quarta-feira, junho 18, 2014

O Diário - V - Donzelas Cosmopolitas

Eu nasci e cresci numa casa cheia de vida.
E nessa casa havia tudo.
Nunca me faltou nada. Nem a felicidade.

Como era lindo viver mesmo no meio de Lisboa.


Nessa casa existia um santuário. Um sitio mágico cheio de histórias e momentos únicos que nunca esquecerei.

Na parede do meu quarto podiam-se ler os seguintes versos.



Lisbon Revisited (1923)
NÃO: Não quero nada. 
Já disse que não quero nada. 

Não me venham com conclusões! 
A única conclusão é morrer. 

Não me tragam estéticas! 
Não me falem em moral! 

Tirem-me daqui a metafísica! 
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas 
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) — 
Das ciências, das artes, da civilização moderna! 

Que mal fiz eu aos deuses todos? 

Se têm a verdade, guardem-na! 

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica. 
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo. 
Com todo o direito a sê-lo, ouviram? 

Não me macem, por amor de Deus! 

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável? 
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa? 
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade. 
Assim, como sou, tenham paciência! 
Vão para o diabo sem mim, 
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo! 
Para que havemos de ir juntos? 

Não me peguem no braço! 
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho. 
Já disse que sou sozinho! 
Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia! 

Ó céu azul — o mesmo da minha infância — 
Eterna verdade vazia e perfeita! 
Ó macio Tejo ancestral e mudo, 
Pequena verdade onde o céu se reflete! 
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje! 
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta. 

Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo... 
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho! 

Álvaro de Campos - heterónimo de Fernando Pessoa


Estes versos.

Mesmo ao pé da minha enorme cama.
Mesmo no meio de toda a vida.

É verdade.

Sou de Lisboa.
Sou de arrancar a pé direito às luzes que pintam a cidade. Passar em todo o lado. Subir, descer e subir novamente.
Sou de estar na rua. Ou em casa de alguém. Ou no meu perfeito palácio, inventando.
Sou neto da Tia Alice das Batatas.
Fui aluno no Lyceu Camões.
Nasci e cresci num bairro. Com gente por todo o lado e tabernas a cada esquina. Numa rua onde todos os números das portas são pares, porque do outro lado da estrada existe um mercado.
Mesmo no meio de Lisboa.

Ah e como era lindo viver mesmo no meio de Lisboa...


Se fechar os olhos, ainda vos consigo contar tudo sobre os infinitos recantos da cidade magnifica.
Ou quase...

Quase, porque uma vida não chega para dominar tamanha magnitude.

Quase porque agora não quero saber.


"A gente chateia-se e o namoro acaba!"

E acabámos.

Eu e Lisboa só nos reencontramos por conveniência.


Já não a reconheço.

Tornou-se numa reles rameira. Vendida aos pedaços e aos parolos, por meia dúzia de tostões.
Deitou-se com falsos impérios e expulsou a sua alma.
(E agora vou escrever directamente à menina para ver se ela percebe de uma vez.)

"Faltam-te os lisboetas ó minha puta de merda. Burra! Parece que é atrasada. Mas o que és tu sem os que te amam?"


Há uns tempos fartei-me. Deixei de sorrir. Deixei de ser feliz.

Tudo estava vazio.
Cada vez existiam menos luzes.
Uns a pagarem este mundo e o outro. Outros expulsos para os subúrbios. O resto para o estrangeiro.
A nossa mãe deixou-nos ao abandono.
Cada vez apareciam mais campónios gulosos. Uns por voto, outros como carraças.
(Basta ver o fato.)
Outros ocupavam centenas de anos com venenos, artigos de baixa qualidade, vulgaridades e globalização.
Deixei de sorrir.

"E podem espernear e retorquir o que quiserem. A verdade é que a alma de Lisboa está moribunda.

Afundem-se com os vossos comandantes estrangeiros. Que me interessa essa merda.
Caguei."

E desertei.

Vim viver para o campo e passear o cão... sem trela.

Mas estas linhas não são apenas sobre a minha zanga com aquela parva.

Estas linhas são para falar de como os meus amigos, "nados e criados cá" - como diz a canção - se escandalizam com a minha opção.

"O Daniel agora vive no campo!"

(Escusam de estar já a sorrir. Eu adoro-vos - e estou cheio de saudades - mas vocês precisam de "ganhar chaveca"! "Ganhar tacto"! "Ter noção"! Ou seja... atinar.)

Como posso viver numa pequena vila, em pleno ambiente rural, longe da civilização?
Será possível abandonar a sofisticação da capital? Deixar a urbe.
É contranatura.
É anormal.

Estas ideias são constantemente reforçadas nos nossos contactos ocasionais.
"Ainda vives lá? Naquele sitio. Huuuum... Ok, ok, muito bem! Fixe. Não penas em regressar? E está tudo a correr bem? Então quando vieres cá a Lisboa depois apita. Adeus, abraços e beijinhos."
- E aqui entra todo o meu domínio, da "nossa semântica". Vou só traduzir para o resto da malta compreender.
O que me estão realmente a dizer é:
"Ainda andas a brincar ao campo? Naquele sitio com muitas árvores e tractores, cujo o qual me recuso a memorizar o nome. É que estive no estrangeiro muitas vezes e Portugal é demasiado pequeno para mim. Tudo soa ao mesmo... Ok, ok, tu lá sabes! Estás em completo delírio, já percebi. E quando é que essa mania te passa? E trabalho? Não há muito por onde escolher ai na parvalheira. De certeza que não ganhas tanto dinheiro como eu. Vá deixa-te de merdas. Essa pancada há de passar. Adeus. Estás todo comido desse cérebro. Estás aqui estás no Julio de Matos. Este gajo sempre teve a mania que era artista."

Confesso que esta sobranceria diverte-me.


Nem sei se devo começar pela parvoíce ou pela exaltação da ignorância.
Que seja a segunda.
Se entrar num carro agora, estou à porta da minha casa de Lisboa em 45 minutos.
- Aqui entre nós, que ninguém nos lê, demoro menos tempo, do que ir buscar uma querida aos subúrbios.
E o paternalismo.... Como se fosse um acto de falsa rebeldia:

 "É uma fase. Talvez uma crise... Isto dos trinta anos é uma segunda adolescência."
- De facto sou eu que estou horas a ver pornografia na internet. Atenção... Mas só nos intervalos dos joguinhos em rede, enquanto a mulher engorda no sofá a ver séries. Toda amassada entre mantas e almofadas do ikea, a fantasiar com um actor qualquer. Sim porque no Sábado o pessoal do "meu clã" vai fingir que tem vida social e vamos todos jantar fora. Três cervejas depois, já "muita doidões" vamos para uma discoteca de putos "random wtf", só para babar um bocadinho e ver o cú das pitas. 60 e tal euros depois e um taxi vomitado, "é na boa". No máximo às duas e meia estou na cama de "tenda armada", a roçar-me na esposa. "Amor... vamos experimentar coisas novas". É claro que sou recusado porque "sou parvo e já não tenho idade para essas merdas". Alem disso amanhã tenho de me levantar cedo para levar o puto à bola, almoçar com os sogros e entediar-me até à morte.

Sem estereotipar é claro.


Pobre de mim, que nunca tive de pagar uma prestação de uma casa, a uma data de chulos.
Posso ficar simplesmente descansado, enquanto vocês aturaram os saloios exilados, do Bairro Alto ao Cais do Sodré, passando pelos Santos.
"Ai este ano foi tão giro!"
- Foi a mesma merda de sempre. Todos os anos é igual.

Pobre de mim.
Eu que nunca fui público para as vossas mágicas aventuras pelo turismo rural.

Nem quero saber daquele dia de vindima - para bestas urbanas - que foi tão giro.
"Ai levei um vestidinho de verão porque estava calor, bla bla bla bla..."
- Sim já sei. Depois toda a gente te viu as pernas e passaram o dia de volta de ti.  Foi tão giro que devias andar lá um mês a acartar cestos para ver o que é trabalho, ó "miss folha de excel".


