas".

Não estou a falar de padrões ou de expectativas legitimas, estou a falar de ninharias.
De toda e qualquer desculpa para não se meter noutra.

Atenção que não me estou a referir a uma pessoa, com um tipo de mulher. Este não pertence à classe dos especialistas: Os arrastões, os pitólogos, os papa-mães, os pescadores, os das divorciadas, os que buscam "patinhos feios", os "xilofone de osso", os "carta de pesados", os "fruta madura que ainda rompe meias solas", os das brasileiras, os abutres, os "pesa mais que uma bilha do gaz e já sabe ler", os exóticos, os "gajas que parecem homes", os das doutoras, os "mulheres há muitas, heranças há poucas", os das doidas, enfim... toda a variedade de "ninjas da bandidagem" que por ai circulam.
Não escrevo destes comandos batidos, escrevo de um puro sem tipologia.
Este man é da tropa macaca.

Este gajo é esquisito.
É para além de esquisito.
É completamente adoidado. Chalupa mesmo. O moço tem uma jigajoga qualquer na cabeça, que o impede de agir eficazmente com uma fêmea.

Passo a exemplificar.

(Todos os nomes utilizados serão fictícios... ou talvez não)

- Precisava mesmo de uma namorada. - desabafa ele lucidamente.
- Então e a Rute? Já se andam a comer há bué. Não gostas dela?
- Epá... Eu até gosto dela, mas ela depois está sempre muito apaixonada, toda das entregas, e eu não 'tou para esses amores.
- Mas se ela gosta de ti e tu gostas dela...
- Eu gostar gosto, mas não é aquele gostar gostar. Percebes?
(Não)
E continua.
- Depois também não tem aquele nível boneca. Ela não é feia, mas também não é linda... Não é que eu só queira gajas lindas, mas... não. Não é miúda para mim. Se ela se pudesse evaporar no fim de cobrimos, era o ideal.
- Ah, não curtes falar com ela? Não gostas de partilhar tempo com a rapariga?
- Não é isso. Nós falamos bué. Cenas sérias da vida dela e tudo. Somos amigos 'tás a ver? Mas é só antes de irmos para a cama. Depois ela vem-me com meiguices, miminhos p´ra qui, abraços p'ra acolá e p'ra isso já não tenho paciência.
- Pá, mas isso faz parte. ´Tá nas regras do "cobrimanso". Também é só um bocado.
- Ya, mas ela é muita chata.
- Mas se gostas de dormir com ela. Se gostas dessa parte... já sabes que tens de pagar portagem. Ou não curtes?
- Curto curto. Nisso ela é valente. 'Tá sempre pronta. Tem sempre vontade. E gritos até ao fim do mundo. Um gajo fica todo cavalão. E tudo. Com ela não há limites. Tem um corpo bem fixe e é doidona. Aquilo é tudo nu, tudo a cavalo.
- Fixe fixe... Eu não sou daqueles gajos do demasiado doidona. Não percebo essa categoria. Há gajos que se acanham quando a mulher é mais activa.
- Isso 'tá-se bem. É só ter uma beca de cuidado nos preliminares com a roupa, que o moist deixa aquela nódoa fatela. Passava a vida a limpar as pontas das camisas. Agora ponho-me logo em tronco nu.
- Então ainda não é desta? - pergunto.
- Nah...
- E a Margarida?
- Vive muito longe. Ainda por cima é amiga do pessoal e isso deixa-me desconfortável.
- Porquê?
- Não sei. Não me sinto à vontade andar com gajas com muitos amigos em comum comigo.
- Isso é estranho meu.
- Epá pode ser, mas... não curto.
- E a outra? A Catarina?
- Qual?
- A amiga do Pedro. Aquela que conheceste quando foram todos sair lá naquela cena hipster no Bairro Alto.
- Ahhhh. Ya. Essa é divertida. Muito fixe. Trocamos números de telefone e tudo.
- Andam nas mensagens?
- Não.
- Não lhe disseste nada?
- Não. Não sei o que lhe hei de dizer.
- 'Tás-me a dizer que tens o número dela há meses e ainda não lhe disseste nada? - pergunto incrédulo.
- E vou-lhe dizer o quê?
- Sei lá meu. Inventa. Não estiveram uma noite inteira a falar? Sozinhos...
- Ya. Estivemos.
- E falaram do quê?
- Não sei. Já não me lembro. Bué cenas.
