sexta-feira, abril 29, 2011

A semana das trovoadas

Não há frio em semana de tempestade.
Todos os dias há trovoada. Há barulho e electricidade e mais barulho.
Há o que tem de haver.
Há sol calor, chuva parva depois.
Há ambição e sonho do meio do caruncho esfomeado. Que raio de coisa o caruncho.
Que um gelado não acompanhe depois.
Basta assumir as olheiras, ficar refém dos ecrãs e fazer pausas de duas em duas horas.
De duas em duas horas.
Até às televendas. Até babar almofadas. Até desesperar ao pensar na dificuldade que será arrastar o corpo do sofá para a cama.
Não há frio. Esse foi embora. Deixou-me de calções.
Não há noite ventosa que corta o osso e deixa a pele dura.
Não há peito retesado nem mãos nos bolsos. Esqueçam as poses encolhidas.
Relâmpagos furtivos. Divinos e poderosos.
Assustam-me
Encolho-me sempre. Como se fosse possível desviar-me de uma bala.
Como um super-herói.
Daqueles que adoro ler nos quadradinhos.
Eles que fazem tudo o que o nosso cérebro desejou fazer.
Serve ficar em pijama, agarrado à cor, com a poderosa luz da mesa de cabeceira.
Desviando os olhos do flash do relâmpago.
Evitando contar os segundos.
Do inicio do concerto.
Do barulho que ecoa brusco.
Até parar.
Deixo-me adormecer e ser um super-herói.

quarta-feira, abril 27, 2011

Se o mundo acabar amanhã a culpa não é minha

Quando dou por mim a discutir loucura com um doido, alguma coisa me escapou.

Como é que explico a uma alma perdida que não há volta a dar?
Todos os loucos acreditam na repetição. Se é comum, é normal. Não, não é! Pode estar instituído e ser completamente anormal.

Grande parte das quezílias sociais que tenho passam por esse lado.
Eu tento provar aos "bichos" que estão dentro de uma "jaula" que os impede de experimentar outras realidades. Tento virar o urinol e fazer dele uma fonte. Mostrar outro lado. Expor outras verdades.

E pensa o leitor:
- Isso é normal. As pessoas são mesmo assim. Agem em conformidade independentemente do óbvio. O pior cego é aquele que não quer ver. Esses são os verdadeiros muros que prendem a humanidade...

Ora eu tenho outra teoria. Os cegos são realmente cegos e julgam ser normal sê-lo. Eles nunca estão desajustados. O mundo é que repentinamente gira ao contrário. Quando chega a decisão, há todo um hiato espaço-temporal ilógico que inverte o universo e faz da minha vida um inferno.

É mais ou menos como discutir com uma mulher. Simplesmente não podemos ganhar.
É uma realidade paralela.

Ou seja. Se o mundo acabar amanhã a culpa não é minha. Eu tentei. Eu tento todos os dias como os meus pais me ensinaram, como o meu país me exigiu e como o divino apregoou.

Não posso fazer mais nada.
Se não quem fica maluco, sou eu

segunda-feira, abril 25, 2011

O mentiroso, o coxo e o infeliz

Devias saber que gosto de cereais com leite. Mas gosto de misturar diferentes tipos.
Gosto de os comer com violência e despreocupação.
Gosto de dormir com miúdas cheias. Raparigas comprometidas. Preferencialmente.
Gosto de mentir e passar horas no café. A dizer merda. A falar de nada e interessar-me por tudo o que não tem interesse.
Não sou ninguém.
Nem um ponto na história. Nada de positivo acrescento. Sinto nada.
Sou vazio. Inútil.
Qualquer pessoa inteligente despreza-me.
Sou mau e coxeio com os outros mancos. Todos nos apanham porque a infelicidade é fácil de atingir.
Basta ser cínico e amargo como eu. Pobre de espírito.
Basta ser nada.
Ser sombra dos outros. Fazer peso ao chão.
Sou manso apenas até ser traiçoeiro. Sou pobre até conseguir roubar e me vingar de todos os que são felizes.
Essa noção devia morrer. Esse pedaço devia terminar.
Coxeamos em manada e de rancor em punho. Juntos para parecermos muitos. Juntos para haver pertença.
Somos menos que merda.

