sexta-feira, maio 24, 2013

Um dos grandes perigos em adormecer no sofá

Um dos grandes perigos em adormecer no sofá, passa por acordarmos de madrugada, enquanto passa uma novela portuguesa na televisão.
Nem a baba, nem aquela sensação de corpo dorido, conseguem ser tão incomodas.
Julgo ter acordado com um dialogo passivo-agressivo entre um Martim e um João. A contenda passa pelo dominio de uma empresa onde ninguém trabalha. Sinceramente não consegui perceber ao que se dedicava a empresa, ou porque as personagens desejam controlar tão pouco produtivo projecto.

Diariamente se promove o aumento da qualidade da ficção nacional, o bom nível que os actores portugueses têm, do desenvolvimento do cinema luso, na diversificação de conteúdos nas televisões, etc.
Tudo mentira.
Existe sempre uma Constança que ama um Martim que é filho da Maria Rodrigues Vilaça e do riquíssimo Manuel Maria Vilaça - que é um escroque que matou o irmão Julio numa maquina agricola qualquer para ficar com o monopolio dos vinhos Vilaça. Este senhor é sempre muito austero e nunca sorrirá a não ser por maldade enquanto conspira falando em voz alta.
O grande problema desta gente é a filha rebelde (que gosta de se banhar nua, num rio, ou num lago) de seu nome Pilar, que depois de regressar do estrangeiro, se apaixonou por Joaquim, filho dos caseiros. Este é sempre muito bom rapaz, muito rude, musculoso, trabalhador e grande amigo de Pedro - Filho bastardo do falecido Julio - que vive a sua vida de óculos à tóto ignorando a sua condição.
Claro que mais tarde se descobrirá que o Pedro e Martim são irmãos já que Maria Rodrigues Vilaça mantinha uma relação extraconjugal com o cunhado... Que afinal não morreu... Acordou tempos mais tarde do coma com amnésia. Após anos de internato numa instituição psiquiátrica, conheceu uma mulher madura e bem sucedida nos negócios, de nome São.
Esta mulher - geralmente muito mamalhuda - tem dois filhos. O Tomás e a Bia. O primeiro é magro tem sempre cabelo rapado. É toxicodepedente - ou agarrado ao jogo, ou viciado em adrenalina, ou envolvido no mundo do crime - enfim, altamente instável. Quanto à Bia é uma jovem futil preocupada em casar com o herdeiro do império Vilaça, o Martim. Tudo se complica porque Constança é filha de Luisa, irmã gémea e pobre de São. Uma mulher de hábitos simples e bondade santa que desvia a paixão da filha para Pedro. Obviamente que o Pedro - personalidade boazinha mas triste devido ao mistério do seu pai - é apaixonadíssimo por Constança desde criança.
É provavel que após descobrir a verdade, Julio procure vingança e mate o irmão em 4 episódios.
Geralmente quem desencadeia estas tropelias é uma velha que passa a vida sentada na sala de estar da familia. A matriarca. Dona Sofia Rodrigues de Marques Vilaça. Estas idosas estão sempre muito sérias e desconfiadas, vivendo na angustia de tudo saber.
Não esquecer que todas estas dinâmicas, são polvilhadas por infinitas personagens secundarias, algumas tentando a comicidade, outras para mostrar mamas, algumas criancinhas felosas, feiosas e sem pinga de talento, ou outras para contextualizar assuntos da actualidade que os guionistas julgam pertinentes.
Espaço ainda para a publicidade e para a "nossa verdadeira musica portuguesa" com três fados saloios, duas românticas, uma pimba, dez ligeiro-fatelas, um cantautor, um pop dos suburbios e uma banda da merda hipster jovem.

- Martim (pausa)  Amo-te tanto (pausa)
- Constança (pausa) meu amor (pausa) Pudéssemos nós fugir daqui para fora. Vamos para a cidade? (pausa com olhar) Queres?
- Sim sim e sim (entusiasmo forçado) Fugimos (sorriso assustador)
E pergunto eu: "Porque não apanham o expresso? Em menos de uma hora estão em Lisboa?"
Responde a personagem excessivamente iluminada.
- Mas meu amor (pausa) e a herdade? (pausa) Vou ter saudades disto (pausa) logo agora que a Mimosa está quase a dar à luz
(Corta para a vaca a mascar )
A cena é interrompida pela chegada do pai de Martim que severamente grita.
- Martim! Martim! Venha ca se faz favor!
E o maricas vai.
- Espera aqui Constança (pausa) Eu já venho (pausa) Vou só falar com o meu Pai.
(Plano americano da conversa entre pai e filho)
- Mas você está parvo? Que faz com essa rapariga?
- Chama-se Constança pai... É dela que gosto e não há nada nem ninguém que me faça desistir do seu amor.
(close up)
- Não seja parvo - responde com desprezo - Deixe-se de garotices. Julga que essa moça gosta de si? É uma interesseira como a mãe dela.
(plano de reacção)
(continuação de close up)
- Escute o que lhe vou dizer (pausa) (plano de reacção - a personagem lacrimeja) O Martim vai casar com a Biatriz.
(close up reacção - dentes semicerrados)
- Veremos meu pai. Veremos.
(corte para a cara de parva da pobre Constança)


