quarta-feira, setembro 11, 2013

Ando a olhar vezes demais para o telefone

É verdade.
Ando a olhar vezes demais para o telefone.
Vejo todas as horas.
Elas passam sem fim, sem meiguice e sem paz.
Estou ansioso.
E coisas destas não me fazem bem.

Faço balanços.
Faço listas.
Faço tudo e fumo ainda mais.
Vou coleccionando todas as coisas que angustia me oferece.

(E eu preciso tanto de um exorcismo à antiga)

Por mim e pelo meus, aqui deixo uma dessas listas.
Uma lista para cumprir um sonho.
Para acabar com esta guerra.
Uma lista para começar algo novo, fresco e inspirador.
Uma lista para um assumir um velho Amor.

(A todas e todos que me apoiaram até aqui. O meu mais sincero, humilde e puro obrigado. Volto em breve.)

Lista 13 | 14 | 15 de Setembro de 2013
- Guitarras.
- Baixos.
- Cordas.
- Pedais.
- Cabos.
- Palhetas.
- Transpositores.
- Afinadores.
- Transformadores.
- Combo Fender.
- Fazer mala.
- Viveres.
- Necessaire.
- Maquina.
- Saco cama.
- Bloco de notas.
- Tabaco.
- Headphones.
- Carregador de telemovel.
- Computador.
- Chaves da casa 1.
- Chaves da casa 2
- Chaves de casa 3.
- Mais Tabaco.
- Kit anti psycho moment.
- Carregar saldo do telemovel.
- Carteira.
- Juizo.
- Ilusão.
- Calma.
- E paixão.

P.S - Devo agradecer ainda por o fantástico feedback que recebi, a propósito dos meus dois últimos texto aqui no blog. A toda a gente que falou comigo pessoalmente, ou via facebook, aos que me enviaram mensagens, e-mails, enfim. Muito obrigado do fundo do coração.
Fica aqui prometido que assim que puder, escreverei o romance que tão carinhosamente me têm pedido e sugerido.

