quinta-feira, dezembro 15, 2011

O réu declara-se inocente

Nada tecnológico.
Qualquer dia esqueço-me de como se escreve.
De como se desenha uma letra.

Um dia destes
Um qualquer,
Deixo de ter insónias. Escuso-me.

Chego farto e gordo. Cheio de miudezas. Ora azedas ora amargas.
Ora eu sempre em açúcar, não me aprumo em cores de inverno.
Um
Dois
Três
Quatro

Alem disso desaprendo.

Tenho infinitas dificuldades em comunicar.
Se digo. Se verdadeiro. Se frontal. Se digno. Se justo. Se sincero.
Nada me serve.
Se escrevo, pior!
Corro ao dicionário para ver se me esqueci do significado da palavra.
Continua o mesmo.
Volto ao espelho à procura de empinamentos no nariz.
Ora se nasci assim.
Que merda querem que faça?
Arrebitado.
Olho e nada ostento. Não tenho riquezas ou saques. Nada para invejar.
Apenas asseio.
A higiene ainda não é crime!

Porque não me entendem então?

Acusam-me de heresias. Apontam-me o dedo enquanto se victimizam.
Passo sempre um mau bocado quando não tenho interprete.
- Eu não sei falar com esta gente. Eu que vou a todo o lado, que troco sorrisos em toda a parte, aqui nunca me safo.
Ali fico... a tentar desculpar-me:
- Perdoa a minha diferença. Perdoa a educação que tive. Desculpa pensar. Desculpa sentir-me livre.
(Eu sei que esta da liberdade é uma megalómana utopia própria de outras épocas... mas ainda sonho com a liberdade)
Eu próprio a nada vos obrigo.
Tenho vontade, mas deixo a tirania para quem tem vocação.

De tudo o que me acusam, o réu declara-se inocente.
E posso prova-lo.

N/A - Este texto foi primeiramente escrito em papel e nunca estará ao abrigo de acordo ortográfico foleiro.

quinta-feira, novembro 17, 2011

Rapidas considerações sobre o balanço dos balanços de balancé

Sim, balancé é uma palavra.

As pessoas devem-se lavar por baixo todos os dias. Mesmo as que trabalham de noite.

Ser-se mítico não é para todos.

Os imbecis que odeiam, inventam e atacam cobardemente as pessoas que fazem alguma coisa, estão sempre sujeitos a levar uma data de chapada nas ventas.

Os putos não têm cena própria. Não tendo cena, não há arte. Muitos destes putos vão continuar encenados por terceiros. É com grande falta de sentido cénico que terão projectos de cenas, que não se sabe porque raio de cena, nunca dão em nada. No fim de acabar essa cena, ouvir-se-à a cena do costume. Eles estavam só à procura da cena deles.
É a cena de quem não é da cena.
Ah e... Fora de cena quem não é de cena.

Quando eu digo "És da arte como podias ser das touradas" não te estou a tentar desprestigiar. Sequer pretendo ridicularizar as touradas.
Significa que ambas as imbecilidades se ridicularizem as elas mesmas.
Eu não tenho nada a haver com isso.

Os Pseudos estão vivos e recomendam-se.
Os Pseudo são como zombeis num jogo de computador. Há sempre mais um para matar.
Ser Pseudo está no cérebro, e na falta dele... e por falar nisso...

(esta é de um amigo meu, foi proferida há minutos)
"Não comprem casas. Comprem cérebros!"

Deixa-os dizerem o que quiserem. Muitos deles sequer sabem escrever.

segunda-feira, novembro 14, 2011

Se eu fosse comum estaria no teu lugar

Tanta tempestade e chuva... parece que vivo num filme do Senhor dos Anéis.
Terrível dimensão. Cansa-me, farta-me e agonia-me. Sou mil vezes pior à chuva.
Sou escuro e eu não gosto de ser escuro.
Não existe nada que me convença da magia da chuva, do seu som embarrilante, do canto da ventania.
Não cobiço o quentinho, o forninho, a lareirazinha ou mantinhas, pijaminhas e aconchegados momentos similares.
Quando o prazer tem origem no desconforto soa-me a lugar comum.

Se eu fosse comum estaria no teu lugar.

Aos de fora... Nem lhes acenar com sol posso. Tão poucos temas de vantagem, tão pouca sorte amarrotada.
Já só nos resta a beleza física. A saudável, desejada forma, que só o astro maior nos dá.
Aos de fora, habituados à chuva e a tudo o que doí, resta-me entender a vossa amargura por tanto cinzento.
Resta-me a infelicidade de ser como os demais e caminhar vazio sem sol.

Agressão
Inveja
Ciume
Tanta tempestade e tanta chuva... parece que tudo me arde dentro.
A agua queima, a vida teima e os teimosos lutam com ela.
Brigam com tudo o que podem
E eu que acabo de queimar o peixe que tinha no forno, que posso fazer senão culpar esta vulgar e constante tempestade.

Ela afasta-me do mundo. Rasga-me pele. Deixa-me moribundo.
Ela tem o pior dos segredos. Entrega-se a todos os medos.
Delírios do pó vulgar, que o vento arrasta para me atentar...

Se eu fosse comum estaria no teu lugar.

Deixava-me perder perdido, nas palavras do menos amigo, num remendo de bebedeira.
Prendia o que era puro, nas masmorras do que não juro, no alto de uma ribanceira.
Rolando abaixo sujo, fugindo do que não fujo, de sangrenta e doida maneira,
Caindo de cabeça na multidão, desaparecendo de situação, exaurido pela canseira.

Já vou cão, já vou...
Deixa-me apenas matar estes versos, com a pressa de um imbecil que sente demais.
Sente-se Amor.

Hoje fico calado dentro desta tempestade que é gostar de ti.

quarta-feira, novembro 02, 2011

Do trovejar às pilas na cabeça, vão milésimos de segundo



Está a trovejar.
Ora, quando trovejante lembro-me sempre de coisas tristes.
Como o casamento.
A desgraça começa bem antes da piroseira da cerimónia.
Começa na despedida de solteira da noiva.
Começa com uma pila de borracha na cabeça.

Talvez seja conservador, mas também escusam de parecer tão pouco virgens.

segunda-feira, outubro 24, 2011

Actualização ou Update?

Actualização ou Update?

Tanto faz. Isso não interessa. Acabaram-se os regimes proteccionistas.
No futuro até pode deixar de existir língua Portuguesa. De acordo em acordo de tratado em tratado até não haver mais nada.
Então logo se formará uma "onda" de apoio patrocinada por um supermercado qualquer. Uma horda de apresentadores homossexuais dirão à populaça o que fazer. Para voltarem a ser portugueses, para voltarem a ter orgulho no nosso país.
Nos Lusíadas desta falsa modernidade, no final de cada canto, o herói está sempre moribundo.
Não sei quem anda a escrever esta merda, mas posso garantir que se torna um bocado chato assistir e participar isto. 

Mas hoje não vinha falar de vocês.

Vinha escrever sobre mim.
O blogue é meu e eu escrevo sobre o que eu quiser.

Estou só a variar.
Quem não quiser ler sobre mim, pode mudar de blogue. Deve mudar de blogue.
Isto é sempre sobre mim.
Ou então façam o vossa própria "arte" - Go Pseudo - Mostrem ao mundo as coisas que não têm para mostrar. Façam spam intelectual.
Isto é sempre sobre mim, e estou só a recuperar.

sexta-feira, outubro 14, 2011

Os teus poderes não valem nada

Ainda pensei ir para o papel, mas contigo, tudo é tão falsamente tecnológico.
Talvez já não tenho poderes para tanto.
Talvez te deixe no novo tempo por preguiça.
- Sabes que sou doutro tempo e que gosto disso -
Talvez queira demais e já não são horas de te incomodar.
Tu que tens tanto para recuperar.

Os teus poderes nada valem.
Estão uma confusão, como tu.
Como estás sempre.

Claro que para mim é excelente.
Não tem graça nenhuma rodopiar sozinho.

quinta-feira, outubro 13, 2011

É fácil


Ah o dilema da folha em branco.
Eu não tenho.
Não uso folhas em branco. Sou racista. Uso folhas negras e escrevo com tinta branca. Só porque devo contrariar.
Há quem contrarie a inteligência. Eu para isso não tenho paciência. Ela para mim é como se fosse uma religião.
Embora peque ocasionalmente.
Eu sou fácil.
Qualquer coisa serve de desculpa para riscar qualquer coisa.
Ainda para mais, toda a gente deve saber que a Portugalidade é carregada de exagero.
É fácil.

 

quarta-feira, outubro 05, 2011

Toda a gente sabe que o João Ratão morre no fim

Faltam 10 minutos.

Faltam nervos para derreter.
Estou mesmo a precisar de férias. Sair do que está assombrado.
Agora é proibido brigar.
Agora não vale matar zombies . Mas vale acordar com tiros às 6 da manhã.
Caça ao feriado. Podiam caçar um cérebro.
Preciso de sair daqui mais um pouco. Voltar à praia. Ver placas a passar. Ter um vidro entre a minha pessoa e o limite de velocidade.
Preciso de uma estrangeira. Alguém com quem seja mesmo muito difícil comunicar. Alguém que não me queira ouvir falar.

Faltam 4 minutos.

Dizer estilismo está fora de moda.
É como dizer teledisco.
É como dizer, aqui há talento.
Tudo fora de moda.

Está na moda estar fora de moda. Ser diferente forçando a diferença que não diferencia. Que tudo isto tem de diferente?
Nada.
Eu sou do tempo em que o fado era música para os velhos.
Ninguém queria ouvir rancho.
Ninguém dizia musica tradicional.
Havia vergonha na cara e sentido de ridículo. Mas havia mais. Havia um desprezo saudável pelas tradições. Um desejo de novo. Oh modernistas que só aparecem de 100 em 100 anos.

Há ainda quem queira estar vivo.
Quem goste de festas de anos e quem não deseje falar de música com qualquer pessoa.
Eu sei que pensas que percebes do assunto, mas vai por mim...
Nada percebes.

Faltam 2 minutos.

Falta-me ainda falar dos caloteiros.
Dos mal vestidos. Com a sua roupa da noite, penteados assexuados, racistas reformados, agora papás.
Dos militares e da sua inútil vontade. Tudo esquecem com o avançar da idade.
Dos tarados. Se pudessem desenhavam eles. Faziam eles.
Quem quer casar com a puta da carochinha? Divorciada e drunfada. Que já não fode. Quem tem um cu enorme. Quem tem pouco mais que fome. Tem uma televisão. A pobre que entra para o duche de cuecas. Que tem um saco de plástico de cada supermercado. Quem tem um amante.
A reles tem um amante.
Que tem filhos mal educados. Feios e com aspecto sujo. Como os italianos, os franceses, ingleses e
alemães. Feios como tudo. Pérfidos.
Toda a gente sabe que não vai ser bonito.

Já não falta nada.

Toda a gente sabe que o João Ratão morre no fim.

terça-feira, setembro 27, 2011

A paz e o pão nem sempre estão no mesmo verso

Às padarias e profissionais do pão da zona onde vivo:
Existem pessoas que gostam de comprar pão da parte da tarde. Não me serve de nada ter pão duro às 5 da tarde. Devem usar um endurecedor especial que ajuda a enrijar o pão mais depressa.
Mais.
Não é por andarem pela aldeia a buzinar feitos estúpidos uma data de tempo que eu vou sair e comprar pão buzinado. Aliás essa estratégia de marketing funciona sempre - vamos incomodar e irritar o cliente de uma forma predominantemente rude.

E muito sinceramente o vosso pão não é grande espingarda. Nem textura nem sabor. Esta a anos luz dos pães que tenho provado pelo país fora. Apenas tenho usado quando me falta a flor de sal em casa. Devem ter uma parceria com uma funerária com certeza.