Sem estereotipar é claro.

Mas a melhor de sempre foi esta:
"Olha que não é aí do campo que salvas donzelas cosmopolitas!"


Juro que conseguia fazer deste carinhoso aviso um livro.
Se calhar o meu melhor.
(E se tiver tempo, depois de amanhar o terreno e cuidar da minha junta de bois, talvez ainda volte ao tema.)
Mas o poeta - lisboeta como eu - já te respondeu.


Infinitas saudades.
Beijinhos, abraços e por favor... Não sejam mais saloios que os próprios.


Até breve.


LISBON REVISITED (1926)
Nada me prende a nada.
Quero cinquenta coisas ao mesmo tempo.
Anseio com uma angústia de fome de carne
O que não sei que seja —
Definidamente pelo indefinido...
Durmo irrequieto, e vivo num sonhar irrequieto
De quem dorme irrequieto, metade a sonhar.
Fecharam-me todas as portas abstractas e necessárias.
Correram cortinas de todas as hipóteses que eu poderia ver na rua.
Não há na travessa achada número de porta que me deram.
Acordei para a mesma vida para que tinha adormecido.
Até os meus exércitos sonhados sofreram derrota.
Até os meus sonhos se sentiram falsos ao serem sonhados.
Até a vida só desejada me farta — até essa vida...
Compreendo a intervalos desconexos;
Escrevo por lapsos de cansaço;
E um tédio que é até do tédio arroja-me à praia.
Não sei que destino ou futuro compete à minha angústia sem leme;
Não sei que ilhas do Sul impossível aguardam-me náufrago;
Ou que palmares de literatura me darão ao menos um verso.
Não, não sei isto, nem outra coisa, nem coisa nenhuma...
E, no fundo do meu espírito, onde sonho o que sonhei,
Nos campos últimos da alma onde memoro sem causa
(E o passado é uma névoa natural de lágrimas falsas),
Nas estradas e atalhos das florestas longínquas
Onde supus o meu ser,
Fogem desmantelados, últimos restos
Da ilusão final,
Os meus exércitos sonhados, derrotados sem ter sido,
As minhas coortes por existir, esfaceladas em Deus.
Outra vez te revejo,
Cidade da minha infância pavorosamente perdida...
Cidade triste e alegre, outra vez sonho aqui...
Eu? Mas sou eu o mesmo que aqui vivi, e aqui voltei,
E aqui tornei a voltar, e a voltar,
E aqui de novo tornei a voltar?
Ou somos todos os Eu que estive aqui ou estiveram,
Uma série de contas-entes ligadas por um fio-memória,
Uma série de sonhos de mim de alguém de fora de mim?
Outra vez te revejo,
Com o coração mais longínquo, a alma menos minha.
Outra vez te revejo — Lisboa e Tejo e tudo —,
Transeunte inútil de ti e de mim,
Estrangeiro aqui como em toda a parte,
Casual na vida como na alma,
Fantasma a errar em salas de recordações,
Ao ruído dos ratos e das tábuas que rangem
No castelo maldito de ter que viver...
Outra vez te revejo,
Sombra que passa através de sombras, e brilha
Um momento a uma luz fúnebre desconhecida,
E entra na noite como um rastro de barco se perde
Na água que deixa de se ouvir...
Outra vez te revejo,
Mas, ai, a mim não me revejo!
Partiu-se o espelho mágico em que me revia idêntico,
E em cada fragmento fatídico vejo só um bocado de mim —
Um bocado de ti e de mim!...

segunda-feira, junho 09, 2014

O Diário - IV - Eu logo vejo

Estou surpreendido comigo mesmo.
Não tenho estado. Mas hoje estou.

Vim para matar saudades.
Para partilhar e fumar uns cigarros largos, refastelado no mundo lexical.

É que à medida que o tempo passa vou perdendo a amargura.
Parece que a maldição desapareceu.
- Deixa-me já bater na madeira que isto nunca fiando. Cuidado aí com os bruxedos.
Mesmo assim.
Sinto-me... bem.

Ora com a enormidade de coisas que se aproximam, estranho a minha tranquilidade.

- E talvez não seja tempo disso?

Coisas de relógios.
Tenho uma data deles e não uso nenhum.

É que tenho um problema com a Actualidade.
Ela aborrece-me e eu não me dou bem com tédios.
Coitada.
Ela não tem a culpa. É o reflexo do que tem de ser. É simplesmente parva.
Demasiado insegura e volátil para ser levada a sério...
Como...
Como uma "smi-virgem".
(Eu sei que o conceito carece de explicação. Preferencialmente extensivo e em formato de tese. Afinal existe todo um universo filosófico no âmago do assunto. Mas adiante. Não "temos tempo". Um dia voltarei à questão, e entretanto talvez a própria deixe de ser virgem completamente.)
Vá.
Simplificando.
Ela é um tipo de presente mais que imperfeito do condicional imperativo.

- Curtiram? Inventei esta cena agora à pressão.

Parece que me habituei a tanta virgindade.

É que viver neste mundo de verdades absolutas da-me vontade de rir.
Adensa-me a presunção - não fosse eu "um gajo maniento"- empurrando a minha alegre arrogância, para troçar das agraciadas epifanias entre a luz e a lucidez.
Estas realidades comovem-me!

Eu sei que não tenho salvação - palavra do Senhor - mas pelo menos construo qualquer coisa.

E isso deixa-me feliz.

sexta-feira, maio 23, 2014

O Diário - III - Um novo tampo para um tempo novo

Tenho de ir ao tabaco.

E o isqueiro também berrou.
Ocasionalmente acontece.
Os isqueiros berram e nós temos de adquirir outro.
Há quem meta isqueiros alheios no bolso... "sem querer"... e é por isso que eu tenho de adquirir outro... Para que alguém me peça "lume" e "acidentalmente" fique com ele.
- Epá desculpa. Isto é um vício que eu tenho. Acabo sempre por guardar o isqueiro.

Entenda-se:
Vício = Gamar.
Guardar = Gamar
O isqueiro do Daniel = Objecto que faz fogo... para Gamar.

Mas tenho ainda outro dilema:
Preciso de trocar o tampo da sanita.

É que aconteceu uma coisa.
Uma insignificância.
Um pequeno acidente, envolvendo duas malucas, uma câmera de filmar, cinco gramas de branca, umas velas e duas garrafas de gin, gelado - sabores clássicos: morango, chocolate e baunilha - chantilly, fruta da época e toppings sortidos.
Aconteceram umas cenas e... vejo-me... obrigado a "redecorar" a casa de banho.

Muito sucintamente:
"A força" da lente no comportamento humano.

A verdade?
"O tempo da sanita está velho."
Pelo menos foi o que o simpático cabo Rosa, me disse enquanto se despedia de mim.
- Para a próxima eu mesmo lhe telefono. Fica prometido.

Posto isto, deparo-me com vasto e complexo mundo de acessórios de plástico para louças de casa de banho.
Tenho mesmo de o substituir.
Ainda por cima uma gaja estava saltos e partiu lá qualquer coisa.
Eu nem sei bem o nome daquilo, mas no video vê-se bem.

Ora é preciso um novo tampo para um tempo novo.
- Parece um slogan político.

Se me quiserem contactar e não responder no prazo habitual, provavelmente estarei à procura do tampo perfeito.
Compulsivamente analisando todas as opções - desde a mais vulgar, às novas tecnologias - pelas lojas tradicionais, grandes superfícies, chineses, internet, etc.

Que bela maneira de passar o tempo.

quinta-feira, maio 22, 2014

OS PINGUINS NÃO MARCHAM, ABANAM-SE COM ESTILO! #52


O Diário - II - Deixa lá ver se me lembro

Desde a última vez.
Deixa la ver se me lembro.
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5ª Feira:
Sais do computador, fazes o jantar, estás aborrecido.
Fazes listas.
Mensagens, telefonemas, mensagens, telefonemas. Está tudo na mesma, e tu, aborrecido.