Até breve

quarta-feira, setembro 04, 2013

O Divã - VI - Podem ser mentiras, mas são as minhas mentiras




Estou cansado. Farto de andar.
Ando sem destino até não ter mais um passo para dar.
Nada para percorrer, nada para descobrir.
Continuo porque a noite está quente e até tem uma brisa viva.
(As verdadeiras noites têm sempre brisa.)
E como a verdade das noites passa sempre pelas mentiras de alguém, desfaço a marcha.
- Agradeço o convite.
Sento-me no banco para fazer um bocado de companhia à mais velha das minhas vizinhas.
Ela mesmo. A arvore grande e torta que me vê passar todos os dias.
Está marreca. Farta e cheia à espera do fim do Verão.
Sempre à espera.
(Coitada, ela não se pode ir embora. Se o fizer, morre.)
Recosto-me como fazia quando era miúdo. Lembro-me de passar horas em bancos como este.
Lembro-me de uma data de coisas boas. Lembro-me até ficar feliz. Lembro-me até ficar com saudades, e de repente, fico triste.
Fuma-se.
(Fogo à peça para acalmar o nervo.)
- Anda a fumar muito?
Interrompe o camarada de camisa cor de rosa.
Ao lado da cor, em cima da secretária, uma revista sugere: Tenha uma barriga de ferro.
(Ora porque diabo quero eu uma barriga de ferro?)
- Ando a fumar mais um bocado, sim. - Respondo consciente.
Ele toma nota.
- 8 exercicios de top para definir os abdominais -
Fumo até me cansar.
Os meus olhos estão abertos, mas não estou a ver nada. O que vejo não me chega ao cérebro.
Tento outra coisa.
Qualquer coisa para sentir algo diferente.
Fecho os olhos. Escuto a noite.
Escuto a verdade quando reconheço o barulho do carro.
- Vá trabalhar com mais estilo - 
O bloco de notas aninha-se no colo e as mãos juntam-se como se fossem rezar. No mesmo movimento aproxima o nariz das mãos comungantes, descobrindo um machucho relógio azulado no pulso direito.
(Coisa fina)
- Quando passa à minha direita confirmo a matricula e descubro que era ela. A Isabel.
- E então?
- Eram duas da manhã e tinha passado a noite a telefonar-lhe. Ela sempre sem responder.
- Quantas vezes ligou? Contou? Duas? Três? Cinco? Mais?
- Mais - respondo envergonhado franzindo a testa.
- Mas contou-as?
- Não contou ela. Fora mais de 15.
O labio inferior da boca da frente, sai acenando embalado pela cabeça.
Com um ar brincalhão e cúmplice pergunta-me.
- Acha que ela queria falar consigo?
Rio-me e devolvo.
- Acho que não.
(Tenho a certeza que não)
- Refeições fáceis para homens ocupados -- Talvez ela estivesse a precisar de espaço?
- Talvez... Mas eu estava a precisar de confronto.
- Como assim?
- Precisava de a ver. Precisava de a sentir. De tentar entender toda esta confusão. Não sei o que me passou pela cabeça mas arranquei para casa dela.
(O coração corria, os nervos cegavam, a passada forte. Custava-me a respirar. O impulso era forte. Tão forte. Não conseguia pensar em mais nada. Precisava de falar com ela. O estômago queimava, as pernas doiam, e eu não conseguia pensar em mais nada. Precisava de falar com ela.)
- Aquela hora? Contra a vontade dela?
- Sim.
- E como é que ela reagiu?
- Mal. Ficou chateada. Ficou nervosa, mas após alguma resistência lá consegui falar com ela. Não foi agressivo. Ao ver o meu estado percebeu que eu precisava daquele momento.
- Bem. E como correu a conversa? Já percebi que não foi bem uma conversa. Discutiram?
- Eu quando entrei, estava tão nervoso que não conseguia dizer nada. Ela sentada ainda aparvalhada com a minha atitude e eu de um lado para o outro, a tentar acalmar-me. Ela calada. Eu a tremer. Ainda foram uns bons minutos nisto.
- Queime mais calorias - Peguei na cara dela e disse-lhe ao ouvido
- Amo-te! -
(BUM)
 A expressão do seu rosto acusou o momento e num suspiro disparou:
- Foda-se... mas que filho da puta.
E já exaltada.
- Sabes quantas vezes eu disse que te amava e fiquei sem resposta. Sabes?
(Não faço ideia. Acho que o sentido da pergunta não exige exactidão.)
E já raivosa.
- Agora? Tu 'tás doido. Pior, deixas-me doida também. Já viste o que seria se eu te ligasse estas vezes todas?
(Ela tem razão.)
- Nunca me disseste que me amavas e agora vens com isto.
(Ela continua com razão mas eu já vou respondendo)
No fim da explosão digo.
- Mas é verdade.
(BUM)
A camisa cor de rosa insiste.
- Já percebi que a coisa complicou bastante.
- Sim é verdade. Teve de ser. Não pode ficar nada por dizer. Se não o fizermos estaremos condenados.
- E não tem medo de remexer nesse entulho. Descobrir mais mentiras. Ambos têm muito que contar certamente.
- Não temos outra hipótese. Venha o que vier temos de aguentar.
(Podem ser mentiras, mas são as minhas mentiras.)