Ah
Outra coisa senhoras que pedem coisas nas padarias locais. Não são Pauns. Na língua de Camões usamos a palavra pães.
A sanidade agradece.

terça-feira, setembro 20, 2011

As velhas da minha rua

Muitas vezes tenho de trabalhar ao fim-de-semana.
Não há outra forma.
Porém guardo sempre umas horas semanais para descansar.
Desta vez tentei aproveitar o sol e estendi-me lá fora em meditação ligeira até ouvir:
- Ó Ilízia.
Grita uma velha esganiçada, que insiste segundos depois mais alto e mais esganiçado
- Óooooooo Ilíiiiiiiiziaaa.
A velha é baixa e de óculos. Já tem o cabelo grisalho. Arrasta o passo curto com a maior pressa possível e apresenta-se estilosamente de bata. Botões e um padrão capaz de endoidecer qualquer sensor de alta definição.
Do outro lado do muro, a resposta vem em forma de urro.
- UUUUUUUUUUUUUUUHhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh
Parece uma sirene gay.
- Tás ai melher?
De repente uma cabeça desgrenhada surge espreitando ao muro.
- 'Tou pa'qui ó óhgar estes vasecos. Atão? Qu'andas a fazer?
- Vinha aqui a passar. Fui ali à farmácia comprar estes cumprimidos? - diz a velha de óculos, mostrando à outra um saco de plástico branco, cheio de cruzes e cobras a verde.
- 'Tão p'ra quê?
- Olha noutre dia fui ao centro de saúde e o médico novo c'agora lá tá, disse-me que eu tinha a atinção em alta.
- Ahhhhhhhh - admira-se a outra - Pois isto é mesmo assim. 'Tá tude velhe.
- Ai nim me digas nada. Tenho passado os dias a caminho dos medecos.
- Atão, que fizestes tu?
- Na fiz nada - responde num guincho - na terça fêra tava a comer uma talhadica de belancia, partiu-se-me um dente tive d'ir pó dintista. Tenho aqui a inginve num horror.
- Ahhhhhh, pois - admira-se novamente a cabeça no muro.
Como explicar. O cabelo da muralhada senhora parece um ouriço caixeiro tingido de uma cor que nem todas as vistas alcançam.
- Olha priga, iste 'tá mem temivle - dizem as dioptrias esganiçadas abanado a cabeça.
- 'Tão e o mais piqueno. Já arranjou trabalho?
- Tivestes na prai muito tempo. Já anda pra lá. Mas já é afectivo. - diz orgulhosa.
- Ah é? Atão entrou assim logo?
- Foi o primo do mê homme que o pôs lá. Ó principe não 'tava a dar, mas ósdespois lá deu.
- Tão antes assim que pior - Diz o ouriço da dance music.
- Ai... mas já se livrou da da Juvenala. Tava a ver que não.
- Ah já se deixaram.
- Deixo-a ele. Ai Deus me perdoe mas eu na gostava nada dela, nin da família. Aquela tia dela que fugiu pá França mais o da Arminda, mais o pai dela...
- Na 'tou a ver quem é - diz o ouriço semicerrando a expressão.
A resposta vêm indignada e cheia de guinchos intoleráveis.
- Ora na sabes. Tão na sabes? O Romeu das âmblancias. O que era casado com a da Mari do serrador. Ai santo juizo. Tão na 'tás a ver? De bigode com uma granda barriga...
- Ahhhhhh já sê, ele é sebrinhe do do cochicho, não é?
- Mem ele.
- E o que lhe aconteceu?
- Oh, mas tu andas mem fora da graça de Deus. Tão na meteu uma brasileira de vinte e poucos anos dentro de casa?
- Ai Jasus, Deus nosso senhor. Parece uma praga.
- Dizim que era menina ali numa casa no Vale de Santarém, mas eu na sê se é verdade ou não. O do Manel coniche, é que disse. Ele tamem é muito amigo dessas coboiadas.
- Qualquer dia é tudo brasilêro. É esses dos brasis e dos cranianos. Fui a Ri Maior era tanto craniano, tanto craniano.
- Mas à conclusão, o mê Renato lá pôs um bocado de ideia na cabeça e deixo-a. Ela também anda ai sempre toda despida, foi o melhor.
- Isso agora é memo assim. Metem-se debaixo de qualquer um. Elas na conhecim limite. É só comichão no bico do pardal.
- Ai melher - diz a de óculos com as mãos no peito e saco da farmácia sempre a ramalhar - se ê soubesse... Ai jure por tudo o qu'é mais sagrado. Nunca deixava.
- Deixa 'tar atão. Já passou. Quizessim eles outras coisas. Agora na querim nada. Nin trabalhar.
- Ah por falar nisse. Tenho de me ir embora fazer o jantar ó homme que ele daqui nada tá ai. Béjinhes e té manhim - dizem os cabelos grisalhos já a subir a ladeira afastando-se do muro.
- Também pra ti. E onde anda ele?
A velha alpinista pára olha pra trás e grita.
- 'Tá na vindima do Toino Carlos. Anda lá a fazer a jornada.
- Ahhhhhhhh - admira-se novamente - Adeus. Também vou tratar do mê jantar.
- Adeus - grita a outra já de costas.
São 17 e 24.
O silêncio regressa, mas o sol já foi embora

N.A - Qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência!

segunda-feira, setembro 19, 2011

O Divã - IV - O irmão gémeo




- Sabe Sr. Doutor, eu tenho um irmão gémeo.
A sala cheira a produto para as madeiras. Tudo brilha impecavelmente com antigamente. Como dantes.
- Sério? - Pergunta o homem enquanto se debruça em direcção ao divã. - Não me recordo desse irmão. Sequer anotei tal parente nas minhas notas. Já me tinha contado?
A surpresa é genuína.
Estes gajos passam tempo a mais a escolher carros caros para as vacas das filhas. Pequenas pegas oxigenadas.
- Não. Não lhe tinha contado. Desculpe.
Tenho de disfarçar este sorriso. Não quero que este gajo desconfie de nada.
- Antes de mais peço-lhe... como direi? Não se ofenda com a pergunta que lhe vou fazer, mas tenho de saber... e não querendo fazer julgamentos de valor, sem lhe atribuir qualquer sentido de má fé...
- Desembuche homem - Interrompo eu tanta atrapalhação.
Estes tipos são mesmos atadinhos.
- O seu irmão gémeo não veio aqui em seu lugar pois não? - pergunta muito sério.
- Não. Se nós trocamos? Não. - respondo sorridente.
- Ah... Que alivio. Isso explicaria muita coisa - responde brincalhão.
Eu já te lixo.
-Quer dizer. Nunca se sabe. - Escondo o sorriso e volto a atacar - Ele é de travadinhas.
Alguma coisa me distrai e procuro o que desconheço do outro lado do divã.
É só um brilho que enfeita a madeira.
- Quer me falar desse irmão?
Ele está a alinhar. Ele não é parvo. Apenas puro de coração.
- O Sr Doutor sabe que estou a brincar consigo? Não sabe?
- Mas fale-me dele. Vamos experimentar - diz com voz grave e calma.
Ele quer-me hipnotizar. Ele vai saber. Ele quer me acalmar.
O que é que ele quer com esta brincadeira?
Do outro lado a insistência.
- Vamos. Não tenha medo. Não lhe vai custar nada.
Este merda quer que eu lhe fale de uma pessoa que não existe!
Também não me vou ficar.
Começo com um suspiro.
- O meu irmão gémeo é mais magro que eu.
- Como se chama ele? - Interrompe a voz grave e calma.
- Não sei. Não me lembro - respondo bruscamente
- Muito bem. Continue...
Suspiro novamente olho para a frente sem focar a prateleira colorida que tenho à minha frente no fundo da sala. Mesmo que eu quisesse focar, não conseguia ler nenhuma lombada.
- Quando estiver pronto - relembra o homem de papeis na mão.

- O meu irmão tem os dentes todos. Ganha bem e faz desporto várias vezes por semana. Está no exercito, mas odeias mulheres com tara por fardas. Diz que são todas umas parvas de mau gosto.
A caneta começou a rabiscar.
- Ele tem várias namoradas... e tem tempo para todas. Felizes, contentes, estão satisfeitas. Elas não interferem. Não falam sobre a vida dele, nem o chateiam. São bem comportadas. Ele não. O cabrão vive o que pode e não olha a limites... ou melhor, mesmo que os mire, não se deixa amarrar pelos mesmos. Ele tem coragem.
- Acha-o muito parecido consigo?
- Em algumas coisas! Ele é o tipo que me passa para o computador os textos que escrevi... à mão... à pata. Como deve ser... É o gajo que me faz as cosias chatas.
- Então ele ajuda-o? - Diz ajeitando com a mão direita, a meia da perna esquerda.
- Nem por isso... às vezes deixa-me pendurado. É preguiçoso. Demora muito tempo para resolver seja o que for. Vai ajudando.
A caneta não pára. Parece sôfrega.
Continuo
- E fuma. De vez em quando lá o apanho fumante e escondido. A pensar num plano qualquer para dominar o universo como na banda desenhada. Nem lhe preciso de perguntar nada. Já sei como ele é...
A estante é alta como o caraças. Chega ao tecto e organiza livros densos. Parecem cheios.
E continuo enquanto me endireito no divã.
- Nunca me deixa sem noticias. Deixa-me sempre espaço para pensar. Conhece-me e isso basta-me. Levanto-me ágil. Ajeito a camisa o cabelo e esfrego os olhos com as duas mãos. Sorrio para o rabiscador e despeço-me.
- Boa tarde Sr Doutor. Vemo-nos daqui a quinze dias. Para a semana folgo.
- Mas vai já embora? - Pergunta surpreendido - O seu tempo ainda não acabou.
Meto a mão na maçaneta e explico-me
- Lembrei-me mesmo agora. Tinha uma coisa combinada com o meu irmão gémeo e é melhor não me atrasar. Resto de boa semana.
A porta fecha-se
O meu irmão gémeo espera-me com um abraço junto à secretária da recepcionista.
Enquanto esperamos pelo elevador pergunta-me.
- Viste as mamas da gaja da recepção? Grande par de chuchas.

quinta-feira, setembro 15, 2011

Blog Rude no Facebook - Gostar e partilhar

http://www.facebook.com/bloguerude

Caros leitores.

Venho por este meio pedinchar para me ajudarem a divulgar a página deste blogue no facebook.
A treta do costume. Façam "gosto" e depois "partilhem" no vosso "mural" a página.

Agradecido

Tudo de bom

p.s- Se tiverem sugestões, ideias, ou simplesmente querem que eu escreva sobre algum tema em particular, deixem um comentário.
Vale tudo menos arrancar olhos.

quarta-feira, setembro 14, 2011

Todas as palavras em francês são sexualmente dúbias

Dei por mim a preparar a rentrée deste blogue em ambiente adverso.
Não há nada divertido para celebrar.
As férias foram uma categoria mas acabaram cedo demais. Tudo está mais difícil. Até rir está mais complicado. Resta-me sofrer deprimido com os apocalípticos telejornais, olhando o verão tardio que insiste em Setembro.
Dei por mim a pensar:
Rentrée soa tão gay.

Portugal é um pais mariconso.
Portugal é apanleirado e já todos se habituaram.

Deve ser da influência da sobrevalorizada cultura francesa. Os meus pais na sua "juventude" ouviam "som" francês. Não sei bem o que mas soava mal. Soava como qualquer tipo de música francófona. Mais um bocadinho e era uma merda.
(Só uma questão. Quem é aquele preto do MC Solar que aparece em todos os manuais de francês? Quem é a besta que acha que nos vai sensibilizar para o estudo da língua francesa, através de hip hop medíocre? Perdoem-me. É trauma. Em todos os anos do liceu lá ouvíamos aquela merda. Mais valia por na capa o grande Zinédine Yazid Zidane. Tão francês como o Eusébio é português.)