O camarada não sai. Hoje não se trabalha mais. Está cansado, mas está sempre.
Não importa.
Arrancas para a guitarra mas nada sai.
Não importa porque é bom na mesma.
Sais de casa, passeias o cão, voltas às dores, até mais não dar.
Voltas para casa.
Mudas a água do balde do cão, voltas às dores, voltas aos comprimidos.
Lês. Fazes listas. Ouves música. Fazes listas. Sorris e adormeces.

6ª Feira:
Acordas, respondes às mensagens e beijinho no cão. Comes qualquer coisa à pressa e vais trabalhar. Páras.
E voltas a trabalhar.
Vens mais cedo porque logo há tropa e tens de abrir o quartel. Vens mais cedo para tratares do cão e de ti.
Fazes um jantar digno e importante. Saboreias em silêncio o vento que se levanta... porque logo há tropa e não podes falhar.
Tomas mais comprimidos.
Ligas a quem tens de ligar, arrancas para onde tens de arrancar e chegas.
Chega-lhe um copo para a coisa acelarar.
Chega-lhe outro porque a conversa está boa. Fumas.
Mensagens.
Atende. Volta a atender.
Faz contas e volta a fazer.
O tempo passa porque tem de vencer.

Mandas 100€ para o lixo dentro de um maço de tabaco vazio.
Vazio como a tua cabeça envenenada.
O tempo passa porque tem de vencer.

Chega-lhe um beijo porque tens saudades. Chega-lhe um abraço porque tens saudades. Dá-lhe uma festa porque te queres dar.
Comes qualquer coisa para não desfalecer.
Chegam.
Amigos, cigarros, copos, mais cigarros, histórias e mais copos.
Levantas a mesa que não se quer levantar. E ali perduras até a tropa desertar.
Vais até casa em passo lunar. Abres a porta com o amigo a arfar. Fazes a festa enquanto te podes baixar.
Vestes qualquer coisa porque o frio veio para ficar.

Apanhas a mentira que queres apanhar.
É o costume que veio para ficar.
Nos olhos alheios vês o que se está a passar e vais passear com quem quer vadiar.
Fumas e pensas e não páras de andar. Sempre a passo até a dor apertar.
Assobias.
Tens saudades, mas não dizes nada.
Há gente que precisa mesmo de descansar.
Mas tens saudades do que ficou por falar.
Fechas o portão, depois a porta, e deitas-te com a canção que queres propagar.

Fazes listas.
Storyboard. Locais. Shots. Pré-produção. Lentes dos amigos. Maquinas. Cartões de memória. Guarda-roupa. Shots. Cor. Luz. Fotografia. Cor. Luz. Fotografia. Cor. Luz. Fotografia. Reflectores. Shots. Aberturas. Guião. Pessoas. Slide. Steady. Cor. Luz. Fotografia.
Mais.
"E um terraço!?
Foda-se!
Alguém que te arranje a merda do terraço.
Um sitio onde só se veja o céu.
Mas será assim tão difícil?"

Fumas. Deixas cair a caneta. Apanhas a caneta e chapas com ela na secretária.
Beijinho no cão. Vestes umas calças porque está frio. Porque tens dores.
"Foda-se os 100€?"
Telefonemas, mensagens e amanhã logo se vê.
Lá te lembraste do que tinhas para lembrar.

Cais na cama e ouves música.
A música nova que vais transformar. A música nova que vais gravar.
Assim que achares a merda do terraço.

Tens saudades, mas não dizes nada.
Há gente que precisa mesmo de descansar.
Adormeces feliz por nada acontecer.
Adormeces feliz por ninguém te mandar a mensagem que não queres ler.

Sábado:
Acordas ao telefone.
Às 8 da manhã lá os vais recuperar. Alivias, suspiras e vens-te deitar.

Acordas ao telefone.
"Sim é claro. Vamos embora."
Do nada ao qualquer coisa é sempre uma aventura.
Ficas feliz por não seres tu a ter a ideia. Pela vontade alheia.
Ignoras as outras mensagens porque está muito calor e muito sol.
Ignoras o que te faz sentir mole.
Pesado. Cansado. Farto de permanecer.
Moído, chocado, sem nada a dizer.

Arrancas pelo vento, até à pior praia.
A praia mais feia que podes visitar, com as pessoas mais feias que poderás encontrar.
E mesmo assim "é fixe"!
Tens dores mas não estás preso. Nem o telefone te chateia. Nem sabes do que se passa no resto do sentimento.
Ris-te, porque dá para rir.

Fome, supermercado, viagem, beiras, bom vinho. Daquele aéreo.
É hora do petisco, com conversa entre dois terraços, acima de tudo o que é campo.
Tomas comprimidos.
Cozinhas.
Coisas simples só por diversão.
Estás aflito com dores mas embebedas-te rapidamente, porque o melhor em estar dormente, é deixar apenas a alma sentir.
A garrafa é tua e trazes reforços nos bolsos. É hora de outras festas.
Chegas num instante às meças, que te fazem pensar duas vezes no Futuro.
Esse papão!

Parabéns meu paneleirão.
Amigos, beijinhos, abraços, e a noite acaba cedo, porque existem criancinhas.
Chegas sem querer saber do que possa acontecer e pões-te a andar.
És sempre tu e ele.
Até à cama chegar.
Quando tudo está a girar.
Quando tens de te levantar.
Só para o mundo acalmar.

Acordas a meio da noite com dores. Zero mensagens. Zero preocupações.
Não há noticias nem decisões.
Nem saudades.
Simplesmente podes voltar a adormecer.

Domingo:
Dormes mais um pouco e acordas diferente. Acordas mais contente e acordas toda a gente.
"Levantem-se que está calor. Vamos embora. Andor."
Sentas-te no banco de trás de óculos escuros.
Está quente como gostas tanto.
Comes qualquer coisa à pressa duas vezes até lá chegares.
E encontras quem não esperas encontrar.

Mais de quinze anos.
Mais são mais de quinze anos sem com ela falar.
Não sabes o que dizer, não tens tempo para perder mas prometes recuperar.
Voltas meio atarantado, por tanto se ter passado, e pelo que mudou na vida.
Fixas o nada, ardes com a ferida.

Futebol. Adormecer. Açorda de camarão, voltas para junto do cão.
Pim.
Mais mentiras.

Vais ver como está a tropa.
O capitão está sozinho no quartel e ajudas no que podes para suavizar o "pincel".
Fechas o que tens a fechar e visitas a tabanca vizinha.
Chegas para uma abaladiça quem nunca vem sozinha.
Uma abaladiça tão franca, de cigarros e bandeira branca. "Aquela é tua, a outra minha"
Sentas o que resta para sentar, e ris com quem anda a festejar.
Sem demoras retornas, para ritualizar.
Caminhas cansado bem devagar, ignorando as vidas que queres ignorar.
E torna-se fácil.
Bem mais fácil.
Quando chegas a confessar, às sombras da noite que te acompanham, o que ficou por entranhar, sendo o único que todos estranham.
E torna-se fácil.
Bem mais fácil.

Voltas. Foges ao vento. Segues a luz. Até chegar perto.
Bem perto.
Sentado descansas onde não te devias sentar e sujas as calças que não querias sujar.

Retornas à base de cabeça vazia.
O cão tem sede. Tu tens fome. A guitarra tem saudades e o papel ainda mais.
Mas não lhe dás mimo.
Tens saudades, mas não fazes nada.
Há gente que precisa mesmo de descansar.

Como não tens sono, fazes qualquer outra coisa.
Ilegal obviamente.
Para ver a magia da arte dos outros.
E  adormeces clareando deitado e dorido, ouvindo aquilo que queres que seja ouvido.

2ª Feira:Toca o telefone.
Acordas de manhã cheio de tremores. Com o estalo sentido, no corpo os horrores.
Esticas doi. Vestes doi. Andas doi. Dobras doi.
Fazes listas.
Fazes o que tens a fazer, com o prazer e certeza de que vai doer.
E quando acabas.
Fazes outra vez.

