quinta-feira, outubro 28, 2010

A crise dos pinguins

Direito, Economias, Gestão, sempre tive facilidade neste tipo de ciências de pinguins. Só por teimosia e má fé é que estas coisas têm funcionado mal.
Ganancia e mau carácter, vá.
É próprio de gente mal formada.
Magotes de professores e os senhores doutores enchem os nossos ecrãs com concelhos e pareceres sobre a catástrofe que se abateu sobre o sistema financeiro ocidental - fatalmente é claro... ninguém lucrou com isto tudo - Os telejornais e especiais de informação parecem o BBC vida selvagem. Ali está a colónia... Todos a fazerem sons estranhos e desesperados para acasalarem com uma pinguinha toda muito bem posta.
Só que os olhos não mentem. Quando cruzo olhar com a fêmea sei de que raça é ela. É dada. É secreta. É bandida.
Ao lado e ao fundo vem alguma coisa para cá, muito lentamente e num andar esquisito. Tenho dificuldade em ver quem é porque sou míope.
- Ah é o teu par. Está na hora de me retirar. - gracejo com um sorriso.
- Eu já te digo coisas. - Responde a pinguinha insinuante.
Tem óculos. Mas esta gente tem toda óculos e fatos foleiros porquê?
Um pinguim mais velho agarra-me pelo braço e de um modo carinhoso diz-me qua ainda estou a tempo de ir trabalhar com ele.
- Sempre tiveste muita facilidade para estas coisas rapaz.
Eu que até já nem sou assim tão rapaz.
Tento explicar que o talento não me faz feliz. Muitas vezes acontece o contrário. Tenho de enfrentar outras barreiras para me sentir pessoa.
Ele insiste e tenta-me comprar com dinheiro. Com conforto. Com seguros de saúde e pinguinhas interesseiras.
- Eu sei que gostas do que é bom - insistiu.
E eu sei que não fui feito para tratar bichos e reeducar criancinhas da província e emergentes afins. Não é para mim. Mas agradecia que dessem dinheiro à mesma.
Invistam na arte. Pelo menos parece bem.
Mas cá ninguém liga a isso. O que parece bem é ter um carro grande e prateado. O mecenato é residual e apenas para os filhos e sobrinhos mais chegados que têm a amabilidade de lhes fazer companhia ao Domingo. Na missa ou nos momentos mais embaraçantes no Golf.
- Continua a fingir que sabe jogar Golf? - pergunto brincando.
- Tu sabes que prefiro ver o Benfica no sofá. É um desporto mais ao meu jeito. Tem ido ao estádio? Precisa de bilhetes?
Eu recuso pedindo desculpa enquanto uma jovem pinguim nos interrompe com uma emergência social.
Doutor. Aqui ninguém é medico.
A sala é branca e ampla. Muito iluminada. Os pinguins serpenteiam entre esculturas feitas pelos alunos de belas artes. São umas merdas sem jeito, carregadas de um intelectualismo muito triste, que amarga a vida. Tudo aquilo sabe mal.
Levo a mão ao bolso.
Sms da Pinguinha: "Parque de estacionamento, -1, bmw azul clarinho com a capota em beije."
Uau. As novas executivas são tão doidas.

quarta-feira, outubro 27, 2010

As listas estão fora de moda

Dizer estilismo está fora de moda. Também as palavras têm popularidade flutuante.
Com as ideias passa-se o mesmo. Felizmente e por mais que tentem, não se consegue catalogar ideias. O rasgo não se troca por pontos acumulados. Não há carregamentos de sensibilidade.
Manta "Dralon". Lençol em flanela. Lençol com elástico. Manta polar. Cobertura de colchão. Almofada de penas. Lençol em micro-fibras. Edredão. Colchão 140x 200 cm.

Perder continua fora de moda. Perder nunca será o novo preto. Se perdemos um sonho, perdemos um pouco de nós.
E se perdermos... nunca existirá um nós.
Casaco com capuz. Sapatos casuais. Carregador de bateria. Extensão eléctrica.
Exercer poder está fora de moda. Reclamar sim, mas decidir não! Isso é coisa de quem quer mandar e querer mandar é hábito muito mal visto. Escolher nunca. Há que ficar no mesmo sitio e esperar que o vento mude.
"Se todos são imbecis, não sou eu que me vou armar em esperto."
"Pralinés" crocantes. Peitorais. Queijo fundido light. Bloco de fígado de pato. Clementina. Caramelos de fruta. Castanhas. Batata roxa.
A actualidade está fora de moda. Porque é chata e porque ninguém consegue viver decentemente.
Confessem!
Quem é que se sente preso e com vontade de rebentar o mundo?
Quantos de vocês cometem crimes?
Ou pecados pecantes dos que merecem castigo e auto-flagelação?
O motivo é o tédio, não é?
Quem é que quer fazer alguma coisa?
Confessem lá... A vossa vida é mesmo uma grande merda não é?

quarta-feira, outubro 20, 2010

O Divã - I - As madeiras


É esquisito estar deitado neste divã.
Em plena luz do dia. Acordado e a falar do que não quero.
Os meus olhos viajam por todos os pontos do consultório.