Portugal deve ser tolerante.
Portugal deve ser alegre e colorido.
Não se deve é votar.
Demasiados paneleirotes. Quem é que vota numa laranjinha?
Este primeiro ministro fez uma audição para um musical. Se existisse um tribunal da machesa ele tinha apanhado pena máxima.
(É mais fácil ser-se primeiro ministro em Portugal que conseguir um papel num musical de 5ª categoria.)
 Ou numa rosa? Não? Então o outro símbolo...
- Doida, eu vou votar num punho fechado?
- Porca, gostas deles grandes.
Ou numa estrelinha, ou num martelo.
- Camarda, chupe-me o falo.
- Avante. Viva o fellacio cooperativista.
Eles gritam slogans abraçadinhos.
E a malta do centro? Habituados aos padres e outras coisas. Demasiado óbvio. Um beijo ao Paulinho.
Em caso de muito molho de tomate, há que repetir a formula.
Vale conspirar e usar farda. Patentes, G3, chaimites e muito estilo.
Esses não respondem ao alerta. Só se o novo 25 de Abril estivesse inserido numa festa de moda no bairro alto.
- Querida. Os camuflados são o novo preto.
Se calhar precisamos de alguém com mais visibilidade, como os futebolistas.
Pfffffffffffffffffffffffff.
Era só para gozar. Toda a gente sabe que não existem futebolistas homossexuais.
Pfffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffff.
Pronto, em termos de masculinidade, eles nunca poderão dar o exemplo. Depois das prostitutas, são a classe profissional que mais pilas vê. Superam mesmo os profissionais de saúde e enfermeiras taradas.
(Alguém me explica porque é que todas as jovens enfermeiras são assim? Libidinosas e smi-ninfomaniacas. Algumas gostam de carpetes e tudo.)

Enfim.
O país precisa de homens a sério.

Gostava que o nosso país se parecesse menos com um rapazinho da Madeira que conhece muitos estrangeiros.


E sim. A sonoridade do francês é amaricada à brava.

domingo, agosto 21, 2011

Um cão de caça chamado Chérie

O mal é que sou preguiçoso e deixo a camera em casa vezes a mais.

Basta me sentar numa esplanada. Começar uma qualquer conversa e ser absorvido pela dinâmica de um grupo de caçadores.
Rudes como a palha.
Brutos que "nim casas".
Usam aquelas camisas onde as famílias costumam fazer picnics. Usam minis e pouco mais.

Deram nas vistas porque falavam alto. Interrompiam-se numa animada conversa sobre o olho que usam para fazer mira.
- Há gajos que fazim o mira cuns dois olhes. Eu na percebe nada disse, mas eh na sê... come é queles fazim? Eh mude d'olho e acerto ai uns 20cm ao lade.
(De uma vez por todas - Mira é um substantivo feminino.)
- És esquerdo ou és direite?
- Na sê eu ponhe assim
- diz exemplificando com os braços.
- Atão és direite. Se fosses esquerdo punhas assim - explica da mesma forma.
(Destro ou canhoto)
Mas tudo isto, apesar de rude, apenas se debruçava sobre o tiro aos pratos , esse desporto tão exigente como o bowling.
(Boliche para a malta que vive na Costa da Caparica.)
A conversa passa por espingardas, carabinas e camuflados. Cartuchos, corrupção e guardas da caça. Reservas, terrenos e acidentes.
Eu sei que não é de bom tom estar a ouvir a conversa dos outros, mas eles falavam tão alto e com tanto entusiasmo, que era impossível fazer ouvidos de mercador. Não sei. Devem estar a ficar surdos dos tiros ou assim.

- E eh tenho lá uma filha desse Chérie que na presta pa nada. A mãe espetaclar. Ela na vale nada pa caça.
(Um cão de caça chamado Chérie. Masculino. Estes gajos passam demasiado tempo nas putas)
Interrompe outro colega.
- Ui. Ah...isso pra mim... Ah!! Cães que um gajo dá um tiro num coelho e eles vão busca-los ali a um metro... ah!! Isso pra mim não é nada.
E completa um terceiro caçador.
- Eh na use os cães pa irim bescar as peças. Eh quere é queles os espantin pa eh caçar.
Uma gargalhada colectiva invade o espaço comum da esplanada, mas eu continuo sem perceber a piada.
Prosseguem os bárbaros.
- Agora tejim chip, na tejim chip, eh pah eu não.... coise.
- Olha o Manel da Sarribanda teve um que aquilo lhe foi parar à injive e ainda gastou uma pipa de massa no veterinário.
- Té m'admira. Da outra vez que eles tiveram na se o quê, deu um tiro a cada um e resolveu o problema.


Este é aquele momento de lucidez em que os homens justos deixam de rir da pobreza. É quando se inteiram da dimensão da tragédia. É quando se baixa a cabeça fazer parte de um povo tão rude, tão bruto e tão estúpido. Um povo velho, supostamente capaz, que se trata tão mal a si e aos seus animais.

Mas "na tejim mede", a cobardia foi o que nos trouxe aqui.

Caçam tanta coisa... bem podiam caçar um cérebro.

sexta-feira, agosto 19, 2011

3 porquitchonas e uma praia sem areia

Este verão tem sido ridículo.

Todos os Verões são
Ridículos.
Não seriam Verões se não fossem
Ridículos.


Realmente ridículo. Houve apenas um real dia de verão com noite a condizer. Calhou a uma quinta feira, aproveitada para uma ida à praia com membros da máfia.
Mafiosamente chegamos. Mafiosamente nos instalamos com estilo.
Estava bastante gente e a praia pareceu-nos mais pequena. Com menos areia.
Seguramente com menos areia.

Já se começava a cuidar das nossas praias.

De repente juntam-se à nossa vizinhança duas porquitchonas. Daquelas meio tortas. Das que passam tempo a mais dobradas. Das que se despem com o olhar no horizonte, em camera lenta.
- Hummm - pensei - Já não vão para novas. A pele está comida pelo sol e pelo tabaco. Rugas no canto da boca. Cabelos pintados. Certamente já foram de muitas cores diferentes.
Tipo politico português.
Com alguma dificuldade plantam o chapéu de sol e algo falta.
- Olha desculpa - Diz a loura. E continua - Boa tarde. Nós vamos só ali ao café e voltamos já. Levamos as coisas de valor, mas é só para ir dando uma vista de olhos...
- Sim. Claro. Ok. - respondemos mafiosamente.
- Obrigado - agradece a loura.
Sorriso porquitchona? - Penso admirado.
Ah pois.
Sorriso porquitchonazona.

E o que é o sorriso porquitchona? Perguntam os velhos, as velhas, as miúdas e os gays?
Como resumir.
É quando o sorriso fala maliciosamente.
Calma. É toda uma linguagem corporal. Um tom de voz, um olhar, uma posição, um tique, um suspiro.
É muito mais que um mero sorriso.
Ninguém excita ninguém com dentes... ou com a falta deles... bem adiante...
É quando uma miúda na primeira abordagem deixa implícito, que nos "dava uma trinca". Em vários lados.
Enfim.

A máfia é experiente e funciona telepaticamente.

Minutos passados, chega uma terceira porquitchona. Telemóvel ao ouvido, óculos de sol de classe - os melhores que estavam na loja dos chineses - e cabelo demasiado preto para ser natural.

A máfia é experiente e funciona telepaticamente. Mas a máfia desta vez partilha: Cabelo ou muito preto ou muito louro atesta um nível elevado de vaquedo.
(Cuidado com as pinturas. Ninguém está em guerra e as cabeleireiras geralmente tem dificuldades com as cores. É da luz dos salões.)

Beijinhos e falsas amigas depois, o gang está completo.

A máfia sorri.

Estava a tentar descortinar quem seria mais branco que eu naquela praia quando começou o strip.
Que Trio fantástico. Uma loura, uma de cabelo preto e uma ruiva. Tudo falso.
E eu sou espectacularmente branco. De barba e cabelo comprido. Como diz a minha avó Alice "pareces mesmo Jesus Cristo".
Se eles descobrem a verdadeira cor de Jesus começa a terceira guerra mundial.
Mas é quase impossível...
Tal e qual como adivinhar a cor original do cabelo das porquitchonas.
Que Trio fantástico.
Tudo falso.
O strip decorre lentamente.
A loura é a líder e o elemento aglomerador. A "chefa". Tem mais estilo, maior sorriso, e sempre foi mais popular que as colegas. Tem aquele bronze dourado que fica bem nos flash das maquinas das gajas. Ela é baixa, magra e larga de anca. Tem uma barriguinha, mas nada que a comprometa no dia-a-dia social. É o peso da idade e os copos das noites loucas. Shots a arder! Dou-lhe 34 anos. O bikini é reduzido e jovem. A parte de cima é preta e tem folhos para fazer as mamas maiores. Equilibrar é o conceito. A parte de baixo é pequena. Ricas pretas e brancas. O rabo tem tendência a achatar.
Fuma e sorri com frequência. Dinamiza a conversa até se fartar do aborrecimento que a sua amiga ruiva tem estampado no rosto e deixa o sol fazer o seu trabalho.

A ruiva chegou com a loura. É a menos sorridente das três. Parece ser a que tem mais dinheiro e parece ser a mais velha. Tem muitas rugas na cara. É a mais alta e a mais magra. Não tem mamas nem cu, nem curva nenhuma que faça perder o olhar. É a que está mais queimada. É a que tem menos cabelo e menos alegria. O bikini é vermelho e transparente. A ruiva não tem pelos na coisinha!
Nota-se daqui.
A ruiva fuma muito e escreve muitas mensagens até o namorado surfista chegar.
É daqueles surfistas a caminho dos 40. Dos que têm mamas e têm sempre aquele bronze do xixi. Tatuagens à fajunto. Deve ter um cd de sublime cheio de pó, mas agora é mais electro. Longboard claro. Um barco para a morsa. Uns óculos caros cor de laranja. À puto do "ya e das cenas tipo fora, tas a ver"? Nota-se que eles não estão bem. Pouca troca de olhares e poucas palavras. Ele também está ocupado em conversas com a loura e com a do cabelo preto.

A máfia não entende o surf e não aprecia gente que faz xixi quando está dentro de agua.

A do cabelo preto tem um bikini rosa que parece roupa interior e é a mais branquinha. Tem umas mamas mas não tem mais nada. De porquitchona, e alem da cor do cabelo, mais dois atestados: tatuagem no fundo das costas e tatuagem tribal no pé.
(Golo. O publico rejubila. Os mafiosos estão sorridentes com tanto estereotipo junto. Para a loucura ser total só falta a rapariga conduzir um Seat.)
Parece ser trabalhadora. Daquelas miúdas da província que tentar organizar a sua vida. Independente. A mais nova das 3. A que está a usufruir mais da praia e a única que trouxe um livro. Daqueles grandes e cheios de páginas sobre o nada, escritos por ninguém. Nota-se que ela anda de volta dele há algum tempo e que tem algumas dificuldades em ler. Usa o indicador para se guiar e murmura as palavras enquanto lê.
Mas pobre livro. Só durou até o namorado da ruiva dar atenção à leitora.

A máfia adverte: Ler faz bem.

A ruiva não se importou. Continuou a exibir o seu monte de Vénus volumoso e rapado. Pneu de pista.
As restantes dividiam a atenção entre a praia, as conversas do surfista mamalhudo e a máfia. Com a sua atitude porquitchona.

Elas queriam porquitchonar, mas tivemos e abandonar a causa. Uma questão de bom gosto.
Numa praia sem areia, onde todos dão banho à prancha e empurram os banhistas para dois metros de praia, parecendo que não, aborrece.
Isso e pessoal a brincar com raquetes e sem rede. Sem rede qual é o objectivo? Qual é o propósito? Desculpem-me mas é estúpido.

Só de pensar nestas coisas dá-me logo vontade de voltar à praia.

A máfia saúda: Um beijinho a todas as porquitchonas! Antes vocês que os surfistas mijados.

Procura-se Fábio Gabriel

Procura-se este cabrão.
Fábio Gabriel.
Não é um cantor de música popular sequer o novo jogador de um clube pobrezinho da segunda divisão. Também não é ciclista ou cabo de uns forcados quaisquer.
Este é doutor. Trabalha para os chulos da tmn. Sozinho afastou-me deste blogue e de outros negócios. Estou há meses a tentar resolver os meus problemas com os imbecis da tmn.
Aquilo é um circo e eu odeio circos.
Apenas não publico aqui as dezenas de e-mails que trocamos, porque alem de extensos, a estupidez apenas deve ficar nos livros de história. Convém proibir a propaganda. Existe gente que acha graça a tudo.
Se duvidam do que digo, façam o favor de se dirigir à janela mais próxima.
Quanto ao Fábio Gabriel... esse atrasado mental... Apenas lhe desejo que continue por muitos e bons anos a trabalhar na mesma empresa.
Se alguém o encontrar, façam o favor de lhe dar o recado.