Ignoras as listas.
Tens mesmo de as ignorar.
Mensagens, telefonemas, mensagens, telefonemas, mensagens, telefonemas. Está tudo na mesma.
E a mesma doi.
Assistes de robe à vida dos outros.
Tomas banho, os comprimidos, lês sobre os fracos e oprimidos.
Vais ao pão fintando o vento, agasalhado por fora mas não por dentro.
Sopa de peixe.
Telefone, telefone, telefone, telefone, telefone e mais telefone. Enquanto, computador, computador, computador, computador, computador e por fim telefone.

Ansiando talvez as mensagens queridas, mezinhas escolhidas que te curem as feridas.

Vês televisão. Jantas. Vês mais televisão. Apanhas mais vento.
E voltas a estar aborrecido.
Noite fora esperando a boa nova que chegará com a aurora.
Adormeces sem pensamentos.
Sem sentimentos.
Sem nada...
Só sonhos.

3ª Feira:
Acordas feliz.
Chegaram as frases que querias ouvir.
Estás mesmo feliz.
Já tens saudades.
E não interessa o que te querem vender. Porque pelo menos ali, nada existe.
E mesmo que alguém insiste, nada te pode afectar.
Estás feliz por ali não estar.

Não queres saber de mais nada.
Absolutamente mais nada.

E mesmo que tentem e voltem a tentar, não há maluqueira que te possa apanhar.
Não há força para te asfixiar. Não há dulcineias para ir salvar. Não há corrente que te possa amarrar. E nada que apague o que ficou por lembrar.

Vais trabalhar. A máquina só pega quando a terceira mandar. Apanhando a molha que queres apanhar.
E explicas explicando o que tens a explicar.
Pega à 1ª para regressar, num sopro constante para enfim chegar. Arrumas por fim o que tens a arrumar e...
Fazes duas máquinas de roupa.

Tentas o que tens de tentar.
O que consegues tentar. O que podes tentar. O que queres tentar. O tento que faça a luta vibrar.
O sim que faça a noite brilhar.
Mas nada consegues.
Não importa. Não interessa.
Dormes sempre bem porque tens vitórias para isso. E não há nada para vencer. É escusado arriscar.
Jogar só por jogar? É coisa de quem não sabe ganhar.

Não vale a pena. Não importa. Não interessa.

Ficas em casa a recuperar.

Olhas para as listas.
Fazes o que fazes sem te apressar.
Jantas, vais levantar dinheiro, compras tabaco, elaboras os planos que andaste a inventar.
Somas silêncios sem te preocupar.
Fazes mais gelo porque está a inflamar.
E cais no sofá para o filme apanhar.

"Que alivio!"
Sossegas.

Ligas coisas às tomadas. Fumas. Fazes festas ao cão. Mensagens? Chamadas? Ele diz que não. Descansas de andanças, de torto o chão.
Segues o ritual, e riscas palavras nas listas.
Para mim do mais banal, para ti bravas conquistas.

Deitas-te lúcido.
Informado novamente.
Acordando por acordar, e matar o que é doente.

E torna-se fácil.
Bem mais fácil.

Afinal por quem és?
Não tens saudades, mas dizes tudo.
Que não nasceste para ser mudo.
Há gente que precisa de descansar.
Gente que só é gente por se respeitar.
Adormeces feliz por nada acontecer.
Adormeces feliz por ninguém te mandar a mensagem que não queres ler.
Escutando o sonho com plena ilusão.
De mudar o mundo com uma canção.

Acordas, respondes.
Acordas mais leve.
Acordas e fazes as coisas que tens a fazer, pensando apenas no que é o teu dever.
E se o dia está para solicitações.

Organizas o resto durante o santo banho.
Escreves o diário com enorme tamanho.
É hora.
Vai-te. Some-te.
Chega de trabalho. Chega de palavras. Enterrem-se os versos, cheios de coisas parvas.
Vai-te vestir, daquele teu jeito, de cabelo louco e sorriso direito.
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São 18 horas e 42 minutos de 4ª feira, dia 21 de Maio de 2014.
Vou jantar fora!

quinta-feira, maio 15, 2014

O Diário - I - Um futuro e uns dentes.

Tenho de escrever um diário.
A única maneira de conseguir ir escrevendo recreativamente passa por voltar à formula adolescente.
São coisas dos tempos. A velocidade da vida e merdas afins. Basicamente, tenho tudo e mais alguma coisa para fazer.

Aqui está ele.
Espero que não seja secreto, nem ficarei à espera que os nazis me venham buscar, sequer será tão interessante como as páginas de uma adolescente na plenitude da puberdade, mas andará lá perto.

E... que fique bem assente... E "como manda a lei", não terá fim.
Um dia chegarão a este blog e estará outra coisa qualquer, provavelmente bem mais absurda que a minha própria vida.

Mas existem coisas que simplesmente não conseguimos inventar.

Na passada 3ª feira tive de comparecer de urgência no consultório de um dentista.
Um tipo novo, português, da calça de ganga, bem disposto e comunicativo, que me explicou que já devia ter extraído os dentes do siso há muito. Aparentemente, tenho uma boca demasiado pequena para tantos dentes.
(Eu sei que "dentes" é um tema super interessante mas isto tem um seguimento.)
Acontece que os meus, fazem uma pressão tal uns nos outros, que vão rachando a estrutura do dente até o partir.
Assim se sucedeu com um pobre pré-molar.

(Aqui é que a questão se torna realmente interessante)
Segundo o sitio Wikipédia, "este é um tipo de dente de mastigação, devido a sua parte oclusal. Possuem forma de pentágono, são menores que o canino, tem as suas bordas convergentes, as arestas mesial e distal são semelhantes. O 1º pré-molar é maior que o 2º pré-molar."
Ora como eu sou um gajo muito pouco mariquinhas e nunca tenho dores em lado nenhum, foi preciso sofrer durante mais de 24 horas e nascer um quisto debaixo do filho-da-puta do dente para o ir tratar.
Conclusão:
Agora tenho de gastar uma pipa de massa na merda de um implante, para não parecer que trabalho nos "carros de choque".

Foi a 1ª vez que um dentista não brasileiro me arrancou um dente e devo dizer que o rapaz, foi bruto.
Aquilo doeu.
Aquilo foi à macho.

1º porque como eu sou um gajo muito valente e consequentemente, extraordinariamente imbecil. Informei o Dr. que não era preciso "abusar na anestesia". Só para ele saber quem era este menino.
(Para a próxima quero produto do bom. E muito. "Bué mesmo".)
Depois porque existe uma diferença de idades relativamente curta entre os dois e a minha exuberância capilar, de uma forma involuntária, acentuava a sua "pré-calvície".
(Não me acusem de presunção, eu sou mesmo excelente a ler micro expressões.)
Para finalizar, o próprio confessou inveja em relação à minha dentição, que apesar de lesionada, é melhor que a dele.
O dente veio bem, mas na parte do quisto - que ainda por cima tinha o formato de uma pêra e um nome estranhíssimo, uma coisa mesmo à profissional dos quistos - eu vi a luz.

A tamanha dor, fez-me suspirar para o lado um sentido... "foda-se"!

Uma palmada nas costas, um "bacalhau", um sorriso cúmplice, uma receita, dois sacos de gelo, e 50 "balas".

Toma vai buscar!
"Se aparecesses aqui mais vezes, nada disto acontecia".
Excepto a parte das "balas" é claro.

Pior têm sido os dias de recobro.
Ora estou com uma "pedra cavalistica", ora estou cheio de dores.
(Eu sei que "cavalistica" é palavra que não existe e alguns putos que lêem o blog não chegam lá, mas perguntem aos vossos país. Muitos deles sabem mais e melhor de "equitação", que eu.)
Aqui me encontro.
De baixa.
Dormente.

É quase impossível ver a cor dos meus olhos.
O meu sofrimento tem sido atenuado por um "kit pedrada", composto por antibiótico, analgésico, anti-inflamatório, uma garrafa de aguardente, e um ansiolítico, só por causa dos nervos.  