Veremos se um dia alguém escreve alguma coisa com jeito...

segunda-feira, maio 20, 2013

Assim não vale (Ensaio sobre o desconforto)

Assim não.
Assim não vale.

Está frio.
Mesmo muito frio.
Já passamos o meio de Maio e diz quem sabe, que vai nevando por terras lusitanas.
Assim não.
Não precisava de revoluções nem de futebóis. Aguentava a pobreza numa bolsa gasta, das que fecham com cordões.
Aguentava-me.
Respirava fundo tolerando a ignorancia alheia. Que triunfe o que é estúpido e todos os cultos ao desnecessário.
Que triunfe católicamente.
Como um padre de óculos.
Que me interessa?

Agora assim não.
Assim não vale.

Estou farto. Já perdi conta às desgraças. Aqui condenado sem alegação ou julgamento.
Sequer posso troçar dos monocromaticos emigrantes que vivem em terras de gente feia. Ao frio e à chuva rodeados por mulheres de pés grandes, lá para os nortes. Cambada de duendes amantes da tecnocracia dos bárbaros.
Nada me aquece.
Não há sol que abençoe esta terra.

Assim não.
Assim não vale.

Não sou bicho de desconforto.
Como posso escrever ou tocar com as mãos empedernidas? Roxas. Sem pinga de sangue. Como? Preciso de vida. De movimento. Preciso que ferva.
Basta de dormência. Temo-a.
Mas o negócio tem sido este. É do que se tem usado por estas épocas.
Já ninguém prefere a dor. Só o nada.
Nada.
Esquecem-se que no nada não há macio, nem suave, nem quente, nem aconchegante, nem fofo, nem um infinito de coisas boas.
Mas com este frio.
Estas correntes. Vagas de vendavais que espalham entulho. Estas que varrem cabeças e expandem desertos.

Assim não
Assim não vale.

segunda-feira, maio 13, 2013

O verdadeiro canibalismo

Estou a tentar imaginar uma cura.

Ando sempre a tentar curar-me. Como um drogado nos anos 90.
Uma cura.
Uma formula mágica que resolva todos os meus males.

Temo que não exista comprimido certo ou sábia mezinha que me fortaleça o espirito. Que me dê uma saúde de ferro - ou de outro material mais capaz.
Temo que não haja fim para o verbo temer e que passe o resto da vida devendo à coragem.
Maleitas contrafeitas em globalizações made in china, designed in the u.s.a.
Merdas doidas.
Canibais.
Esta é a verdadeira maneira de nos comermos uns aos outros. Acompanhamos o ingrediente principal com medo.

Há madrugadas assim.
Horas fugidas onde deito tudo fora.
Para conseguir dormir.
Para descansar do mundo e das pessoas. Das miudezas do destino. Das certezas e do desatino.

Estou cansado de me fazer valente.
Resistir é tarefa, dever e missão. Não é vocação.
Resisto porque tem de ser. Para ser o mais livre possível. Para dar sentido à palavra liberdade. Para passar o testemunho aos vindouros. Amaldiçoados. Encadeados pela lucidez.
É pior que olhar para o sol.  
Uma vez li que não existem ateus nas trincheiras.
Deitado na minha, resisto para não obedecer. Para não crer. Já me enganaram tanta vez que acreditar amedronta. Continuaremos a bordar a maior capa de cinismo da história. De um lado a dúvida total. Do outro a ingenuidade da ignorancia.
Repouso.
Depois de respirar fundo, conto as armas. Faço a chamada aos meus talentos.
Ainda penso, ainda sinto, ainda tenho força para mais um conflito.
Limpo as baionetas tingidas por sangue seco - Especializei-me em abater os canibais à distancia. Nunca se deve subestimar a estupidez - à minha volta tudo me acompanha estratégicamente. Pronto. A segundos de contacto.
E adormecerei nisto.

Merdas de gente doida.

A Dieta - 5 - A Pesagem

IMC - 26,33 Sobrepeso Não me posso pesar todos os dias. Diz que torna a malta ansiosa e acho que a ansiedade engorda. Posso-me pe...