domingo, setembro 01, 2013

O Divã - V - Setembro é poliamoroso



Chego exausto ao consultório.
Na minha cara vêem-se todos os males do mundo.
Campainha.
A porta abre.
- Bom dia - diz calmamente enquanto me estende a mão - Está melhor que há bocado?
Nego, renego e depois de fazer o favor de entrar.
Sinto o fresco que embala a casa.
Respiro.
É que na rua está um calor abafado. Daqueles que enlouquecem as pessoas.
Respiro com gosto.
- Por favor - diz-me indicando para me sentar.
A pele do divã está ainda mais fresca. Sinto-a nas pernas.
Vim de calções
(E pelo olhar deste paneleiro, já vi que não aprecia a minha indumentária. Acha que já não tenho idade para estas coisas)
Maricão de merda.
Ali está.
Fresquinho e fofo a um Domingo de manhã. Bem dormido. Bem tratado. Depois do seu treino e da sua meditação.
Bastou atender-me o telefone e vestiu algo mais casual para me vir dar consulta.
- Água ? - pergunta ele.
Aceito.
Sabe-me bem. Leva-me o sabor do tabaco embora. O peito refresca. Já não me parece tão apertado. Já não sinto aquele nó enorme.
Pulsante.
- Isto é que foi retomar em Setembro - graceja a flausina.
- Hoje é dia 1. Um bom dia para começar - respondo forçando a simpatia.
- Então diga-me. Qual o motivo de tanta urgência?
(Se ele soubesse o que me urge)
- Dormi três horas e estou exausto, doutor. Há muito que não passava assim uma noite.
Ele senta-se devagar, com um ar compenetrado, preocupado, e eu continuo.
- Não sei o que se passa. Não compreendo. Sinto-me uma merda.
- Mas aconteceu alguma coisa?
(Só aconteceu.)
Recostei-me no divã, olhei para o tecto e num suspiro disse.
- Eu e a Isabel acabamos.
(Nada senti)
Ele faz uma pergunta qualquer.
- Acabámos sim. De vez.
(De vez, para sempre, eternamente, vezes infinitos - e não há ditos nem reditos)
- Acabámos há pouco. Mesmo antes de lhe telefonar. Ontem à noite não voltou para casa e estive dez horas à procura dela. Fartei-me de telefonar. Insisti até não poder mais.
- Mas já falaram? Tem a certeza que é definitivo? Essas coisas acontecem na vida de um casal. Vocês já tiveram arrufos anteriormente.
(Eu senti. Não explico. Sinto apenas.)
- Já falámos sim. Ao telefone. Ela traiu-me.
- Traiu como?
- Traiu-me - respondo irritado - Traiu-me de trair. De estar com outra pessoa. Com outro homem.
(Trair, enganar, falsear, mentir, ser infiel... ser uma pêga, uma putona, uma porca, um vaquedo, uma fruta do chão.)
- Aaaaaaaaaaah! - exclamou arrastado pela minha inflamação, como uma sopeira regateira.
(Achei graça.)
E continuei.
- Toda a noite imaginei. Toda a noite inventei. De cigarro em cigarro. Foi como se escutasse a verdade no escuro. Eu já sabia.
- Mas a seu ver... A relação têm andado bem?
- Não.
Aqui lhe conto que após uma séria conversa, tínhamos acabado na segunda-feira anterior.
O motivo passa por uma incompatibilidade clássica, caso onde a fêmea tenta forçar o seu parceiro a "evoluir" o relacionamento de ambos, para moldes mais definidos e aceites socialmente.
Esta psicopatia "dá muito" nas mulheres, especialmente nas mais bonitas e mimadas, com grande enraizamento rural, parecidas com as mães, de pouca imaginação para se desenvolverem e se divertirem sem a ajuda de terceiros.
(O que elas gostam mais de fazer passa exactamente por atazanar a vida a um gajo. Este ultimo é a sua grande distracção e projecto, o principio e o fim de toda uma elaboradíssima dinâmica social)
Todavia.
Na separação.
Ela sempre expressou vontade de preservar a amizade e como tal, não desejava perder o contacto. Continuamos a falar por mensagem.
- Jurou-me amor. Que não se aproximara de ninguém. Que eram coisas sem importância. Pediu-me para esperar por ela. Que ia fazer psicanálise. Que queria ficar comigo para sempre. Que se ia tratar. Que o problema não era eu, mas sim ela.
(E de facto é. Só pode.)
E aqui lhe conto que tudo correra tranquilamente até à tarde de ontem - Sábado.
- Ela insistiu para nos encontramos pessoalmente.
- E encontraram-se?
- Sim.
- E como é que ela estava? Como é que a sentiu?
- Estava débil. Aluada, fatigada. Fraca. As frases não faziam sentido. Não tinha expressão facial. Parecia "pedrada". Comprimidos talvez? Não sei.
- Ela auto medica-se?
- Que eu saiba não! Nunca dei por nada.
- E afinal que queria ela?
- Um abraço. Diz que precisava de um abraço e que queria estar e falar comigo mais logo.
- Sobre o quê?
- Não disse. Referiu apenas que ia sair mas que não se demorava por causa da amiga.
- E você?
- Eu concordei.
(Sou mesmo parvo. Acreditara em falinhas mansas. Coitadinha.)
E prossigo.
- Posso beber mais um copo de água, se faz favor?