Excusado será dizer que ando manso como um cordeirinho... nível presépio. Estou incapaz de reagir -seja lá a que for - ou mesmo atingir o orgasmo.
Daqui só "pó Patriarche".
(Perguntem aos vossos pais.)

Que retirar desta minha experiência?
(Sim porque isto um gajo chega a uma fase onde retira conhecimentos de experiências e vice-versa.)

Não andam criancinhas aos gritos pela rua, "O meu sonho é ser dentista." Também nunca conheci ninguém no liceu com os olhos brilhantes, teorizando sobre Medicina Dentária (Odontologia no Brasil). "Adorava ser dentista", ou "O sistema Estomatognático é fascinante", "Salvaremos o mundo dente a dente".
Muito honestamente, dificilmente conseguiremos inspirar as massas através da desvitalização de um dente, ou pelo estudo da mandíbula, mas há piores maneiras de ganhar a vida.
(E ganha-se bem rapaziada... olha olha... Eles não são nada parvos.)
Alem disso podes receitar "cenas" e és medico - o que deixa sempre uma mãe feliz.
Atenção, és medico num nível socialmente desprestigiado - por aqueles toleirões da neurocirurgia - mas protegido quanto à tragédia humana.
Tens de ser muito tanso para matares alguém numa cadeira de dentista.


Eu próprio penso que perdi uma carreira interessante. Uma profissão à minha medida.
Bem.
Estou sempre a tempo.

Vejo sangue, sei de drogas, tenho "um guito" e ainda posso confrontar o paciente - que já por si se encontra numa posição física e mentalmente inferior - sem grande peso na consciência.
Basta por-lhe aquela mini radiografia à frente dos olhos e explicar, "Vês a merda que dá não apareceres aqui de vez em quando. Agora olha. Pagas mais!"

Por outras palavras é claro.

OS PINGUINS NÃO MARCHAM, ABANAM-SE COM ESTILO! #50


quarta-feira, maio 07, 2014

GRAM ME

Eu tenho um instagram, onde faço o que as outras pessoas fazem quando têm instagram.
Geralmente quando mo pedem para descrever, muito sucintamente lhes respondo "é um instagram".
A única real diferença que existe é que... é meu... ou melhor, é dos senhores do instagram, que ganham dinheiro com o instagram de cada um dos utilizadores do instagram.

"Então se ele (o instagram - entenda-se) não tem nada de especial, porque hei de te seguir no instagram?"

Epá...
Não sei...

http://instagram.com/danielmoscovo

segunda-feira, maio 05, 2014

Maio e os Pontos de Situação

Epá epá epá...

"Mas porque é que não tens escrito no blog?"
"Há muito tempo que não escreves nada. Que se passa?"

Passa-se tudo.
Eu também tenho saudades de escrever sobre coisas rudes e doidas. Mas não tenho tido tempo.
Eu sei que soa a desculpa de quem não faz nada, mas neste caso é o inverso.
Tenho feito demais.
Prometo.
Juro.

Até estou cheio de ideias e de listas. Coisas que vou apontando aqui, ali e nas enormes horas que estive a fazer acontecer.
O problema é que no meio disto tudo, tenho de descansar. Não posso arrancar para o computador e ensaiar sobre tudo o que imagino ou experiencio.

Não posso mas vou tentar...

Beijinhos abraços e muito obrigado pelo carinho.
Ah e... até breve.

"É hora"

sexta-feira, março 28, 2014

O Divã - XI - Dois pesadelos



Eu que nem sei como vim aqui parar.
Não sei onde estou. Acordo. Sonhei que estava deitado em cima duma cama de cadáveres. Tinham os olhos abertos.
Estavas lá e dizias-me baixinho:
- Olha que estamos deitados em cima de mortos.
Impecavelmente vestidos. Sem cheiros. Uma pilha deles. Todos conhecidos. Todos enterrados. Todos à nossa espera.
Acordo num suspiro. Na minha cabeça foi um grito.
Tu já não me acompanhas.
Estou sentado e nem sei como vim aqui parar.
Sei que voltarei a adormecer sem medo, e em segundos. Se calhar já estou a dormir. Torna-se difícil saber o que é verdadeiro... ou não - há quem lhe chame doença mental, outros realidade. Para mim é indiferente.
Estou desgraçado.
Estou à porta de um barracão branco. Enorme. Com uma porta de correr de metal verde.
Estou como podia não estar.
A trocar olhares com uma miúda gira. Só gira. Mais gira que tu. Tem um sorriso cheio de dentes bonitos e um vestido azul a dar para o esquisito. Parece que lhe está grande. Parece que é comprido, mas não é. Apenas parece. É gira. Muito gira. Bem mais gira que tu. Na mão direita abana-se uma bebida maricas a dar para o rosa.
Em volta está tudo escuro e é só mato. São arvores altas e de tronco grosso que adensam o breu. Parecem pinheiros, mas só consigo cheirar a terra. Assim é o chão.
Estamos no campo de certeza.
Estas merdas só comigo.
E eu não sei como vim aqui parar.
Dentro do barracão, que mais parece uma caldeira, ou um antigo matadouro, há uma festa para gente simples. Daquelas com músicas parvas e luzes nervosas. Daquelas onde tudo é rasteiro. As bebidas são uma merda, as drogas não valem caracol, as pessoas estão vestidas com roupas genéricas, brindando a trivialidades, com poses comuns, numa vasta exposição de vulgaridades. Gente simples, como eu gosto.
A miúda não pára de olhar.
De repente alguém balbucia o meu nome. É um conhecido. Simples como eu gosto.
"Elas começam a apertar", diz bem disposto enquanto acondiciona o copo de plástico aos dentes, "Só aqui mandar uma mix... ahhhhhhhhhh".
(Desmitificando a questão. As conversas "da noite", enquanto alguém mija, geralmente são curtas e não têm grande profundidade.)
Dá o último gole na cerveja com a pila na mão, e conclui alegremente, "Sacudir... Eu bem sacudo, mas fica sempre aquele pingo, não é?"
Despede-se com uma piscadela de olho e volta para o baile abotoando a braguilha das calças de ganga fora de moda, dançando fora de tempo. Cheio de estilo.
Penso: "Mas de onde é que eu conheço este gajo?
A miúda não pára de olhar.
Está numa animada conversa com um casalinho fatela. Simples como eu gosto. Daqueles que estão sempre agarradinhos. Do tipo "mete nojo".
"Hum hum... sim sim... pois... muito bom... pois... também também" diz acenando com a cabeça.
E olha de novo. E mais uma vez.
De repente apercebo-me que estou ao lado de uma poça de mijo e que talvez seja de bom tom sair dali.
(Mas só talvez!)
Vou até lá dentro ver o que se passa. Aposto que adivinho, e há uma parte e mim que até nem quer, mas aquilo deve estar simples... como eu gosto.
É só trocar mais um olhar com a miúda gira, tentar acertar com a beata no copo de plástico que decora a poça de mijo - há umas bestas de uns artistas que chamariam aquele desmazelo "uma instalação"-  e vou para dentro.
Dois olhares e dois sorrisos e arranco em passo penitente.
Ela está a olhar para mim de certeza. É melhor me endireitar e assumir pose... e é uma merda ouvir a tua voz naquele momento.
A puta da tua voz.
Eu que a destrinço no meio de uma multidão aos gritos.
Que merda!