O mentiroso que se apanha rapidamente, mais rapidamente que o coxo, rapidamente se tornará infeliz.
O mentiroso, o coxo e o infeliz são um só.
São o mesmo.
São nada e nada serão
Logo após o fim destas linhas.

segunda-feira, abril 18, 2011

As compras do mês

Agora troveja violentamente. O céu enche-se de água luz e electricidade. Clarões temidos.
Quando acordei estava sol. Um dia lindo para ir fazer as compras do mês.
Almocei tipicamente e dirigi-me sem lista a supermercados regulares.
Adoro fazer compras segunda feira à tarde. Sé eu e reformadas bem penteadas. Algumas jovens mães, outrora jeitosas, tentam chamar a atenção fingindo actividade. Cheias de calças de ganga e decotes "modernos".
- Nunca subestimar o fulgor de uma mulher aborrecida. Perigosíssimo.
Estou de óculos escuros e não tenho tempo para modas sociais. Sorrio às reformadas e apresso-me supermercado dentro.
Como sou um homem moderno e inteligente, procuro a minha arte. Desde que aprendi a cozinhar, ganhei a mania de comprar o meu próprio comer. Tal conhecimento obriga-me a deambular por diferentes estabelecimentos, fazendo de mim um peregrino gastronómico em busca do paladar mais refinado.
Sorrio às reformadas bem penteadas e passo decidido a indecisa porta automática.
Eu adoro o conceito do Lidl: "Este é o pior sitio do mundo para se fazer compras. Nada aqui é agradável ou aprazível. Há quem sustente que sequer será suportável, mas tem coisas que nunca viste e tu vais comprar à mesma.
É uma loja dos chineses em formato supermercado, mas com empregados mal encarados. Tudo cheira a detergente e a plástico. Está limpo, desinfectado, tem coisas baratas, algumas até com qualidade e aquelas filas do meio com coisas que ninguém precisa.
Hoje estive a olhar para um tapete de relva artificial, 1,20 x 1 metro, que ficava muito bem num campo de mini golf. 10€. Este mesmo vai não vai.
E o que se passa com os balcões? Quem é que consegue ter em tão pouco espaço as suas compras? As passadeiras rolantes onde pomos as compras são enormes, mas o espaço pós "bip", o sitio onde temos os pertences em espera enquanto os pagamos, são ridiculamente pequenos.
Este espectáculo deprimente é para que? Para eu me apressar a sair da fila? Quem é que aguenta olhar para aqueles uniformes mais de 1 minuto? Quem é o autor daquele campo cromático? Algum daltónico certamente. É para eu ir ao carro deixar as compras e voltar a entrar na loja? Depois daquilo tudo. Devem ser doidos!
Deixo este supermercado e arranco para o próximo.
Assim que chego lembro-me: "Aqui a carne é uma porcaria! O talho é miserável.
Bem, vou comprar peixe e a carne deixo para o comercio tradicional".
Ameijoa japonesa. Possa... depois do tsunami e do acidente em Fukujima. Queres ver que é assim tão cara porque brilha no escuro? Já chegamos a tal ponto em que temos de comer viveres radioactivos?
Onde está a famosa ameijoa vietnamita? Eu quero dessa!
Peixe gato, salmão (47 cêntimos mais caro que no supermercado anterior - Será ainda de referir que havia uma variedade extra de salmão no Lidl, de maior qualidade e com selo de sustentabilidade),e outras coisas... nada japonês.
Quer dizer. A gelatina está no frio desde as seis da tarde e ainda não solidificou. Deve ter um bocadinho de nuvem radioactiva.
Nota final
Se estiverem com pressa e se a senhora da caixa, apresentar pastilha elástica com decote, mudem de caixa.
Vão por mim.

terça-feira, abril 12, 2011

Poucas coisas que ocasionalmente me seguem

Tenho um novo mostro em casa. Chama-se pilha de louça começa a ter seres vivos. Desejo anunciar que pretendo comprar uma maquina de lavar energicamente eficiente.
Também desejo outras coisas como guitarras e o fim da carreira do Nicolau B.