- Até esta data, a empresa em questão ainda não solucionou os inconvenientes que causou. Apelo a todos. Se tiverem oportunidade para o fazer, não usem tmn. Rescindam os vossos contractos com a tmn.

segunda-feira, agosto 08, 2011

O Verão esquizofrénico e a sua amiga Filomena Estupidez

Era uma vez um Verão esquizofrénico que vivia sozinho na memoria de todos.
Este Verão era pobre e previsível como as pessoas que têm falsos projectos.
Este Verão não o era.
Ninguém gostava dele.
Para os outros Verões, eles tinha vento a mais nas costas e borbulhas cheias de pus intelectual. Também os seus professores achavam que os os país deste petiz, nunca o desejaram.

"São tão maus pais como os demais. Assistimos a uma pobre era."

Realmente aquele Verão de 2011 era um coitado.
Um baralho de coisas mimadas. Um conjunto de modas tortas. Mascaras em 2ª mão made in china. Vidas vendidas ao desbarato.
Pobre Verão.
Não parecia longo à primeira vista. Não tinha calor para suficiente para a vinha. Numa fotografia não ficaria muito diferente do seu irmão mais velho. Tem coisas a mais e conteúdos a menos.
É como a maior parte dos putos de hoje em dia. Têm a mania que dizem coisas com graça, mas são apenas parvos.

Também isto é triste.

O pequeno Verão sentia-se deprimido. Consequência de quem apenas se realiza em função da comunidade. Triste e cabisbaixo. Procurou ajuda em quem não o queria ajudar e pagou para saber que era esquizofrénico.
Como qualquer putanheiro, apenas uma vez.
Apenas uma...
Somente para experimentar. Para não morrer burro. Para viver um pouco.
Foi assim que conheceu a sua cara metade.
Serviço de quartos.
Este Verão apenas tinha uma amiga. Era mais que uma amiga.
Ela era o sorriso dos adolescentes tardios. A fealdade do novo ricos. O reflexo da inveja. Ela era a capacidade extrema de tornar o conveniente em morte.
Ela era sua namorada. Chamava-se Filomena Estupidez.
Era feia. Muito feia. Muito mal educada. Muito feia.
Alimentava-se da amargura dos homens justos. É filha da Maldade, semente do Vazio. É devassa. Deitou-se com a juventude, com o sonho e com rasgo. Todos estes escaparam por pouco.
Envenenou intriguista.
Ali agoirou.
Ali se plantou.
E ali ficou. E ali ficará até a massa acordar.

Toda a gente sabe que eles não podem ser felizes para sempre.

Senão espero pela morte deste Verão bastardo e mesmo ali no seu funeral, dou um tiro na porca da Filomena Estupidez.


(N.A - Peço desculpa às Filomenas. Não foi de propósito :) )

sábado, julho 30, 2011

Saudades da Xungaria

Lembram-se quando andávamos na escola e conversávamos sobre que grupo é que iria dominar a sociedade no futuro? Que tipo de estratificação iria imperar no futuro.
É oficial. Posso afirma-lo seguramente:
A Chungaria ganhou.

E ganhou facilmente.

Quando muitos apostavam nos metálicos, com o seu mau aspecto e música de Satanás. Suburbanos de uma emergente classe média, com acesso a literatura subversiva e manuais bombistas. Nada. Também eles foram uma desilusão.
Os betos, pseudo-betos e os betos rurais. Cheios de juventudes partidárias e igrejas. Cavalos, motas e calças em baba de camelo. Oh meu Deus. Como angustiam eles agora, entre empréstimos e a procura de cunhas. Enfim. Também eles perderam.

A Chungaria ganhou.
São mais. Dividiram e conquistaram. Sem estratégia ou hipnose de massas.
Querem a prova?
Hoje não existe Xungaria!
Dizem vocês minoritários e a recuperar a lucidez - Ah isso é que existe. O que não falta para ai, são xungas.
Abençoado seja o xunga que não sabe que o é. Palavra do senhor.
E digo eu - Ok vocês têm razão. Mas o conceito desapareceu.
Acabou. Está extinto. É uma memória. Vejam como agora é comum. Ninguém se importa em ser xunga. Esse muro caiu.
Ide e espalhai a palavra. Espalhai o amor a coisas xungas. Espalhai a semente do xunguismo e de todas as xunguices. Espalhai a Xungaria e fazei dela a sua grande família. Palavra do senhor.

O movimento reformista dos anos 90, que lutou pela decência e pelos direitos das pessoas normais, foi aniquilado. Temos de assumir a derrota. A força do cérebro não chega para mudar este mundo. Lutámos contra um exercito massivo de estupidez e conformismo. Uma massa sem consciência ou qualquer noção do ridículo. O quotidiano é dominado por actos xungas de enorme extremidade. É a era do terrorismo xunga. Surgem novos ataques todos os dias. As baixas são incontáveis.

Tenho saudades da Xungaria. Dela existir. Seja numa festa de trance ou numa claque de futebol. Do tuning à libido de um padre de província. A merda das eleições, sempre elas cheias e xungaria. Numa camisola de alças ou nas férias de emigrante vindo "da França". Miúdas com tatuagens no fundo das costas.
Tenho saudades de notar algo xunga. Custa-me ter de viver neste limbo, cheio de zombeis mal amanhados.

Camaradas. Resta-nos o submundo e a esperança de um dia voltarmos a respirar o ar puro da liberdade.

Bem aventurado seja aquele que procura na xungaria a sua identidade, porque desse será o reino mais xunga. Palavra do senhor.

quinta-feira, julho 14, 2011

Rápidas considerações sobre uma noite de verão, a meio da semana, na Nazaré

Rápidas considerações sobre uma noite de verão, a meio da semana, na Nazaré

As ressacas existem.

Não existem Whiskys de 12 anos maus. Depende sempre do numero de pedras de gelo.

Na Nazaré ainda existem veraneantes que se vestem todos de preto, rematando com uns ténis brancos. Muita desta gente, fala francês e gosta de tatuagens de índole tribal.

Nesta altura do ano, é impossível fazer um concurso de beleza na Nazaré.

Os locais da praia reclamam junto das autoridades, uma maior contenção no uso de tinta para o cabelo por parte dos visitantes, afim de limitar os danos da poluição luminosa. As colónias de gaivotas vivem constantemente numa festa de trance.

Nunca alinhar numa noite de copos com um nazareno. Simplesmente não o podes acompanhar.

Ao pessoal da aventura e desportos radicais: Levem sempre par para uma noite deste tipo. Garanto que lá não se safam. Ou então não levem óculos.

Sabem aquele período da noite em que as mulheres começam a ficar bonitas, tudo lindo e apelativo? Lá, não existe esse momento.

Na Nazaré é possível que bandas de bar toquem José Cid e não exista uma rusga da "policia do tempo" no minuto seguinte. É trágico. A banda não tocava mal... Não tinham era talento... e parecendo que não, dá jeito.

Apesar de parecer sinistro, adoro a Nazaré e as suas gentes locais, recomendando esta localidade como um excelente destino para lazer e diversão. A comida é excelente e os ares são os melhores da região. Um mundo de coisas boas... tem é um lado "exótico-bimbo" muito pujante, aliás, como qualquer ponto do nosso Portugal que seja digno de registo.

sábado, julho 09, 2011

O Divã - III - Cada um foge do que pode



O consultório é de todas as cores menos da minha.
Eu tinha razão.
Eu avisei.
Isto é da terapia.

Tenho demasiadas coisas para fazer. Desta vez não existem listas. São histórias novas, algumas muito novas, outras novas demais.
Não procurarei papeis que perderei quando precisarei deles.
Aqui o futuro é outro tempo verbal.
Só por isto.
Imagine-se que existe destino e o tempo é inconstante. Delirante. Com vontade.
É por isso que não uso relógio. É por isso que chego sempre atrasado. Eu tenho o meu próprio tempo. Todos os que têm relógio estão mal.

Adivinha-me.
Farei tudo para não o fazeres. Sento-me com a mentira há tempo demais. Falo com este e com aquele. Vendo o que tiver e roubarei mulher alguma. Aqui não existem especialistas em malandrice. Estou reformado. Estou de férias e precisar de umas como deve ser!
Tenho demasiado para sofrer. Desta vez não existem listas. Só sonhos. Sonhos e trabalho. Tempos paralelos. Pesadelos e ataques de medo.
Há de tudo um pouco e made in china.
Como diria um amigo meu "pressões". Não das dele. Das minhas. Logo eu, já há tanto afastado do champanhe francês.
Tenho de dizer. A ela e a ele. Tanto faz. Conheces pilas demasiado pequenas. Incapazes. Sem capacidade para sodomizar um boneco da Lego! É triste e clássico.
Foda-se, como é clássico.
Há demasiadas tradições para matar. Ainda recolho quem carregue as bandeiras pretas com a inscrição "A tradição é para morrer".
Divago sem termo.
Eu juro que odeio este consultório. Odeio a terapia
Divago.
É maneira de não pensar naquele beijo.
Pobres bonecos. Abusados. Pedacinhos de plástico profanados por pilas inúteis. Pernas de Barbie. É do calor, das hormonas e do que não entendem.

Adivinha-me agora.
Experimenta em desafio. Tenho nomes para dar. Nada me sai. Tenho coisas para acabar. Nada me sai. Só coisas de adulto. Até sopa. Feijão verde, batata, cenoura, alho francês, entre outros. Não ficou nada de especial. Foi a primeira vez e sempre haverá tal desculpa.

Vou sempre gastar dinheiro com os vícios do meu cérebro.
Como adoro ser decadente.
Qualquer estrela gosta.
Cadente.
Molhar o papel com pressa. Com mecha! Nunca é tarde para mim. Mesmo que seja de manhã. Nocturno. Nunca é tarde para mim. Alguém que me diga alguma coisa. Preciso mesmo de companhia. De descarregar, de me esvair. Preciso de me acalmar. Pára-me por favor. Esquece os cigarros.
O que me acelera... esquecer e esquecer. Fugir e fugir. Não me quero confrontar. Perderei de certeza. Vai doer e não me apetece dor. Apetece-me tomar algo. Algo bom. Não um cigarro friamente. Apetece-me ir distante. Viver diante e beijar com luz. Com aquela luz que não se vê.

Adoro esse teu lado negro.

Desta vez sem flores e outros horrores, saio para a cama. Descuido-me no trauma. É o mal da vaidade. Outra vez. Chega a velha forma. Tudo o que me transtorna. Tudo o que me contém. Eu não sei de quem é a culpa.
Eu juro que não sei. Tenho um suspeito imperfeito. Tenho um culpado contado. Tenho um culpado cantado. Eu juro que não sei. Sei que tenho azar. É fácil ter azar. Mas tenho. Eu que não sou de coisas fáceis.
Mas tenho.
Chego sempre atrasado ao que desejo.
Tu também contas.
Esse é o mal. Tu contas sempre.
Com ou sem avisos. Com ou sem viagens. E as contas estão em extinção.
De vez em quando passo-me. Apesar de treinar para Buda, fica o aviso. Não quero saber. Eu tenho cá dentro aquele desespero. Aquele ritmo rápido que me dispara. Aquele nervo nervoso enervante que enerva! Que luta como um vietnamita. A entesar, a partir, a brigar.
Resta no fim de ganhar, aceitar as dores e descansar como um homem de barba.
Amanhã há mais.

O senhor doutor para a semana vai de férias. Quer marcar para quando?






Nota do autor - Este é o centésimo post que eu escrevo neste blogue. Muito obrigado a todos.

quinta-feira, julho 07, 2011

E sim, é sobre ti.

Odeio quando chego tarde demais.
Lamento que, me odeies por tal.
Como se tivesse a culpa, de ter vontade convulsa,
De querer parar por não ter sal.