Ai chegas toda contente, cheia daquelas amigas que inventas de um dia para o outro.
Foda-se! Não me apetecia nada ver-te. Merda, merda, merda, e as galinhas já estão a baixar o tom de voz. Uma de vocês já deu comigo.
Mas não dou parte fraca e acelero o passo para dentro da festa.
À porta está alguém sem importância. Não lhe consigo ver a cara. Silêncio entre ambos.
Ora como explicar... Ao entrar estou num hall, com paredes são brancas e sujas. O chão é de madeira, muito trabalhado e tem um enorme buraco no chão. Sem fundo, sem explicação, sem nada. Eu que só quero desaparecer. Eu que só quero fugir de ti. Evitar-te a todo o custo, contorno seguramente e pela esquerda o obstáculo. Três passos depois, encosto-me a uma secretária antiga, perto do curto corredor que dá para a sala onde as pessoas dançam. Puxo do maço de tabaco. O isqueiro está noutro bolso.
A rapariga do vestido azul aparece-me à frente.
- Estás cheio de vontade - diz sorrindo.
Aquele sorriso começa a dar cabo de mim.
- Nem imaginas - acendo o cigarro - isto não é bem a minha onda - desculpo-me com simplicidade.
- Eu percebi - sorri outra vez - Dás-me lume se faz favor?
Huuuuu ela está confiante. Olhos nos olhos. Há aquele brilho que desfoca tudo o que está à volta dela. Tem uma voz linda. Agora sim. Começo a ficar interessado.
Vou-lhe perguntar o nome. É melhor não... Faz um truque dos teus. Agarra-lhe a mão para ver aquele anel marado que ela tem na mão esquerda. Tiras já uma data de teimas.
Assim faço.
Ela fica surpreendida com a ousadia, mas entrega-se à brincadeira.
- Gostas? - pergunta enquanto olha para as nossas mãos juntas.
- Gosto... é giro. Fica-te bem! Combina contigo.
Sorriso.
- Obrigado - agradece meio envergonhada.
- De nada.
Ajeita o cabelo, olha para o lado sorrindo e volta a mim decidida.
Ou seja: Isto está a ficar bom para o meu lado.
- Estás sozinho?
- Estou com uns amigos. Estão ai p'ra dentro a curtir.
- Queres ir... Não vais ter com eles? - pergunta preocupada.
- Nah, eles já estão muito acelerados para mim.
A expressão facial descontrai.
- Se quiseres...
- Não - interrompo - dispenso.
- Não danças?
- Só danças de salão e kizomba.
O fumo sai-lhe da boca para o lado, enquanto ela soluça um riso. Tosse duas vezes.
- 'Tás bem? - pergunto.
- 'Tou, 'tou!
Pausa para se compor.
- Mas estás a falar a sério? - insiste.
- Não. 'Tou só a brincar.
- Podia ser. Na boa... nada contra.
Mão no meu ombro.
- Mas eu tenho. Aliás tudo contra - interrompo.
Ela parte-se a rir.
- Eu também não gosto nada, mas as minhas amigas se te ouvissem...
- Ahhh, também não estás sozinha.
- Não... quer dizer... eu trouxe o meu carro. Passei aqui para as ver... e para estar um bocadinho com elas.
Isto está definitivamente a compor-se.
- Queres ir ter com elas? Não faças cerimónia. Não precisas de fazer sala comigo.
- Eu sei - diz-me assertivamente... bem, bem, bem, no fundo dos meus olhos - Tu não és de fazer fretes.
Huuuuuuuuu... Ela lê-me. Cena mística. Telepatia. Está cheia de jogo a menina.
- Já deu para perceber - continua - Mas podemos beber um copo juntos. Elas estão p'ra 'li entretidas, nem dão pela minha falta. Anda eu pago.
- Não isso não. Eu insisto - respondo muito machão.
- Deixa de ser parvo. Sou eu que estou a convidar. Estás a beber o quê?
E já me interrompe. E já vasculha a mala. E não queiras saber querida.
Gin, whiskey, cerveja, um risco e meio de uma branca manhosa, quatro comprimidos "para acalmar os nervos," e dois cálices de aguardente de medronho.
Não necessariamente por esta ordem.
- Pode ser uma cerveja... Não, espera. Que estás a beber? - pergunto apontando para o copo dela.
Uma bebida maricas, com um nome apaneleiradissimo, e que de certeza me iria rebentar todo.
Ela ri-se.
Arrancamos para o bar com aquele passo "transito pinguim". Aquele que temos quando estamos num sitio com muita gente e pouca luz.
Estou atrás dela e sinto o cheio do seu cabelo invadir-me a memória.
Poucos metros de magia depois chegamos ao balcão.
São duas bebidas cor-de-rosa e uma data de gritos.
Ela vasculha novamente a mala mas sou eu que pago, sem ela dar por isso.
- Quanto é? - pergunta gritando à miúda gasta, tatuada e que já foi jeitosa antes de namorar com um atrasado qualquer, que agora serve copos, exibindo um decote desnecessário.
Soutien à prova de bala, desafiando Newton e a puta da maçã.
- Ele já pagou - responde-lhe simpática apontando para mim.
Eu dou um gole na bebida maricas. É doce e forte.
- Ohhh. Esta pagava eu. Eu é que ofereci - diz-me fazendo beicinho.
Encolho os ombros.
- Não tem importância - respondo com dificuldade. Está muito barulho.
Ela apercebe-se e agarra-me na mão, arrastando-me para o local onde estávamos antes.
- Anda.
Digo boa noite a mais três pessoas. Conhecidos. Malta fixe. Simples como eu gosto e volto-me a encostar à secretária.
'Tou moído. 'Tou velho para estas merdas, mas ela continua segura à minha frente.
- Ali dentro não dá para falar.
Concordo.
Pausa. Gole. Olhar. Sorriso.
- Então como é que o senhor se chama? - pergunta brincando.
- Olá! - interrompes tu.
Foooooooooooooooooooooooodaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa-seeeeeeeeeeeeeeeee. Caraaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaalho.
Eu não acredito. Mas que merda. Mas porquê? Porquê? Foda-se.
Chegas toda pindérica, com esse "olá" da merda, sorrindo como se nada fosse, com essa vozinha aguda, irritante... É que chegas mesmo. Vens para ficar.
Vens para me estragar a noite. Vens sozinha e armada em parva. Vens risonha e assumindo a tua inconveniência.
- Eu disse "Olá"! - insistes.
Todos estamos em silêncio, olhando uns para os outros.
A rapariga do vestido azul olha para ti admirada. Intrigada com a situação, vira-se para mim e diz-me incomodada:
- Eu já venho. Vou só ver das minhas amigas.
Ainda lhe agarro a mão e peço:
- Não vás.
- Eu já venho. Eu venho já. Só um bocadinho...
Diz-te "boa noite" e arranca para a sala.
- Deixa a ir, deixa a ir - dizes com desprezo, gesticulando ao mesmo tempo.
Suspiro longamente e com enfado. Agastado por me estragares o momento e pergunto agressivamente:
- O que é que tu queres?
Tu não mudas a expressão, não desmanchas o boneco e ali ficas. Abanando-te lentamente, nervosamente, sem me responderes.
Tu não me queres responder. Nunca quiseste. É sempre a mesma merda. Odeio-te. Odeio-te a sério. Odeio-te mesmo. Eu nem sou de odiar, mas não te suporto. Irritas-me, enojas-me. Vai "pó" caralho.
E no segundo em que vais falar, acordo.
É de manhã.
Estou na cama.
Sozinho.
Acordo mesmo. Desperto com fúria. Irritado comigo.
Foda-se.
Dois pesadelos e uma miúda num vestido azul que desapareceu para sempre.

Isto é trauma.
Para a semana volto à terapia.

sábado, março 15, 2014

FIRST KISS by Tatia PIlieva

We asked twenty strangers to kiss for the first time...

É a única frase que encontramos na descrição deste viral que contagia pela sua "queridice"
Como já escrevi antes.
"O primeiro beijo, nunca tem certeza." 

sexta-feira, março 14, 2014

O Divã - X - Faz o que for melhor para ti




Luz, vibração,
Pim
"Vou dormir. Não me apetece falar".

Fico boquiaberto olhando para a merda da mensagem até o ecrã descansar.
Incrédulo.
Quieto.
No reflexo estou no meu melhor.
Não sei bem.
Parece que sim mas não me reconheço. Há algo na minha expressão que me abre ao meio. Que me despreza. Há qualquer coisa que se transformou e não me deixa tranquilo.

Respiro fundo, encho-me de coragem - na esperança de me ter enganado, de ter lido mal - e volto a carregar no ecrã do telefone.
Não dou tempo ao suspiro, atiro o telefone para cima da mesa e puxo pelo ultimo cigarro do maço já meio destruído.
- Foda-se - desabafo baixinho e arrastadamente.