Estou a fazer o jantar. Sou um homem crescido por isso como Ovo cozido com batatas cozidas e peixe cozido. Pouco sal, poucas cores no prato. Se eu fosse uma criança começava já a fazer birra.

Tenho uns ténis novos. Aliás devo estar a regredir filosoficamente. É o terceiro par de ténis que adquiro este ano.

Por falar em crise. Procuro Vespa cheia de estilo e em bom estado. Ninguém tem um avô que se tenha retirado da vida de fazenda?

O Myspace está moribundo, não me adicionem com a vossa música de quarto. A música está cada vez mais longe das pessoas. Foi da garagem para o quarto, fechou-se e suicidou-se. Tal qual a inteligência de um Dj.

Procuro novas formas de ofender pessoas estúpidas porque as que uso são demasiado elaboradas. Podes ler isto novamente e em voz alta, se faz favor?

Às pessoas que estão interessadas na minha pessoa, por favor não espreitem para o meu quintal. Eu gosto de apanhar banhos de sol nu enquanto ouço Poppin' Champagne dos All Time Low. Se volto a apanhar alguém debruçado no meu muro prometo represálias.

sexta-feira, abril 01, 2011

Carta ao sr professor - Eu desisto

Sr professor.
É com imenso desgosto que sou forçado a comunicar que o meu trabalho e toda a investigação sobre aldeões, atingiu o ponto de não retorno.
A culpa é desta vil e perigosa sociedade paralela.
Cedo percebi que seria impossivel infiltrar-me. Seria mais fácil vender a alma ao diabo, que agir e pensar como esta gente.
Não vale a pena.
Está fora das minhas capacidades.
Ultrapassa-me.
Tal actividade seria mais fácil no estrangeiro. E não exagero. Posso até dar o exemplo da língua. Apesar dos locais usarem o português, ninguém sabe bem o que diz e como se diz. Muito menos como se escreve. Muito se deve ao facto de aqui não se usar o dicionário. As palavras podem ter múltiplos significados.
Os locais dominam habilmente esta revolução linguística. Chamam-lhe "desconversar". Há que faze-lo com mestria e sem conteúdo. No meio deste exercício é frequente falar-se muito e sobre o nada. Tal atribui uma nova ideia de valor à mensagem e ao respeito que o interlocutor merece tradicionalmente nas sociedade civilizadas.
Estas dinâmicas sociais, alem de subavaliarem o poder comunicativo dos povos, afastam as pessoas dos seus quotidianos.
Imagine-se um local onde todos falam e ninguém escuta.
O tempo corre saudável afastando a maioria da população da juventude. Mesmo os mais novos sofrem uma pressão social intensa para envelhecerem rapidamente. É frequente imitarem e procurarem carreiras profissionais similares às dos pais, ou no mesmo sector de actividade. Pouco ou nada sabem sobre consciência colectiva, evoluir ou modernizar. Aqui copia-se e imita-se.
A ostentação é pecado instalado, chegando ao ridículo de qualquer coisa servir para tal. É frequente assistir a invejas e comentários por acontecimento nenhum.
Simbioses como estas associadas à fraca condição natural não asseguram desenvolvimentos humanos saudáveis. É com pesar e urgência que peço atenção para assuntos tão urgentes.
Esta missão transformou-me.
Ao reler os meus diários, onde registei contactos com os nativos, noto que não fiz progressos.
Consigo descrever o modo de vida, as características comuns aos indivíduos, mas nunca compreenderei, os motivos.
A maneira como as mulheres mais velhas comunicam é exemplo disso.
Apesar de dotadas de tecnologia actual, como o telefone, o grito guinchante continua a ser a forma predilecta de sociabilizarem.
Passo a explicar.
As conversas entre as senhoras aldeãs obedecem a um protocolo.
Um esquema de tons e volumes que variam consoante o tema abordado, a hora do dia em que se encontram, mas não consoante a distancia a que se encontram uma da outra.
Confuso?
Primeiramente existe o guincho de reconhecimento. É usado para trivialidades, desejos de bom dia, boa tarde ou inúteis conversas sobre o tempo.