Desculpa se te peço demais.
Desculpa ser, o teu nunca afinal.
Desculpa beijar-te a nuca, deixar-te rouca e nua,
Numa noite em espiral.

Nunca se esgota a vontade,
Nem nunca falha a verdade,
Quando te quero afinal.

Desculpa porque desculpa,
Desculpa porque tenho a culpa,
De te querer sem igual

terça-feira, julho 05, 2011

Partes moles, cerebros vazios

Hoje estive em Lisboa.
Tive de ir fazer uma ecografia às partes moles... do braço.
Quando à espera, ouço a "menina" da recepção:
- Sr Afonso Pereira?
Os meus olhos encontram um senhor indiano de óculos, já velhinho, andando com dificuldade usando bengala.
E diz a "menina" que já tem idade para ter juízo.
Em voz alta para toda sala de espera ouvir.
- Ah, é o senhor da colonoscopia.

terça-feira, junho 28, 2011

O Encontro - parte III

Claro que continua.
- Eu não acredito!
Exclama a Joana baixinho, enquanto tapa a boca.
- Ele está mesmo a fazer-se a ela... E ela gosta. Com o marido ao lado.
Um prato estilhaça-se no fundo da sal. Alguém se apressa a varrer os cacos.
Ela é linda.
É giro olhar para ela e ver aquela excitação infantil, de quem acaba de descobrir um segredo.
- Achas que a madama tem um caso com o Sandro? - Insiste a Joana divertida.
Não me agrada o facto de ele ter memorizado o nome do empregado de mesa.
E ela a dar-lhe.
- Será que ela é daquelas predadoras que persegue homens mais novos?
Olho na direcção da mesa ao lado e o miudo está quieto. Ar de tédio, de olhos enfiados na mesa, retorcendo lentamente a ponta da toalha.
Uma voz funda e grossa interrompe o quadro.
- Até aqui Fernanda? - Pergunta o senhor bem posto calmamente.
A senhora do cabelo pintado dirige o olhar para o inquisidor com desprezo.
Poucos segundos.
Muito fortes.
Mas pouco segundos, e volta ao seu prato colorido.
Que tensão. Consigo sentir daqui.
À minha frente o monologo prossegue.
- Isto agora é moda. Já uma mulher da contabilidade, lá do escritório, já na casa dos 50, mas ainda nos trinques, ali jeitosona, anda com um rapaz de 24, que é carteiro.
Ainda há minutos atrás, apenas desejava que ela não descobrisse que eu lavo os dentes apenas uma vez por dia. No banho e à pressa. Agora já não consigo estar a seguir a conversa dela.
- Estás a ouvir?
- Estou sim. - Minto novamente.
O casal ao lado está em silencio e apenas o pequeno Guilherme finge pilotar um avião. Com a boca faz o som de um avião deitando uma série de gafanhotos.
Parece um repuxo.
Aproximam-se pratos coloridos com o nosso pedido, e desta vez o Sandro não vem sozinho. Acompanha-o um colega baixinho, noviço nestas coisas. Nunca olha para nós.
- Ora este é para a senhora, e este... é para o senhor. Aqui está. Bom jantar, bom apetite e qualquer coisa é só chamar.
Diz o galã.
Diz, sorri e abandona em passo de trabalho.
A conversa salta para assuntos deliciosos e prazenteiros o suficiente para me habituar ao espaço. Tenho fome e o comer está muito bom.
- O vinho também é muito bom. - Diz Joana pousando o copo na mesa.
É bom que seja. Se soubesses o preço dele.
É bom que fiques impressionada.
Preciso que fiques impressionada.
Como nos filmes. Tento ser espirituoso e sorridente. Tento-a fazer rir.
Eu adoro vê-la rir.
Parece que o tempo pára.
- Pai. Porque estás chateado? - Pergunta inocente o Guilherme.
- Eu não estou chateado.
- Ele está sempre chateado - Interrompe Fernanda levantando a voz.
- Se a tua mãe não me tivesse que esfregar com o amante dela na cara - Grita o senhor bem posto.
Só o som ambiente.
Apenas se ouve o som ambiente. O tilintar dos copos e dos talheres quieto.
Tudo em pausa.
Todos os olhos encontram a mesa rapidamente.
Rodo a cabeça.
O Sandro está boquiaberto no canto da sala de bandeja na mão.
- Tu!
O senhor bem posto levanta-se e aponta na direcção dele.
- Anda cá!
A Joana com medo aperta-me a mão e diz-me baixinho para irmos embora.
Eu não respondo.
Eu estou petrificado. Tal e qual o pequeno Guilherme.
Estamos a ver um filme.
Toda a gente na sala está a ver a cena.
- Anda cá cabrão. Vem aqui! - vocifera o senhor bem posto.
Do outro lado e a tremer de medo, o galã pergunta nervoso.
- Está a falar comigo senhor?
O senhor bem posto baixa-se e tira uma arma do casaco.
De repente todo o restaurante se assusta num suspiro em uníssono.
- Toda a gente quietinha. Não se levantem. Não gritem. Não tentem fugir. Todos quietos.
A arma é pratada e tem aspecto de ser cara. Com o suor das mãos do senhor bem posto, parece ainda brilhar mais.
- Guilherme. Deita-te no chão.
O menino obedece-lhe rapidamente.
A Joana aperta a minha mão com tanta força que já nem a sinto. Está a ficar dormente.
Noutra mesa, alguém começa a rezar.
- Caluda com essa merda. Quero silencio. Tu - diz apontando a arma ao Sandro que imediatamente deixa cair a bandeja, assustando os clientes - anda vá.
A mulher do cabelo pintado está lavada em lágrimas, debruçada sobre a mesa de mão dada com o menino.
- Júlio. O que estás a fazer? - pergunta a senhora baixinho - Olha a nossa vida homem.
- Cala-te - responde no mesmo tom de voz.
Eu não me consigo mexer. Ainda tenho o guardanapo na mão direita e o desespero da Joana na outra. Não sinto medo, nem o coração bate mais rápido, nem nada.
Só quero ver o que vai sair daqui.
- Chega aqui meu filha da puta.
O Sandro dirige-se muito lentamente em direcção ao senhor bem posto e armado. Cambaleante.
Ocorre-me a expressão "dead man walking". Parece uma execução. Parece um filme.
- Despacha-te cabrão! - Grita a toda a voz o agressor.
Alguém volta a rezar muito baixinho.
O empregado de mesa chega a cabeça ao cano da arma. Como se fosse atraído para ali. Um palmo de distancia. Mãos ao alto e junto aos ombros. O rosto do galã transformou-se. Parece um miúdo da aldeia, suado e ranhoso, mesmo antes de ser sovado pelo pai.
- Como é que te chamas meu merda? - pergunta a arma.
- Sandro - gagueja.
- És tu que andas a comer a minha mulher... Sandro?
Atrás do inquisidor surge mais um apelo.
- Júlio, por amor de Deus. Pelo Guilherme.
Eu olho para o menino e ele está deitado no chão de barriga para baixo de olhos abertos. Não chora. Apenas escuta com atenção o que se passa.
A mãe dele completamente desarranjada. Desesperada. Insiste.
- Por amor de Deus.
Mas na cabeça do senhor bem posto nada entra.
- Sandro mais uma vez. És ou não o infeliz que anda a comer a puta da minha mulher?
É agora.
Já não sinto a mão esquerda, o restaurante soa como uma missa, a mulher de cabelo pintado chora desalmadamente, o Guilherme fechou os olhos.
É agora.
Ele vai-lhe dar um tiro.
- Sandro. Eu estou a perder a paciência.
- Espere, espere - apela o empregado de mesa completamente molhado e a tremer - eu digo a verdade.

Foda-se.

- Eu e Fernanda somos amantes.

O Julio respira fundo, olha para a mulher e diz.
- Puta do caralho.
Num segundo põe a arma na boca e dispara.
Que estalo!
O estrondo do tiro para o coração de todos. O corpo cai em camera lenta. O sangue e pedaços de crânio espalham-se pelas mesas, pelo rosto das pessoas, pelos pratos, pelo chão.
É tanto encarnado.
Eu não tenho tempo de nada. Sinto a arma a cair no chão. Metálica, pesada e dura. Sinto a Joana a desviar-se da cadeira, sempre em camera lenta, e o corpo grande do Julio cair em cima da minha mesa.
Estou imóvel. Como uma estátua.
Passo a mão pelo rosto e vejo sangue. O mais belo e vibrante sangue que alguma vez vira. Lindo. Melhor que num filme.
Ouço sirenes e desmaio.

Mas não é assim.

Foda-se.

- Eu e Fernanda somos amantes - diz o bravo empregado de mesa.

O Julio respira fundo, olha para a mulher e diz.
- Fernanda... Eu quero o divorcio.
Já não sinto a mão esquerda, o restaurante soa como uma missa, a mulher de cabelo pintado chora desalmadamente, o Guilherme fechou os olhos, ouço sirenes ao fundo.
O senhor bem posto tira a arma da cara do miserável empregado de mesa e pergunta-me.
- Pode-me guardar isto? Agradecia-lhe muito.
Na minha mão direita sinto o peso da arma. É linda.
À minha frente a Joana está sem pingo de sangue.
O senhor bem posto senta-se no chão junto ao filho, da-lhe um beijinho e diz-lhe.
- Desculpa o pai! Gosto muito de ti.
Lindo.
Melhor que num filme.
Ouço sirenes, entra a policia a correr de arma em punho e desmaio.

terça-feira, junho 21, 2011

O Encontro - parte II

Um bom romance tem sempre de meter algum crime.
Eu não conto. Prometo que não conto.
De rua em rua até chegar ao restaurante. Fino. Ele merece. Fino é como quem diz. É daqueles onde os novos ricos vão passear a pré-falência. Eles continuam afogados em empréstimos.
Ela sorri e comenta contente.
- Já tinha ouvida falar deste sitio.
À direita está um rapaz. Ele não veste como os empregados de mesa.
- Faça favor. A vossa mesa é já ali.
Vamos nos sentar e respirar fundo. Vamos voltar a acalmar , descontrair e comentar o aspecto dos pratos nas mesas ao lado. Vamos olhar para o menu e brincar com o nome dos pratos. Vamos discutir o vinho para acabar num "escolhe tu" simultâneo.
Risos
- A sério. Escolhe tu. Eu não percebo nada de vinhos - confessa ela enquanto ajeita o cabelo longo.
Eu também não. Eu estou aflito com os talheres. Repito mentalmente, de fora para dentro, de fora para dentro. O vestido é preto. De fora para dentro e eu não posso saltar nenhum prato... senão engano-me.
Abro as mãos, encolho os ombros e digo.
- Joana. Eu também não percebo nada de vinhos.
O sorriso de resposta tranquiliza-me.
- Vamos fazer como num restaurante normal e vamos pedir o vinho da casa - sugere brincando.
- Eu acho que estes restaurantes não têm vinhos da casa e doces da casa. Têm mousse de chocolate, mas nada é da casa.
- Boa noite. Está tudo bem? Já escolheram?
Ele é o Sandro, empregado de mesa, pinta de provinciano e cabelo encaracolado.
Eu desconfio de todas as pessoas que têm cabelo encaracolado. Quanto mais encarapinhado pior. O dele é bastante encaracolado e cheio de produtos brilhantes que deixam o cabelo brilhante, com um ar molhado.
- Ainda não - responde a Joana.
Ele sugere cheio de mil sorrisos e gracinhas parvas. Sugere a um de carne e um de peixe. O vinho sugerido não é muito caro, mas odeio vinhos ribatejanos. São os piores do país.
- Sem ser ribatejano não tem nada? - Inquire a Joana sempre simpática - Não me leve a mal mas não aprecio vinhos do Ribatejo.
Parecemos almas gémeas. Pelo menos no paladar.
O Sandro começa a demorar e assume que existem outras opções.
- Então de que vinhos gosta? Talvez assim eu possa lhe aconselhar melhor.
Ela responde e eu começo a ler francês. Escolho o 4º mais caro da lista. Tem números e tudo. Só quero que ele se vá embora. O perfume do campónio já me começa a dar náuseas.
- Excelente escolha senhor.
Tal e qual como os filmes.
- Vou já buscar.
Estava a ver que não. Chato de merda.
Ela da-me a mão e diz que gosta muito de mim. Eu também gosto muito dela. Isto tá a ficar muito lamechas.
Talvez fosse mais giro ir jantar à beira mar. Uma coisa mais simples e informal. Isto deixa-me tenso. Mais um bocadinho e entro em ataque de pânico.
Na mesa ao lado existe uma dinâmica muito peculiar. Uma senhora já bem senhora, com o cabelo cheio de tinta, tenta impor regras a um menino de 7/8 anos. O terceiro elemento, um senhor bem vestido e mais novo que a sua parceira, come tranquilamente. Alheio a birras e conversas sobre outras pessoas com demasiada tinta na cabeça.
São mulheres com dourados a mais. Quando a única coisa que brilha é o ouro, parece que estás no museu de arte antiga.
- Que tens? Parece que nem me estás a ouvir?
- Desculpa. O miúdo está-me a distrair. Ele é duro de roer. - respondo.
- É tão giro não é? Adorava ter um assim.
Oh não. A conversas dos putos. Não sei como responder... agora é que vou entrar em pânico.
- Gostavas? - pergunta ela linda.
Não.
- Sim. Claro que sim. Adoro crianças.
Minto com tudo que tenho. Vou parar ao inferno na mesma.
Uma voz um pouco mais alta puxa a nossa atenção para a mesa da família.
- Guilherme. Fica sossegado um bocadinho. Já me estás a enervar.
O homem bem vestido olha para o relógio, aconchega a camisa e volta a comer.
- 'Tou farto de aqui 'tar mãe.
- Já vamos. Deixa-me pelo menos jantar descansada.
A senhora até tem umas mamas bem jeitosas. Já foi muito mais bela do que agora. Para ela deve ser duro rever algumas fotografias de juventude.
- Bem ela está mesmo stressada - a firma a Joana.
- Aqui está o vosso vinho. E então? Já escolheram?
Pelo menos olha para mim estupor. Olha-me este merda.
Os meus olhos controlam a Joana e quando volto ao galã de novela mexicana, vejo o mesmo a piscar o olho em direcção à senhora com o cabelo muito pintado.
Olha-me este gajo!
Do outro lado a senhora sorri de volta, cúmplice e comprometida.
O senhor bem posto, continua a comer.
Quando o piroso abandona a nossa mesa, a Joana debruça-se rapidamente sobre a mesa, agarra-me o braço e pergunta.
- Viste?
- Ah pois vi - respondo.