- Quer dizer. Chegaste aqui a dizer que ela era gira, simpática, com sentido de humor...
- E é. - Interrompeu ele.
- E nunca mais lhe disseste nada? Achas essa merda normal?
- Não sei o que lhe dizer.
- Foda-se - sai-me indignado - manda-lhe mensagem agora.
- A dizer o quê?
- Qualquer merda. É só para ela saber que te lembras dela. Convida-a para um jantar, cinema, um café... essas coisas do "quero-te comer", disfarçado do "quero-te conhecer melhor".
(Nem entendo muito bem estes disfarces que não o são)
- Agora não. Eu amanhã envio.
- Agora não porquê?
- Porque não... Sei lá... tenho de pensar no que lhe vou dizer...
- Porra. Tu assim não desencalhas.
- Que é que queres? Sou assim.
- És como és... Mas essa cena é de amador.
- Epá... - responde resignado.
- E a Núria?
- Boa! Boa tranca.
- Tens falado com ela?
- Só no facebook. Mas foram só três vezes... E conversas da merda...
- Pelo menos tens o número dela?
- Era para lho pedir, mas depois esqueci-me. Mas a pita tá boa. Quem diria?
- Não sei como é que ela era. Já só a conheci crescida.
- Eu também só sei porque de vez em quando, ia lá à loja da mãe dela. Mas muita campónia. Lembras-te daquela noite?
- Ya.
- Eh pá. Ela e a outra a falarem... Cuidado. Muita rudes, sem conversinha nenhuma de jeito, com um sotaque muita carregado... eh eh... todas pindéricas. Aquelas duas também é só corpo, que lhes vai um vendaval entre as orelhas... E de cara também não são grande espingarda.
- Mas davas-lhe uma trinca?
- Epá dava, mas tinha de 'tar calada. Se ela se pusesse com ideias era logo: Psiuu. Pouco barulho. Mansa. Aquela vozinha da-me dores de cabeça.
- E a outra psycho? A que falta do trio Odemira?
- Também gosto. Um bocado a dar para o osso, mas também o gramava.
- Prudência. Faz atenção que ela tem namorado.
- Ah pois é. Já me esquecia.
- Quer dizer. Hoje em dia...
- Ya meu. Elas todas têm namorado, ou em vias, ou amancebadas com algum xunga. Conheces alguma gaja que não esteja metida num cambalacho qualquer?
- Poucas. Muito poucas - confesso.
- Isso também me faz uma beca de confusão. Parece que não conseguem 'tar sozinhas? É um estigma social qualquer. Eu não percebo... Vês? Nestes moldes, um gajo não tem muito por onde se mexer?
- Eu acho é que tu não dás conta da fartura. Não dás vazão - provoco brincando.
- Mas não dou o quê? Qual fartura? Mas onde é que tu vês essas gajas, que eu ando por todo o lado e nada me vem parar ao colo? Isto parece os saldos. Está tudo escolhido e remexido. Parece a feira.
- Epá mas tens de dar hipótese. Às vezes está lá um diamante. É preciso ter calma e analisar devidamente.
- Eu não me oriento assim. Dantes eram todas diferentes, agora são todas iguais. Vestem-se de igual, falam igual, agem igual. Agora as pitas todas têm óculos de massa? Achas essa merda normal? Desde quando? Vamos à discoteca, e já nem sabemos se elas tão em lazer ou em trabalho? É que elas pensam que estão muito lindas, mas aquilo é só foleiradas. Cotas e tudo. Eu já percebia pouco do artigo mas agora 'tou mesmo às escuras. Dizem-me para procurar, mas eu p'ra estes carnavais, prefiro nem sair de casa.
- Quem procura... acha.
- É disso que tenho medo. De achar mais entulho. Desculpa lá mas não consigo ser positivo na cena. Eu acredito no Amor. Quem me dera a mim encontrar o Amor da minha vida e essas coisas todas muito lindas, mas assim... Olha-me para este Mundo. Olha-me para a noção de Amor que existe hoje em dia. Olha-me para as relações das pessoas. Tudo faz de conta. Tudo inventado... e pior... por outras pessoas, pela sociedade, pelo que deve ser. O rebanho zombie cresceu e vai lá descobrir o Amor da tua vida no meio daquilo tudo. É preciso ter muita sorte.
- E a solução é desistir?
- Epá eu não sei de soluções, mas quando descobrir... se descobrir... és o primeiro a saber.