Quando uma das senhoras precisa de falar, a situação evolui para para uma troca de opiniões mal fundamentadas e pouco esclarecidas. Basicamente, estes diálogos tem causa nos temas da actualidade, abordados na televisão.
Se este conjunto de indignações tomar forma, é perfeitamente natural que resultem em grandes e exageradas exclamações. A admiração é expressa física e sonoramente. O espanto aqui é frequente.
Chegamos à derradeira fase.
Depois da gritaria sobre o circunstancial, o debate sobre o actual, a admiração admirada admirante, atinge-se a fase do "dizer mal".
É o apogeu.
Para os mais distraídos, esta é a una etapa onde o volume de voz das participantes baixa cautelosamente.
"Elas até não são dessas coisas" mas este momento é o pico mais alto na vulgarmente chamada "conversa de velhas".
Funciona assim: Larga-se a bomba (a historia), forma-se indignação, admiração, surpresa e finaliza-se com o acto com o "cagar da sentença".
Esta é a altura onde as senhoras, acham e julgam sobre coisas que não lhe dizem respeito e para as quais não têm qualquer espécie de habilitação ou moral.
Estes limites civilizacionais não colhem junto a esta população. Alegam que têm de falar de alguma coisa. Que o anonimato é inexistente e completamente sobrevalorizado "pelos de fora".
Uma típica conversa de velhas obedece a códigos fracos e muitos acidentes gramaticais. Crimes linguísticos. A exemplificar. "Rata de igreja" significa beata. Outro. Uma pessoa quando atinge um certo grau de prazer fica "sastesfeita". A lista é longa, muito divertida e extenuante.
Os volumes utilizados , a sua poderosa dimensão e toda a poluição sonora que dai advém, estão relacionados com três factores.
1 - Os tons de voz estridentes e irritantes. Timbres que jamais serão aceites pelo ouvido humano.
2 - A idade também ajuda. Alem do definhar sensorial, uma vida inteira entre frequências tão violentas e as maquinas agrícolas dos maridos, deixa marcas.
3 - Para finalizar temos a cultura vigente. Aqui toda a gente fala alto e mais alto. Fala-se por cima.
Imagine o professor uma agradável tarde de primavera, polvilhada pelo cantarolas das aves, harmoniosa e quieta, corre o risco de se tornar num caótico conjunto de ecos guinchantes e despropositados. Apenas, porque uma vizinha precisa de dois ovos para o arroz doce.
Parece paradoxal mas acredito que os campónios gostam de barulho.
Nesta área de estudo, a sociabilizarão da espécie é feita essencialmente em espaços comuns, como escolas, tabernas ou cafés. Onde há convivo há discórdia, e num regime onde o "falo mais alto que tu" prevalece.
Juntamos esse quotidiano à paixão insana e irracional aos foguetes. Não há festividade ou alegria que passe à estupidez de um foguete. Nas modernas sociedades ocidentais deste século, não se festeja com explosões a não ser que esteja integrado num espectáculo. Insisto. Quando um primeiro ministro toma posse, ou quando surge o golo da nossa selecção, nem o politico nem o jogador que marcou o tento, deitam fogo à peça. Ninguém anda a rebentar nada. Festeja-se como as pessoas e está muito bom. Se esta moda rude alastra o que seriam das maternidades, só para dar um exemplo.
Para finalizar esta exposição quero ainda fazer notar o impressionante numero de tractores, moto serras, moto quatro, motos disto e daquilo, corta-relvas, aspiradores industriais, geradores, camionetes, camiões, compressores, carros velhos, martelos pneumáticos, serras eléctricas para madeira, pedra e o que mais for, rebarbadoras, etc, etc, que esta gente possui.
Concluindo, até porque a missiva já vai longa
A poluição sonora no meio rural é de endoidecer.
Quando estamos a desfrutar de um pacifico final de tarde passa um camião cheio de porcos logo seguido por uma camionete cheio de malta da pêra.
Tenho de ir.
Tenho alguem aos gritos ao portão. Mais uma pessoa que ignorou a campainha.

A Dieta - 5 - A Pesagem

IMC - 26,33 Sobrepeso Não me posso pesar todos os dias. Diz que torna a malta ansiosa e acho que a ansiedade engorda. Posso-me pe...