segunda-feira, junho 20, 2011

O Encontro - I

Eu não estou à espera.
Vou esperando.
Eu estou sempre à espera. Como num filme.
Reflexo no retrovisor, um cigarro que acaba e mão procura uma nova estação de radio.
Merda para isto. São todas iguais.
No telemóvel escrevo: Estou no carro.Mesmo em frente ao teu prédio.
"Saio já."
Diferentes noções de "já". Acontece bastante.
Mais vale desistir do rádio. Fico com a poluição sonora. Vigilante e atento à porta que me deixa tão ansioso.
O prédio deixou de ser novo há pouco tempo. Talvez por ser uma rua muito movimentada. É uma zona de escritórios, bancos e restaurantes pequenos. Aqui há pouco tempo e tudo envelhece depressa.
O edifício é alto e parece bem cuidado.
Movimento. Pela porta principal sai uma velhota armada com um saco de plástico numa mão e a trela da fera na outra. É uma cadela pequenina. Parece portar-se bem. Não puxa. Parece passear a dona que já anda com dificuldade.
Nem sempre foi assim.
Olho para o relógio.
Preciso de comprar um relógio mais adulto. Estes bocado de plástico colorido com ponteiros que trago no pulso, são coisas de miúdos. Parece que nunca sai da escola.
Quando levanto o olhar, ai está ela. Espectacular e em camera lenta. Quando me encontra no meio do movimento, deixa um sorriso para encurtar a distancia. Vestido preto. Enérgica e contente por me ver.
O sorriso não desarma.
Penso em sair do carro como fazem os cavalheiros, mas a visão ocupou-me demasiado tempo. Existiram aparições divinas mais curtas e menos iluminadas.
Ela não liga a protocolos e entra no carro.
A porta do lado do pendura abre-se com um "olá" e um beijo alegre, sossega-me.
Tudo brilha. Tudo tem luz. Tudo vive e flui com ela.
- Então vamos? - pergunta enquanto toma posição no banco.
- Claro - respondo sorridente - põe o cinto.
Rodo a chave, abro pisca e mais não conto.

quinta-feira, junho 16, 2011

Linhas sobre miudas que pensam que são gordas mas não são


As miúdas, a gordura, a imagem. Tanto já se escreveu sobre isso.

Podemos por a culpa nas feiosas caixa de óculos, que escrevem em revistas femininas e minam a cabeça toda às raparigas. Nos executivos da televisão que babam com os implantes das suas vedetas suburbanas. Nos gays que gostam mais de figura e de mascararem que de pila.
Se eu fosse gay seria por gostar de pila e não para me mascarar. Para isso existe o Carnaval e por algum motivo só dura 3 dias.
Adiante.
Ponham o dedo no ar se já ouviram uma miúda linda dizer "ai eu sou tão gordinha!"
Não vale por mesmo o dedo no ar.
Fica ridículo estar de dedo esticado em frente a um ecrã de um computador. Tenham juízo.
"Estou tão rechonchuda!", "Não gosto do meu corpo!", "As minhas ancas são enormes!", "Este ano nem me dispo na praia!", Etc...
E agora diz a malta que ainda está de braço no ar feito urso.
- Ah, mas isso, elas querem é chamar a atenção. Isso é só para a gente dizer o contrario. Que elas são muito lindas e coise.
Certo. De facto essa queixa é histórica e geralmente pretende puxar um miminho,
mas existe um facto giro que todos os rapazes habilidosamente ocultam.
Todos eles gostam de Gordas.
É uma cena fixe! É uma cena milenar porra.
Existe mesmo uma facção de rapazes que vai engordando as namoradas à medida que a relação avança. Quem experimentou sabe que é impossível atingir o mesmo nível de prazer com uma fêmea ossuda. Um osso não excita. Se assim fosse implantavam-se ossos nas mamas.
Mulher que é mulher tem de ter zonas de generosa gordura.
Ninguém se importa que ela tenha mais curvas. Até convém. Mais truques se fazem.
Existem pessoas que pagam para serem engrandecidas nas mamas, no rabo, nos lábios.
Elas querem ser gordas. Pelo menos ali.

O síndroma do "tenho vergonha de estar com uma miúda gorda" é como tirar um macaco do nariz. Não o fazes em publico mas em casa estás constantemente nisso.
É muito fixe andar com uma rapariga capaz de ir à baliza. Dá para jogar aos penaltis.
- É mentira, estou a ser parvo.
Até os rapazes de nível "boneca 2000" que apenas se interessam pelas mais populares se transformam em fat lovers quando estas perdem a figura.
E todas perdem a figura.
Todas!

A culpa é da moda e da formatação de massas. É sim senhor. Mas se da próxima vez que uma rapariga vos disser "estou tão redondinha" vocês disserem a verdade, tudo vai correr bem.

Aprendam mas é a fazer o amor! Cambada de inúteis, ejaculadores precoces.

Podem baixar o braço.

terça-feira, junho 14, 2011

Deixa estar as coisas do cão no mesmo sitio, se faz favor!

Tenho uns telefonemas para fazer, mas como cá no burgo as horas de almoço são extensas, aguardo pacientemente... Afinal quem pedincha sou eu...

Tenho a casa num autentico pandemónio. Eu que nem tenho estado em casa.
São coisas da minha mãe.
Ela tem esta doença. Tem porque tem que desarrumar todos os sítios onde passa. Pior. Eu gostava de saber quem é quem foi a besta que lhe deu o compressor. Até a pintura da casa sofreu com o brinquedo.
"Fica para cair para a festa."
Eu saber sei.
Foi aquele trolha que faz as obras ao meu tio. Gajo engraçado, cheio de piadas. O único bacano das obras que vai trabalhar vestido por Hugo Boss. Se pensam que a família do Cristiano tem a mania das grandezas, deviam ver a minha. Até os trolhas são finos.

Apesar de tentar, investigando online, não consegui chegar ao nome cientifico deste comportamento desviante. Existem os maníacos compulsivos que procuram simetrias e ter tudo arrepiantemente arrumado, e existo o contrário. A minha mãe é o contrário.

Por exemplo. O Cão tem um sitio para comer, com as suas taças especiais e personalizadas. Se o animal tem sede ou fome dirige-se ao local.
Com a urgente participação que a senhora minha mãe tem na casa, dou com o cão a olhar por mim.
- Que foi? - Pergunto
Os cães ainda não falam e ele parece que está em exposição. Muito sério. Continua com aquele ar do "tens de me resolver um problema"
- Que foi lindo? Que queres?
Do outro lado. Nada.
É altura de comunicar mais detalhadamente. Vou dizer palavras que ele identifica e esperar que o bicho abane ligeiramente o rabo.
- Água?
tuc tuc
- Papa!
tuc tuc
- Foi a avó?
tuc tuc
Resultado: O Quentin tem um faro espectacular.
Quanto à minha mãe, e apesar da pancada, continua a ser a melhor. Sem esforço e por larga vantagem. Se houvesse um ranking de mães, a minha seria a numero um desde que nasci.

segunda-feira, junho 13, 2011

Rápidas considerações sobre um fim-de-semana prolongado

Rápidas considerações sobre um fim-de-semana prolongado

Estas frases não foram escritas num bloco de notas caro e presunçoso à venda numa loja francesa.

- Um amigo colocou-me esta questão e eu ainda não cheguei a nenhuma conclusão digna. "Porque é que os putos de hoje em dias têm todos vento por trás?"

- Depois de um breve paragem num café de província fiquei a saber que "os comunistas roubaram o dinheiro todo" e que "uma equipa de futebol tem de ser como um grupo de cães de caça".

- Na Feira de Agricultura de Santarém, o gado anda todo à solta.

- Frases como "tens mais cornos que uma panela de caracóis" podem ser grandes piadas se forem utilizadas no publico certo.

- Ainda no Ribatejo. Eu gostava de conhecer o campino de meia idade que fez um sprint de 80 metros atrás do touro em menos de 15 segundos. Fenomenal. Tudo de pau na mão, barrete colete e sapatinho fatela. Campinismo - Respect.

- Parem de me convidar para festivais de Reggae. Não gosto de Reggae. Não gosto da sonoridade, das cores, de ganzas e dessas cenas todas. Odeio que as pessoas fiquem espantadas por eu não curtir Reggae. Eu estou tão fora do Reggae, que até tive de ir ver como se escrevia Reggae, para não me enganar a escrever isto.

- Votar, no nosso país, continua a ser estúpido. Com as provas existentes espero que ninguém interponha recurso.

- Viajar é espectacular desde que o viajante possua um cérebro. Caso contrário é pura tolice.

- Um grupo de amigos convidou-me para realizar um filme. É um remake do Predador, mas em Portugal e com uma protagonista. Já andam a mandar e-mails para a estufa fria. Se não deixarem. Plano b. Jardim botânico.

- No ping pong do Wii Sports Resort, os adversários com nível superior 1300 são lixados. Contudo o braço já está menos dorido.

- Grande parte da cerveja nacional é um porcaria comparada com a estrangeira. Sem sectarismos. Sem nacionalismos. Se achas o contrario é consequência de beber muita cerveja rude.

- A minha marcha é linda.

quarta-feira, junho 08, 2011

The opposite

Há dias publiquei no mural da minha página de facebook a seguinte frase:
"Estou a escolher a vida sexual de alguém... para dissecar no blogue. sim podes ser tu..."

Pop, pop, pop, pop, pop.