- Claro que sim.
A água perdeu o impacto.
(Sinto nada)
- Quando volto a comunicar com ela, diz-me que não dá e que falamos depois. Meia hora depois diz que um dos telefone avariou e que apenas tem um outro, que a horas tardias me rejeitou toda e qualquer chamada.
- Ela não lhe disse nada?
- Das duas horas da noite em diante... nada.
- Mas nada? - insistiu o doutor com ênfase.
- Nada! Cagou p'ra mim. Completamente.
O silêncio ficou alto demais e o rosto sereno do cientista deixou-me um olhar compreensivo.
- E mais? - perguntou de estalo.
Falo da confissão. De que esteve com um rapaz até tarde e que se sentia atraída por ele. Que não foi a sua primeira escolha mas servirá para o propósito.
Que não é como eu.
(Não lhe eleva a fasquia, não lhe exige postura.)
Que neste arranjo, não tem medo de ser ela própria. Não teme a minha reacção.
Que o conhecera num arraial de Verão e que deste então têm trocado mensagens.
Que já se tinham encontrado antes.
(Ele não é como eu.)
É simples.
Ela não quer se desfazer dele. É a oportunidade dela para voltar à sua antiga vida. É hora de por os pés no chão.
Mas não o faz sem vingança.
Com toda a malvadez, num golpe frio e desleal.
O doutor debruça-se em minha direcção.
- Então diz-me que ela agiu de má fé consigo? Ela combinou consigo previamente e depois combinou com ele.
- Sim.
- E como é que isso o faz sentir?
(Que segredo. Que mistério)
Mas respondo.
- Magoado, humilhado, mal tratado, traído, mal amado, miserável e infeliz.
(Silêncio.)
- E faz-me sentir má pessoa.
(As sobrancelhas sobem confusamente)
- Digo. Sinto-me mal comigo mesmo. Fui ingénuo, fui estúpido. Acreditei mas não merecia. Nunca lhe vi verdade mas tentei sempre confiar nela.
- Foda-se - diz o médico num suspiro.
(Achei graça mais uma vez)
- Perdão. Escapou-me. - desculpa-se embaraçado enquanto se endireita e ajeita a roupa.
- Não tem importância - respondo com um sorriso.
Ele suspira.
- Ela fê-lo para se igualar - arranca o doutor assertivamente - Fê-lo porque a sua rejeição - em relação às ideias dela - não é assunto fácil de lidar. Repare que as mulheres não estão acostumadas a estar nessa posição. Pelo menos não no mesmo nível que nós homens. A rejeição é um tipo de sentimento ou emoção bastante pesado para certas pessoas.
(E daí?)
- Entendo bem. Percebo. Fui preterido em relação a outra pessoa. Dói muito.
- Ela desiste e destrói. Prefere assumir um papel mais confortável e menos nobre. Dai ter agido com tanto requinte e violência... emocional, entenda-se.
Foda-se.
- Mas doutor. Isto é do pior. Pior que aquela gentinha cliché que se debate com as sombras nas minhas costas. Pior que me esfaquearem à traição. Veja a crueldade do processo. P'ra quê? Mas p'ra quê? - exalto-me.
- E após lhe perguntar "E agora?", respondeu que haviam três caminhos: o corte de relações, a amizade e o poliamor.
- Poliamor?
Uma gargalhada medicinal, bem forte, invade o Domingo e a memória.
Repetindo sem fôlego
- Poliamor?
- Isso mesmo. Poliamor. - confirmei brincando.
Eu nunca tinha visto o meu psiquiatra rir desta forma. Parece que basta repetir a palavra para ele se escavaque a rir.
Poliamor!
E lá se fala quando chega a compostura.
- É estúpido não é? É que assim de repente lembro-me de uns 30 sinónimos para Poliamor.
- Calma. Poliamor existe cientificamente, mas continua a ter graça.
(Tem graça porque não é com ele.)
Dou por mim a um Domingo, a rir da minha desgraça, com um psiquiatra gay, porque a minha ex-namorada é demasiado dada... ou carente... ou um nome de um animal qualquer... ou doidinha... ou tem um estalo bruto nos cornos...)
Ninguém sabe.
Respirar fundo.
- Então e o que é que lhe respondeu?
- Eu preferia fazer a cura a frio. Cortar relações, deixar de a ver de vez. Mas mais uma vez ela insistiu na amizade - digo desiludido.
- Ela nunca falou em reconciliação?
- Não.
- Sempre separação?
- Tal e qual.
Um sopro longo sai da boca do doutor.
De repente a sala fica mais quente.
Muito mais quente.
- E você acha que ela gosta de si?
Respondo com uma pergunta.
- Não é obvio que não?
- Diga-me o que acha sinceramente.
- Acho que ela não gosta de mim.
(E sai-me o que resta das minhas entranhas.)
- E você?
O tom da pergunta, da-me a ideia que o tempo da sessão está perto do final.
Pior.
Dá-me a sensação que "o nosso tempo está a chegar ao fim".
- Eu o quê? - Faço-me despercebido.
- Gosta dela?
É duro. É muito doloroso.
Mas respondo.
Num suspiro derrotado digo:
- Sim

A Dieta - 5 - A Pesagem

IMC - 26,33 Sobrepeso Não me posso pesar todos os dias. Diz que torna a malta ansiosa e acho que a ansiedade engorda. Posso-me pe...