Fogo à peça.

Antes da mensagem liguei duas vezes. Outras duas vezes rejeitou-me a chamada.
Porque já era "altura de terminar esta conversa". Porque já estava a ser "demasiado longa" para o gosto dela. Porque me "adora mesmo muito". Porque faça o que fizer, o que ela "sente por mim" não irá mudar. Porque me devo "ir foder" com aquela conversa, já que a menina "tem mais com que se preocupar". Eu que se estou farto dela "só tenho uma coisa a fazer".
"Faz o que for melhor para ti" - escreveu indelicadamente.

O que for melhor para mim?

Odeio quando a minha cabeça dispara ao mesmo tempo que o peito.
É como se explodisse internamente.
Uma série de estranhos mecanismos de auto-controle são accionados, contendo a violência com que o meu instinto me instiga. A mim que só me apetece rebentar com tudo, abraçando furiosamente a ira, aproveitando o transe para me sublimar. Sem temor, consciência ou dor. Como me custa controlar a selvajaria da minha reacção. A majestosa força da mais pura raiva, sedenta de confronto, certa de vitória, buscando o massacre, num ataque desproporcionado.
É o pior de mim em todo o seu esplendor e magnitude.
Como dizem os antigos desabafando o seu sofrimento:
- Só eu e Deus é que sabemos... Só eu e Deus...

E Deus, no dia em que nasci, quis que fosse doido profissional.

Apago o cigarro com força e enquanto mando o fumo para fora de mim, digo baixinho:
- O que for melhor para mim!

Se calhar devia lho dizer? Ou escrever. Responder com uma sms à puto... mas não. É melhor pensar noutra coisa. É melhor engolir o sapo. Ficar com isto atravessado na garganta. Prender-lo no peito. Se gosto assim tanto de me autodestruir, é preferível acelerar o processo.
Até porque já lho disse.
Ela é que não acreditou.
Estaria só a ser repetitivo, e eu odeio sê-lo. Para redundâncias já me chega a estupidez que teima em invadir a minha vida, uma e outra vez... até... ser de vez.

Acendo outro cigarro.
Até porque isso é só fumaça e o povo é sereno.
Mas sereno é que não estou.

Ora "o melhor para mim" passaria por aceitar sem melindre a minha derrota.
Para quê continuar a acreditar quando posso amargar de vez?
Ando a falhar vezes demais. O meu instinto está comprometido.
No dia em que o Diabo me viu, apaixonou-se por mim. O tinhoso aproveitou-se de todas as minhas fraquezas - eu que nos pecados capitais encaixo nos sete - Encheu-me de presentes, brilhos e outras maravilhas vãs. Corrompeu-me com promessas de felicidade e Amor. Tudo do mais rico e do mais belo.
Resumindo.
Estou condenado.
Embruxado.
(A minha Mãe diz que sim! Ainda hoje me disse.)
"O melhor para mim" é calar-me.
De que me serve apregoar verdades a quem vive mentiras?
(Todos vivemos... mas isso é outra conversa.)
Vou insistir? Valerá a pena?
(E não me tragam a conversa da alma, que a pureza está em extinção, e já pouco têm a noção de grandeza.)

Hesito.
Olho para o telefone e imagino-me a desbobinar vociferante tudo o que galopa cá dentro. Tornar a madrugada fria, numa briga quente, cheia de fogo de artificio e explosões desmedidas.
"Desde quando é que tu decides quando é que acaba a conversa? Mas o que é que te passou pela merda dessa cabeça?
Achas mesmo que se não sentisse que é importante, incomodava o teu precioso descanso? Mas que estupidez... Darás alguma importância ao que estou a sentir?  Serás assim tão egoísta, ao ponto de te estares completamente a cagar para mim?
Já te escorreu que não me quero ir deitar chateado contigo? O tempo muda tudo, se perdemos o momento, perdemos perspectiva sobre o assunto.
Deixa de fugir. Que cobardia é essa? 'Tás com medo do quê? Queres controlar o que sentes, o mundo e o resto do universo? Mas tens assim uma auto-estima tão baixa? Justificas essa condição com que trauma? Elucida-me... Ilumina-me... Deixa de ser infantil... Não chega já dessa merda? Não é tempo de cresceres?
Explicas-me o teu fascínio por imbecis e imbecilidades? O que é que ganhas em ser parva?
Podemos falar do fundamental?
Odeio pontas soltas! Estou farto dessas vulgaridades. Novelas de quinta categoria. Mas temos 15 anos ou pensas que eu sou como os teus namoradinhos da merda, que te aturam o feitio e as manias todas?
Primeiro dizes que me adoras e que estás apaixonada por mim, num turbilhão enorme, que te encanta, que te faz sentir viva, mas não te mereço respeito nenhum. Se o afecto fosse verdadeiro não te comportavas dessa maneira."

Hesito.
Hesito porque não há fim para a minha desilusão. Porque estou mesmo magoado. Porque não há remédio para quem não se quer curar.
"O melhor para mim" era ela.

A mim resta-me desaparecer silenciosamente - como um ninja - deglutir as palavras que ficaram por lhe dizer e rezar para que ela não me contacte novamente.
Que não há nada mais volátil que um Amor verdadeiro.

"Faz o que for melhor para ti"
Está descansada que vou fazê-lo.
Fode-te!

Apetecia-me parar de pensar nisto. Um copo. Apetece-me um copo.
Preparo um whisky do mais velho que tenho em casa. Duas pedras. Para bebe-lo olhando o nada da noite pela janela, atravessando o meu reflexo.
Sempre o meu reflexo.
Será que vou passar a minha vida nisto? Deus e o Diabo a pregarem-me partidas à vez.
Do nada descubro uma criatura maravilhosa. Apaixono-me sempre pela mulher mais fantástica do mundo, e por um motivo qualquer, tudo vai por água abaixo.
Um motivo - esta dá-me vontade de rir.
O motivo sou eu.
(Esta-me a saber tão bem este copo.)
Será que me estou a habituar? A esta casa silenciosa, numa solidão a preto e branco, num vazio que teima em crescer.
Será que estou vivo?
Quem é que está para aceitar uma alma esburacada, amachucada, rasgada aos pedaços?
No fim do copo apago a luz e avanço para o quarto.
Tiro os sapatos sem me baixar, usando os pés. Depois o relógio do pulso. O telefone fica na sala e a minha cabeça estrangula a memória antes que me dê a travadinha.
Deixo-me cair na cama vestido. Ponho as mãos atrás da nuca e fico a olhar para o tecto.
A luz da rua faz aqueles sombras que tento endireitar com o olhar.
Depois do suspiro surge o paradoxo: Porque é que não me sinto sozinho?

Uma risada rompe quarto fora.
- Sou tão estúpido - confesso sozinho.
Fecho os olhos sorrindo.
Feliz da vida por o cheiro dela estar por todo o lado.

Fode-te!

sexta-feira, fevereiro 14, 2014

Queres namorar comigo?


Feliz dia dos namorados.

Tu és doida!?
Ainda queres namorar comigo?

Eu sei que agora já não se namora - está fora de moda - mas lembrei-me de como estes dias eram giros, na escola do meu tempo.

Eu sempre tive sorte. Coleccionei ilustres respostas que me envaideciam. Apaixonadas missivas cheias de cores e calor. Prendinhas, miminhos, beijinhos - e mais que conseguisse - que me rasgavam sorrisos, ora marotos ora envergonhados.

Mas sempre gostei mais, da rapariga do "Talvez". 

segunda-feira, janeiro 20, 2014

O Divã - IX - A FÉNIX pt II




Espera um bocadinho...
Vou só apagar o cigarro e buscar o meu caderninho.
Daqueles pretos com elástico, meio pretensiosos, a dar para o intelectual.
- Puro clichê.
É que eu tenho a mania de anotar.
De apontar, de assentar, de esquematizar, de organizar, de planear... E isso nem sempre me faz bem.

Não combina com o resto da minha vida.