Uma série de gente muito interessada, tentava saber qual a próxima aventura. “Pelo menos uma pequena sinopse. Diz-me ao menos sobre quem é. Peço-te.”
Confirmo. Os meus amigos são as maiores quadrilheiras da história. Autenticas velhas regateiras.
Quem interessa isso? Olha que se apenas me inspirasse em casos pontuais, muitas vezes não tinha o que escrever.
Mas houve quem sugerisse:
- Porque é que não escreves sobre a tua vida sexual?
Porque não? Pensei.
Qual é o mal? Se há coisa que tenho bem resolvida na minha vida é esta. Haja qualquer coisa.
(E isto não é uma boca para os meninos que obrigam as namoradas a estimular-lhes o ânus com... coisas)
- Então achas que escreva sobre que parte? – Perguntei.
- Olha. Pelo principio. Como é que alguém pode ter uma vida sexual.
Eh lá.
Um tutorial? Um guia? De todas as ciências esta é a menos exacta de todas. Em muitos casos não há mesmo ciência nenhuma. Vale “meninas”, brasileiras e cenas similares?
- Não. Fala só da tua experiência.

Isso dava um filme.
E dos longos.
Do Terror à ficção cientifica.
Cheio de efeitos especiais e boas performances. Poder-se-ia chamar “I’ll see you in my penis”. Um delírio cinematográfico sobre o poder da minha kavorka*.

Muito sinceramente e brincadeiras a parte.
Por vezes uma boa frase chega.
Enviem uma sms a 10 conhecidas com a frase: Queria fazer badalhoquisses contigo!
Ficarão surpresos com as respostas. (E eu garanto que eu conheço raparigas muito mais dignas que a maioria de vocês.)
Tentem.
(E a que não me respondeu de certeza que se está a tocar fortemente.)

Ou então explorem temas comuns.
- Gostas de música?
- Sim. Adoro – responde ela
- Tenho lá uns cds muito fixes. Se não gostares vestes-te e vens-te embora.

Simples.

Aliás, eu vou tentar simplificar ainda mais.
Todos temos um George Costanza dentro de nós.
É a magia desta personagem. Um homem atormentado pelo seu desajuste social e pelo seu aspecto físico que caminha numa insegurança ridiculamente poderosa. Do desespero à amargura em poucos anos.
What would George Costanza do?
É só fazer o contrário.

É verdade. Confiem no vosso mau instinto.

* The lure of the animal - Cosmo Kramer in Seinfeld

segunda-feira, maio 30, 2011

Brilhantina

Hoje menti.
Bebi chá sem açúcar
Procurei um vinil sem sucesso.
Li centenas de páginas, romance esplêndido,
Usei tinta permanente, comi peixe, tomei um banho de imersão,
Acompanhado com legumes, é claro,
Respirei sais,
Fiz a barba, passeei o cão,
Ouvi Chopin, Litz e Bach,
Usei malhas, couro calçado, bombazine. Sobretudo.
Contemplei efémeros bichos.
Escolhi camisas para amanhã.
um filme com Bogard, ouvi o Anjo azul.
Fotografias todas a preto e branco. Recorte perfeito.
Fumei cachimbo, joguei cartas,
Telefonei em períodos!
Disquei o numero. Fiz a prova dos nove.
Estive sublimemente clássico.
Fleumático.
Recto, sério. Totalmente capaz.
De brilhantina

6/3/2006

Nota do autor:
Obrigado pelas mensagens sobre os textos anteriores. Voltarei ao assuntos da vossa preferência. Entre muito trabalho e a esquizofrenia do tempo, só tive vagar para abrir um caderno antigo e copiar versos sobre o cinzento. Espero que gostem.

quinta-feira, maio 26, 2011

Ensaio sobre a masturbação feminina - parte III


Senhores. Outro exemplo? Conhecem o mito do jacto de agua do chuveiro?
Provem-nos. Provem os vossos chuveiros. Saberão do que falo.
- Que nojo, isso é mesmo parvo - diz ela.
Sim, é assim tão frequente.
- E vê se paras de limpar a pila ao cortinado. Isto não se aguenta - termina em forma de ultimato.
Sim, é assim tão frequente. Provem os vossos cortinados.
Abusar da cabeça de um chuveiro é muito mais digno. Não para a associação de defesa das cabeças de chuveiro molestadas por mulheres masturabadoras, a famosa A.D.C.C.M.M.M.
Várias em cada dez cabeças de chuveiro são vitimas de abusos sexuais. Muitas delas mal saem das lojas dos chineses.
É um crime afastado dos olhares de terceiros que prevalece na nossa sociedade desde que existem chuveiros.

Agora a sério.
É assim tão frequente?
É

Como disse antes. Isto calha em conversa.
- Estou?
- Sim fala do apoio ao cliente. O meu nome é Susana Vieira, em que posso ser útil?
- Eu gostava de saber se a senhora se masturba?
- Com certeza. Diga-me só com quem tenho o prazer de estar a falar e o seu numero de cliente. Aguarde um momento se faz favor. Obrigada.
Musiquinha do costume. Ela volta.
- Obrigado por continuar em linha. Lamento, mas o seu tarifário não lhe permite aceder a esse tipo de informação. Deseja fazer o upgrade para o pacote mastubante pro. Apenas tem de pagar mais 12,90 por mês.

Eu acredito.
Metade das inquiridas afirmam que não se masturbam.
Eu acredito.
Eu algumas... outras tenham paciência.

Umas não têm tempo para isso. Abençoadas. Nunca param. Demasiado exercício.
Outras têm nojo.
Mas do quê perguntam vocês? Do próprio corpo? Terão algum problema de higiene?
Para mim tem nojo do que estão a imaginar!
Sim, é assim tão frequente.
Terá alguma coisa a haver com a igreja ou com as outras formas de repressão da sexualidade feminina?
Ninguém sabe.
Ninguém consegue explicar.
Há quem responda que não o faz, porque não tem necessidade disso. Porque toda a gente sabe que são os mais necessitados, que mais se masturbam. Pobrezinhos.
E mesmo que haja alguma verdade nisto, não é redutor pensar desta forma? Desejar, sentir prazer nisso e com isso, são coisas boas. É positivo. É sinal de estar vivo e de saúde.
Então e aparte lúdica da coisa? E a arte?
Necessidade? Posso assegurar que muita pouca gente caiu nas malhas da masturbação.
Uma voz distorcida, quadradinhos, contra luz.
"Eu comecei nisto da masturbação muito nova. Eu vinha da escola e tocava as minhas bonecas. Começas nisto devagarinho. Primeiro tocas na boneca, depois a boneca começa a tocar em ti, e quando dás por isso 'tás agarrada. Eu lembro-me de um vez ter vendido uma televisão aos meus pais para ir comprar um vibrador. Não fazia mais nada, era só esta vida."

Cuidado com estas bombas relógio.
Até os médicos o aconselham. Faz bem ao corpo e à cabeça. Arrisco-me a reafirmar. Essencialmente, bem aos cérebro.
Porque calha sempre em conversa e porque é sempre mais frequente do que se pensa.

Pelo menos num convento.

quarta-feira, maio 25, 2011

Ensaio sobre a masturbação feminina - parte II



Claro que arranjei tempo. Como não?
Este tema é como qualquer outro tipo de mitologia, espelha nas suas histórias e lendas, todas as características do ser humano.
Depois de começar pelo fim, acidentalmente revelando a conclusão dos meus estudos masturbatórios, devo fazer um ponto de ordem.

Volto ao principio.

Um homem debruçado sobre este tema?
Obviamente.
Conhecer os comportamentos sexuais das mulheres será sempre a ultima fronteira. Pura ficção cientifica.
Alem disso, para mim o tema é histórico. Volta não volta, surge no quotidiano.
- Quanto é que ficou o jogo?
- 3-1... ah e não te sentes. Eu acabei de me tocar. Tens de ir comprar pilhas que estas deram o berro.
Sim é assim tão frequente.

Quando pesquisamos no google - masturbação feminina - cedo descobrimos que não estamos perante coisa simples. Aliás, descobrimos ainda que muito possivelmente iremos começar a estudar o assunto, pela masturbação masculina.

Existem escolas para as senhoras mais desajeitadas aprenderem a nobre actividade. "Pague para aprender a se masturbar".
Só eu é que não tenho ideias como esta.
Mas prometo adaptar à realidade portuguesa. "Menina, aprende a fazer um felácio de excepção. Mensalidades acessíveis".
Descobri um mundo sobre este mito online, mas o grande suporte da amostra cientifica que usei, são das mulheres (meninas e moças) que conheço.
Muitas de vocês estão a ler isto.
Sim é assim tão frequente.
E sim, calha em conversa muitas vezes.

Por exemplo. É do conhecimento comum que os carros em segunda mão variam de valor consoante o género do anterior condutor.
Não por preconceitos ridículos, como o mulher ao volante perigo constante, mas por assuntos relacionados com os hábitos sexuais das mulheres. Concluindo, os estofos de um carro de uma senhora têm sempre de ser substituídos. Especialmente o banco do condutor. Isto porque os fluidos vaginais segregados pela masturbante faz um estranha reacção química com as toalhitas e deixa mancha. Como acontece com o esperma.
Um aviso. Próxima vez que comprarem um carro, escolham bancos em pele.
Sim é assim tão frequente.

Outro exemplo. Os massajadores faciais, vulgo vibradores, dildos, e outras coisas com formato de pila, são os itens mais comprados por mulheres fora dos supermercados. Há até que faça colecção.
Sim é assim tão frequente.

Este comportamento merece estudo, nem que seja pelas suas implicações clínicas.
Eu já tive namoradas enfermeiras, amigos e conhecidos, enfermeiros e médicos, que passam boas horas a retirar de vaginas desconhecidas, um numero infinito de objectos e frutas.
Sim é assim tão frequente.
E sim, elas são muito imaginativas.

Em baixo deixo uma lista de lesões mais comuns que resultam do uso abusivo da masturbação feminina.
- Cãibras
- Afrontamentos
- Síndrome do túnel carpico
- Dedo engelhado
- Vácuo
Consulte o seu médico se já lhe aconteceu algumas destas coisas mais que uma vez.

Mesmo por saber isto tudo é que confesso uma certa desconfiança, quando uma mulher nega, a sua actividade masturbatória.
Especialmente quando têm cara disso.
E quando sei que o parceiro da mesma, se tivesse metade da habilidade para fornicar da que tem para falar, seria um garanhão da lezíria.
- Então tocas-te à grande?
Calha em conversa! Acontece!
- Como? - Pergunta ela fazendo-se de parva.
- 'Tou a perguntar se gostas de brincar contigo? Se gostas de te dar prazer?
- Brincar?
É oficial. Ela tem 3 vibradores. Um na mesa de cabeceira, um no trabalho e outro no carro.
Até parece que nunca tive com ela bêbeda.
Insisto.
- Sim. Não te faças de despercebida. Fazes-te vir? Tocas pianinho ou não? Coças o sininho?
- Que nojo, eu não faço isso!
É o mal das coisas calharem em conversa.
Mas eu sei muito bem que ela toca-se à grande e até agarra as mamas com força quando o faz. Eu sei porque sei. Não faz ela outra coisa. Pega de merda armada em pudica. Até voas.
Esta é a parte que ninguém diz em voz, alta, mas toda a gente pensa.
E esta é a parte que não devia ter dito.
- Ah não? Deves 'tar a treinar para santa?
- Não?
- Ah não?
- Não, não faço. Isso é porco, nojento, sei lá.
- Ah sim?
- Sim.
- Então daquela vez que fomos para o mato com os copos, em que tu 'tavas aos gritos que nem uma maluca enquanto eu te dava por trás, no rabinho, não contou? 'Tavas a jogar gameboy? Aquele click que se ouvia era das teclas se calhar?
Silencio.
Sim é assim tão frequente.
Calha em conversa.

terça-feira, maio 24, 2011

sexta-feira, maio 20, 2011

A vida de uma M é andar a voar.