Fico contente por ele ser picuinhas.
É bom sinal.
Salvem os picuinhas.
Não à extinção.

segunda-feira, janeiro 06, 2014

A importância das miúdas giras

O problema dá-se quando acordo...

De repente tudo mudou.
Abro os olhos num quarto escuro, cheio e perfumado.
Do lado de fora, as horas já passaram pela manhã e a chuva não pára de embalar o cinzento.
Acordo ainda sem certeza.
- Há cor a mais. Só posso estar a sonhar.
Suspiro e espreguiço. Bocejo até o resto expulsar.
- Só posso estar a sonhar.
Olho para o lado para confirmar que estou sozinho.
E volto a olhar.
Ficou só a magia.
O meu corpo estendido e quente, cresce a cada reflexo. Vai largando a moleza lentamente. Todos os músculos estão doridos, mas nada me doí.
Faço tudo o mais devagar possível. Em câmara lenta. Tudo para não perder o saborosa paz que me adoça por dentro.
Misteriosamente o problema já não se dá.
Ali fico de olho aberto a olhando o tudo e a sentir-me a pessoa mais feliz do mundo.

Pum.
A porta do quarto abre para um sorriso canino, cheio de alegria. Arfando com felicidade.
- O meu dono está acordado.
Ali fica trocando olhares, respeitosamente sentado à porta do quarto, com a meiguice que me faz sorrir.
- Bom dia!
Tuc tuc tuc, responde-me ele com o rabo.
O que ele me quer dizer é:
- Bom dia malandro. Isto é que são horas? Agora veste-te, faz-me uma festa e vai-me abrir a porta que eu quero ir à rua.
Bocejo mais uma vez, e faço subir o estore.
Ainda é inverno.
- Aguenta-te. Contenta-te com o verão que tens dentro de ti.
Visto um pijama largo, incrivelmente confortável - estou mais magro - e com os mais preguiçosos passos, faço a vontade ao príncipe.
Ele agradece-me com uma lambidela na mão.
Volto para o quarto para me aconchegar com um robe macio que recebi no Natal.
Prenda da avó.
- Eu nem gosto de robes mas este é especial.
Olho para o telemóvel, mas nem quero saber.
Que se lixem as horas, as mensagens e as chamadas não atendidas.
Olho para os comprimidos e para o maço de cigarros, mas não quero nada daquilo.
Que se dane a psicossomática e a ansiedade.
Estou bem demais.
Basta chegar ao espelho da casa de banho para comprova-lo.
Tenho no peito a vaidade que só uma mulher linda me pode oferecer.
- Ou então sonhei.
Que interessa?

É altura de engonhar ao máximo.
Aproveitar. Contemplar. Usufruir. Apreciar.
Que daqui a bocado tenho de voltar para o resto do Mundo.
Deixo-me pairar.
Saboreando a leveza da felicidade e a sorte dos audazes.

Tenho música dentro de mim e um ano novo para festejar.

Tenho tanto, mas tanto.
Tanto...
E tão bom.

Acho que continuarei a fazer listas.
Só para não me desorientar. Para continuar este meu desassossego não alinhado.
O meu amor leu-me o horóscopo para 2014 e eu tenho que me por a pau.
Vai ser um ano muito cheio.
Intenso.
Tem de o ser!

São milhões de afectos para trocar. Camiões cheios de infinitas quantidades de risos e miminhos.
Mil horas de estúdio a soar.
Outras mil como taberneiro de blazer.
Dezenas de canções novas para fazer vibrar.
As linhas correntes à velocidade de um novo tom.
E a dedicação a tudo o que me calhou de bom.

Esta é a importância das miúdas giras.
É uma questão de espelho.

A Dieta - 5 - A Pesagem

IMC - 26,33 Sobrepeso Não me posso pesar todos os dias. Diz que torna a malta ansiosa e acho que a ansiedade engorda. Posso-me pe...