É que eu tenho uma deficiência.
Eu adoro gente doida.
Mas adoro-os visceralmente.
Passo horas da minha existência em surreais conversas, cheias de máximas e certezas. Dias a deambular por estranhos dogmas, que misturam filosofia, vício e mania nos cornos.
Sou "socialmente activo".
Faço-o para me divertir.
Gosto de sair e falar com diferentes tipos de pessoas. Gosto de as observar, de as ouvir e de me rir com elas. Gosto de debater ideias, assuntos, opiniões, gostos, e tudo o que as circunstancias permitirem.
Gosto de partilhar.
Apesar de manter um infantil fascínio pelos mais invulgares - os vilões, os não-alinhados, os renegados, os incompreendidos, os rebeldes, os que "têm pancada", os que "não jogam com o baralho todo" - estaria a mentir se dissesse que aprendo menos com os "comuns". Os normais. Os mais simples. Os que estão no rebanho. Os chatos.
O retorno é idêntico.
É que eu tenho uma deficiência.
Gosto desta simbiose.
Fomento essa dicotomia.
Preciso que ela continue a existir, porque estou completamente viciado em observar pessoas, inventando novos estereótipos.
Adoro com o mesmo fulgor, tanto uma boa hipnose de massas, como o louco da aldeia que apenas consegue dizer a verdade.

- 'Tás ai?
- 'Tou - responde ela do outro lado com aquele sorriso.
- Quando te quiseres ir deitar, diz. Eu desligo.
- Não tenho sono. Sabe-me bem ouvir-te. Gosto de falar contigo.
- Eu nunca tenho sono - desabafo.
- Já reparei. És puro desassossego. Tens toda a vida dentro de ti... Eu gosto disso.
( Comigo é sempre "Eva e Adão". Nunca o inverso.)
 - Achas-me doidinho de todo, portanto - respondo brincando.
( Nunca sei como responder a um elogio. Mas tenho de aprender. Já é hora de correr bem.)
- Ache o que achar. Acredita que não têm importância. Adoro-te na mesma... Desassossegas-me. Não me sais da cabeça.
( Uma mulher que tudo revela, não tem golpes para dar.)
- E da pele? - provoco.
- Não me sais de lado nenhum - responde-me num suspiro doce.
( Adoro-a. Sinto-me um puto. É a prova. Estou vivo e ainda acredito.)
- Queria estar contigo... Queria tanto te beijar, mas tanto... - confesso baixinho.
- Eu também. Preciso tanto de te sentir.
- Então temos de resolver isso - respondo fanfarrão.
- Agora! Vem ter comigo agora. Já!
- Agora?
- Já devias cá estar.
- Nem tenho hipótese pois não? - brinco mais uma vez.
- Não.
( Silêncio. Ainda estou a digerir a coisa. O peito acelera.)
- Vens? - pergunta-me irresistivelmente.
- Vinte minutos e estou ai.
- Dá toque quando chegares.
- Ok. Beijos.
- Beijo.

Por um segundo olho para o telefone mudo e penso: "Devia ter dito trinta."
Mas aqui não se luta justamente. "Azar o meu."
Na minha cabeça apressada desenrola-se um infalível plano de acção.
Tomei banho há pouco tempo e apresso-me a lavar os dentes.
Visto-me num par de minutos, borrifo-me ligeiramente com o meu melhor perfume e encho os bolsos do casaco com o indispensável: Carteira, chaves de casa, chave do carro, maço de tabaco e isqueiro. Os trocos vão para o bolso das calças.
"Caramba, já sei que se vão espalhar todos assim que me sentar no automóvel. Que se lixe."
Vejo as horas, apago todas as luzes, faço uma festa ao cão que dorme a sono solto e fecho a porta de casa.
Enquanto desço para a garagem vou pensando se me esqueci de alguma coisa.
"As luvas, porra."
Ao último degrau viro o sentido da marcha e corro escada acima.
Mal abro a porta, tento fazer uma selecção de qual interruptor me poderá ajudar a ver o caminho até às luvas. "Não penses mais nisso. Carrega em todos."
Tenho pressa dentro do peito e por mais rápido que seja o pensamento, nunca conseguirá bater a minha ansiedade.
Apago tudo outra vez, volto a fechar a porta e assim que desço as escadas pego nos trocos que tenho nas calças, e transfiro a quantia para um bolso do casaco.
Chave do carro.
Click.
Fecho a porta e atiro o casaco para o banco do pendura.
Carro a funcionar. Música.
Mute.
Isto não é viagem para distracções. Aliás, raramente conduzo à noite com o radio ligado.
Comando do portão.
Click.
Pela primeira vez na vida, acho o mecanismo demasiado lento para as minhas necessidades.
"Será que dá para programar isto para abrir mais depressa?"
Rio sozinho da minha estupidez e acalmo um bocadinho.
"Tem calma rapaz. Olha para o relógio. Tens tempo. Vai com cuidado."
Adoro o meu carro novo. É a extensão ideal do meu ego masculino. É potente, bonito e confortável. Melhor, só mais caro... e mais raro.
Deslizo dentro da lei, pelas ruas molhadas, agora vazias. Sereno e atento. Pelas ruas onde já passei tantas vezes e de tantas formas diferentes. Ora sozinho ora acompanhado. As ruas onde tanto aprendi. As ruas que me foram aconchegando pensamentos, paixões, surpresas, traumas, eu sei lá...
"Agora... Já sou grande. Já sou adulto... ou quase" penso para mim, troçando da minha urgência em amar.
Ela inspira-me.
Esta mexe comigo de uma forma diferente.

Os passos vão-se dando lentamente e tudo se apaga devagarinho.

Aqui estou, rodando de somáforo em somáforo. Recordando de como as mulheres são tramadas. Têm um péssimo timing de chegada à minha vida! Ou é muito cedo, ou demasiado tarde. Ou está muito frio, ou o verão é impiedoso. Mas sempre fora de tempo, acompanhando-me madrugada fora, em insónias, onde as unhas sofrem, até saborear o sangue. Até ouvir acordado o irritante barulhinho do despertador.
Esta deixa-me dormir.
Nada inventa.
Apenas sente.

Há quem diga que "não se pode ter tudo"! Mas bem cá dentro, tenho um demónio, bem gozão e persistente, que me questiona sempre: "E porque não?"
E insiste:
- Porque não hás-de ter tudo?

Faço pisca para a direita e cheguei ao meu destino.
Na rua amontoada de carros, um qualquer acaba de sair, deixando-me um espaço para estacionar a poucos metros da entrada do prédio dela.
Puxo o travão de mão e desligo o veículo.
Click
Arrasto qualquer coisa impalpável e ligo.
- 'Tou?
- Estou cá em baixo.
- Eu abro-te a porta. É o 2º esquerdo.
Click
Caminho em direcção à porta do edifício.
Bbbzzzzt
A porta da rua abre e logo a seguir bate devagar.
O elevador já cá está em baixo.
Carrego no 2 e olho-me ao espelho. Dou um jeito ao cabelo até gostar do que vejo e sorrio para mim mesmo.
Pim.
Na porta entreaberta está o sorriso mais lindo do mundo, emoldurado por um fino robe pérola aberto, disfarçando uma condizente camisa de noite, muito elegante.
- Despacha-te - diz baixinho enquanto ri, fazendo-me sinal com a mão.
Eu faço-lhe a vontade com prazer.
A porta fecha.
Um beijo da-se.
Um abraço sente-se.
Com as mãos na parte de trás do meu pescoço, olha-me sorridente, bem no fundo dos meus olhos e troça.
- O menino está 3 minutos atrasado.
- Desculpe, mas chegar-se a horas não dá estilo. É sinal que não se tem mais nada para fazer - respondo brincando.
- Ah sim? Por acaso tens melhor coisa para fazer que me beijar? - questiona confiante.
- Para ser sincero... nunca tive.

A magia acontece.

A Dieta - 5 - A Pesagem

IMC - 26,33 Sobrepeso Não me posso pesar todos os dias. Diz que torna a malta ansiosa e acho que a ansiedade engorda. Posso-me pe...