Manique do Intendente, 20 de Maio de 2011
03:47

Acabou de acontecer.
E como odeio que isto aconteça. Uma pessoa deita-se, ajeita-se, sente a alma e o corpo a agradecer. Glorioso conforto. Gloriosa cama. É tempo de respirar fundo e pegar num livro.
E ouvir.
Bzzzzzzzzzzz
Merda.
Tenho uma mosca dentro do quarto.
Santo e límpido silencio, longe do cacarejar das galinhas, dos veículos locais.
Merda, merda, merda. Esquece. De segundo em segundo.
Bzzzzzzzzzzz
Tudo em ti é paz e serenidade. Deitas-te de consciência tranquila. Levaste o cão à rua, telefonaste à avó. A louça está um brinco. Tudo foi destruído pela insolente mosca. Acabou de acontecer.
Conforma-te. Se queres sossego terás de a matar.
Mas é complicado.
O corpo está demasiado mole. Cansado de um dia quente e comprido. Os músculos estão fora do horário de serviço. A mente, essa está fragilizada por tamanho atentado. Tu sabes. Terás de matar a mosca.
Ela aproxima-se num provocador e habilidoso voo rasante. Tento acertar-lhe com o livro mas estou demasiado lento.
Ela insiste.
Enxoto, sacudo, abano e sopro.
Os meus sentidos estão fixados na porcalhona. Acompanho-a pelo quarto como um atirador furtivo. Tento a fatalidade, mas ao falhar o ataque descubro à esquerda, outra vilã.
É oficial. Terei de me levantar e caçar em trajes menores.
Jé escolhi a arma. Um chinelo vermelho parece-me bem. Prefiro o tradicional mata moscas mas o calçado terá de servir.
Repentinamente sou um predador. Hábil estratega que tenta encurralar a peça de caça, antes de desferir o golpe final.
O quadro é triste. Um tipo nu, de chinelo na mão, quieto como um faquir, seguindo com os olhos, os errantes trajectos dos insectos pedantes.
Indigentes. Formas diabólicas, seres de Satanás.
Cabronas das moscas. Estava tão bem estendido. Todo eu era prazer e ócio. Eu estava completo.
Isto acontece vezes de mais.
Começou o jogo. Com precisão trato das primeiras duas. Estou decidido a massacrar. Pau e pau. Dois cadáveres. Estas são as mais fáceis. Escolhem sempre o candeeiro, ou a janela para pousar. Depois existem as mais experientes. Geralmente escolhem sítios escuros para se acoitarem. Conhecem a arte da camuflagem. Movem-se apenas quando necessário. Mesmo assim sucumbiram. Uma abatida no armário. A quarta executada no tecto.
Agito os braços à procura de mais alguma. Pego numa camisola para fazer mais vento. Tento assegurar-me da extinção da espécie. Faço-o durante alguns minutos.
Vitória.
O povo saiu à rua. A luta deu os seus frutos. Estou livre das bestas insanas. Viva o meu reino.
Caçadas como esta, fazem de mim um homem. Adquiro experiência e glória. Encaro o sono confiante e tranquilo. Não terei pesadelos.
Ajeito-me novamente. Respiro fundo orgulhosamente e preparo o descanso do guerreiro. Lembro-me de todos os ex-combatentes e acaricio o livro impregnado pela cheirosa paz. Na página abandonada, procuro a frase quebrada e ouço:
Bzzzzzzzzzzz

quarta-feira, maio 18, 2011

Dúbia

O teu aspecto é dúbio.
Crias confusão na minha pequena. Ela me mente.
Deve ser dos nervos.
É sempre.
Restam-me poucas unhas.
Tudo se acentua e eu não quero que nada falhe. O teus aspecto é vulgar.
Evoluiu assim,
Gira como lixo, gira como o teu fundo,
A tua verdade e esquemas perdidos. Nasceste diferente.
Mentira.
Apenas gostas que o resto dos parvos tenham essa impressão.
Mas és pouco,
Como fado e jovens fadistas,
E a merda do voto,
Que é pouco.
Trocos pequenos.
Nada desempatas. Nasceste assim.
Dúbia e vulgar. Suja mas diferente.
Mentira.
Certamente viste-o em algum filme.
Algum filme de televisão, dos que passam à tarde.
Tudo em ti falha.
E que falhasse.
Não devias ser má pessoa.
Isso é que estraga tudo.

Assim sou como um monge

Assim sou como um monge. Continuo em clausura.
Longe dos pecados, num ermo e húmido sitio.
Pedra molhada, ajeitada por verdes, beijada pela chuva, cortada pelo vento.
Assim sou como um monge.
Mas dos que usam roupa interior.

Assim sou como a paciência, lenta e respirada.
Sem casos de policia.
Sem crimes de pele.
Sou uma parte espiritual de mim, outra de ti e outra de todos.
Pobre e comedido.
Deambulo pelo vale à procura de respostas, fugindo a pé.
Ficando de pé,
Mas sempre de roupa interior.

Tem de ser.

Um monge sem roupa interior é uma bomba relógio.
É um padre num baptizado.
Algo ferve naquela figura.
É uma adolescente num concerto.
É a namorada do outro que é tão pura como as outras mas pior que as demais.
Algo ferve dentro das veias.
Há algo que se controla. Há algo que se defende. Sempre com roupa interior.

Depende da alma.

terça-feira, maio 17, 2011

A Sara é uma parva como as outras

Aqui não há conversas, apenas sofá. Dos baratos. Com um tecido manhoso e sujante, também ele sujo.
Envia boas. Cerveja. Flash. Novelas. Euronews. Crime. Crime. Crime. Pensos higiénicos.
Aqui não há palavras. Só fumo e reflexos coloridos nas caras deles.
- Está estragada ela – interrompe o da sweat shirt cinza.
- Quem? - Inquire o companheiro sem desviar os olhos do ecrã.
- Armam-se em pegas e depois não querem grama-las. Escolhessem gajos à maneira. É feio dizer mas é verdade. É bem feita.
- Mas quem meu? – Insiste voltando-se para a indignação.
- E está estragada. As miúdas hoje em dia metem-se a tomar a pílula aos 10 anos para ganharem mamas e depois aos 23 parecem as mães delas. Grandes cus.
- Mas tu estás bem? Mas quem pá? Tas doidinho ou quê?
- A Sara, meu.
- A Sara? Mas estás a bater bem? Porque é que te lembraste dela?
Um riso alivia a sala.
- Estou aqui a ver estes anúncios. Lembrei-me dela. Não sei porquê?
- Tens sempre dois caminhos. Viver a vida dos teus pais, ou viver a tua vida. Olha para o pessoal da nossa idade.
- Já vi. Foi como a Sara fez. Faculdade, emprego, casar e filhos. Tudo como é suposto.
Tudo se ajeita no sofá.
- Mas o namorado bate-lhe?
- Então não. Achas que as pinturas tipo palhaço são só consequência do mau gosto? Isso sabe-se por ai – ajeita-se novamente.
- Olha, eu não sabia. Isso é mesmo uma vida de merda. Uma miúda com 20 e poucos anos a levar porrada. Oh meu. Parece... eu nem sei o que parece. Fico triste de viver num sitio onde acontecem estas cegadas.
- O que não falta para ai é disso. Esse pessoal é todo muito macho, mas farta-se de arrear nas mulheres. E elas ainda desculpam e se alguma coisa dá para o torto, protegem o gajo.
- É triste.
- Pois é. Viver a vida dos outros é mesmo muito triste.
Comprimidos para emagrecer, prestações, reabilitação de álcool e drogas, promo de novelas, crime, sexo, jogo da bola, tv shop, etc.

terça-feira, maio 10, 2011

Nem de propósito

Ontem escrevi sobre desperdício de tempo. Hoje o tempo desperdiça a minha energia.
Cá estou eu. Mais problemas com o computador. De repente e do nada. Puf.
Que se foda o windows.
Já chega. Não há paciência.
Que se fodam as bruxas e os bruxedos. Como é possível? Nem de propósito.
Mais um sobressalto.
Outra vez.
Qual é a graça? Querem nivelar-me convosco. Injectar-me fel e cólera. Desejam o fim do meu sorriso. Ora bem. Faço-lhes a vontade.
Se depender de mim não haverá referendo. Queimo-as todas e aprendizes também. Queimarei até os livros do Harry P. para ninguém desconfiar que ser bruxo pode ser fixe e do bem.
Se depender de mim os castigos medievais da inquisição serão pouco para os magos de agora.
E o que me surpreende mais, é haver gente que me liga assim tanto. Existem pessoas mais odiáveis. Nem eu me levo tanto a sério.
Alem de que não vou parar. Continuarei sempre, nem que seja pelo facto de não saber fazer mais nada. Posso demorar, posso perder ritmo, mas conseguirei. Já fiz pior e já vim de pior.
Podem embruxar-me o que quiserem. Quando tiver a minha oportunidade de vos chegar, não falharei.
E vocês sabem disso.
alea jacta est seus filhos e filhas da puta.

segunda-feira, maio 09, 2011

Se não os puderes vencer não te juntes a eles

Desabafo.
Uma das grandes tristezas da minha vida é desperdiçar tanto tempo com terceiros. Incompetentes ou estúpidos ou mal intencionados. Tanto faz.
Seguramente já passei mais de 8 horas ao telefone a reclamar com os meus serviços de Internet. Precisava disto? Não.
Já tive banda com pessoas que comiam maçãs enquanto gravávamos coros. Namoradas completamente loucas viciadas em coisas doidas. Provincianas mal vestidas que julgam o que digo ou o que faço no facebook. Etc. Acabo sempre por dispensar tempo com estas historietas. Acabo sempre por gastar dinheiro. Acabo sempre por responder.

"rudeness is epidemic" - Hannibal Lecter

É mesmo.
Quem pode e não tem filhos, tem um motivo muito simples para não os ter. Os filhos dos outros. Os pais dos outros.
Vive-se mal. O intelecto é perseguido. A inteligência não é bem vista.
Qualquer valor humanista, não é bem visto. Parte deste mundo deixou de apreciar tais coisas.

Mas a epidemia atingiu tal ponto, tal impacto na nossa sociedade, que soa a Apocalipse.
Que sei eu. Vivo num mundo protegido e não estúpido. Uma redoma social e humana. As minhas molduras são tão elaboradas comparando com retratos vizinhos.
Confesso.
Não atinjo o desgosto dos outros.
Não compreendo a inveja, o despeito, a integração.
Disso sou culpado.
Estou em inferioridade numérica. Para mim esta batalha é muito difícil de ganhar. A estupidez é demais. É grandiosa. É epicamente completa.
Ela surge. Irrompe pela minha vida e eu nunca estou preparado. Eu nunca estou à espera dela. É traumatizante. Tento ser estúpido e não consigo. Tento pensar como o adversário, mas é-me turvo. Foge-me da ideia. Escrevo-o muito sinceramente. Sinto-me emboscado.
Mas juro. Mesmo que não os possa vencer, nunca me juntarei a eles.
Custe o que me custar.

segunda-feira, maio 02, 2011

O resgate da minha alma

Desde que me transferi para o campo, os meus amigos lisboetas tentam persuadir-me a regressar à capital. Eles tentam resgatar a minha alma e o meu rasgo, como se estivesse preso noutra dimensão.

Eu também gosto muito deles e tenho muitas saudades. A sério.

A preocupação deles é legitima. Há muito totó que chega ao campo e calça logo uns botins. Os mais camaleões, deixam crescer as suíças, apagando o seu mal fadado e suburbano passado. Ganham novos modos. Ganham uma nova personalidade.
Ora eu não.
Sou puro.
Nado e criado dentro de Lisboa. Não faço parte desse gang.
Outra coisa que os preocupa é a ausência de "horizontes", de oportunidades.
O equivoco deles é normal. A cidade está cheia de campónios que saíram daqui descontentes com as perspectivas de futuro.
É muito mais fino ser escravo em Lisboa. Pelo menos há o bairro alto.
Ora eu também não dou para esse peditório.

E quando eles me perguntam pelo meu exótico e distante quotidiano. "Como é que é viver no campo? Como é que aguentas lá estar? Não tens saudades disto aqui?" Eu respondo:
- É simples. Imagina que vives em Alfama, mas sem policia, sem turistas e sem fado. De resto...

A Dieta - 5 - A Pesagem

IMC - 26,33 Sobrepeso Não me posso pesar todos os dias. Diz que torna a malta ansiosa e acho que a ansiedade engorda. Posso-me pe...