- Não o irrita? A mim tira-me do sério. Os escritores nunca dizem mal uns dos outros. Alguém que venha dizer que Os contos do Gin-tonic é o livro mais parvo de sempre.
- Tenha calma. Dificilmente o livro terá esse recorde - respondeu divertido.
- Sério - insisti - Você já leu aquilo? Se eu fosse escritor ficava envergonhado. Desprestigia toda a literatura nacional.
- Mas lembre-se que o livro teve bastante sucesso.
- Isso depende da noção de sucesso de cada um.
- E você? Acha-se uma pessoa de sucesso?

Na ultima prateleira da estante, está uma estatueta de loiça. Um mocho que tudo vê e que tudo ouve.

- Lá está. Isso depende da noção de sucesso de cada um - brinquei.
- Vá lá. Faça um esforço. Acha que o sucesso está condicionado pela opinião de terceiros? Fale-me disso. - pediu pacientemente.

Atrás da ave, uma colecção de imponentes livros azuis e dourados, obras de Julio Verne.

- Sinceramente. Pensar nisso é deprimente. O sucesso, ou o conceito em si, é sempre condicionado pelos outros. A própria ideia subjacente, é uma comparação entre indivíduos consoante as metas sociais que cada um vai atingindo, ou não. Há quem ligue e há quem não se importe. Tal e qual as mulheres. É uma questão de segurança. Quem é mais seguro lida melhor com esse tipo de pressões.
- Vejo que já passou umas horas a pensar nisso - disse enquanto escrevia no bloco bordô.
- Quem é que não pensou? Estamos em 2010... Tudo é performance. Tudo são resultados.
- E com as mulheres... considera-se um homem de sucesso?
Sim. Claro que sim. É óbvio. Sou macho. Um garanhão cobridor, potente e viril.
- Pode-se dizer que sim? - respondi a medo.
Se ele fosse esperto dizia-me já: Isso depende da noção de sucesso de cada um.

Aquele mocho é mesmo giro.

- Nunca teve dificuldades emocionais? No ponto de vista de se relacionar e de viver uma vida amorosa normal, digo.
Uma vida amorosa normal? O que é isso? Será que existe?
- Não. Dificuldades não. Julgo ter relacionamentos normais.
Minto só para saber onde a merda da conversa vai dar.
Logo eu que só conheço gente doida.
- Então essa parte não o preocupa. Está perfeitamente capacitado para ter uma relação e suportar os pontos menos bons que vão surgindo com o passar do tempo.
- Como assim? - perguntei intrigado.
- Há de concordar que os namoros e os casamentos têm altos e baixos.
- Sim, concordo...
- Por exemplo. Uma traição. Há pessoas que não conseguem superar a quebra de confiança.
Sem querer sai-me uma gargalhada.
- De que se ri? Não percebo.
- A quebra de confiança... Isso não existe. Todos os dias os casais perdoam mentiras uns aos outros.

O candeeiro tem bom aspecto. Deve ter sido caro.

- Agora sou eu que não estou a entender - disse tirando os óculos de massa.
- Isso é coisa de novela. De romance de 5ª categoria. Quebra de confiança. Que disparate. Não é isso que faz doer. O que magoa é o prazer que a pessoa traidora sente. A excitação que se consegue traindo.
- Continue.
Já estou a falar com as mãos e deixei de reparar na decoração.
- Trair é empolgante. Quebra rotinas. Quebra este aborrecimento que se apodera das nossas vidas. Dá nervo. Faz-nos sentir vivos. Ser traído é ser chato. É não conseguir satisfazer o cérebro ou o corpo de quem gostamos. Alem disso trair é natural. Quantos traidores e traidoras conhece?
- Sinceramente não me estou a lembrar de muita gente. - respondeu pensativo.
Mentiroso.
- Aposto que em pouco tempo vai arranjar uma lista de pecadores. Trair é normal. É vulgar. Acontece constantemente. Todos os dias em todos os lugares. Está na nossa natureza. Porque é que é tão condenado socialmente? Porque se criou a conversa do "não cobiçarás a mulher do próximo"? As razões e causas para trairmos são infinitas. É tão comum que chateia.
- Vejo que não acredita na fidelidade? - ironizou.
- Acredito. Claro que acredito. Mas sei que toda a gente já foi traída de uma forma ou outra.
- Sim... traído por um sócio, por um amigo, por um colega... - interrompeu-me delicadamente para me instigar o desabafo.
- Não. Eu digo que já foi traída por uma namorada, pela mulher, por alguém que partilhe o mesmo "projecto amoroso"... vá...
Fazer o gesto para as aspas é parvo. Estamos a por o nada entre aspas. E continuei.
- Sendo generoso... pelo menos uma vez na vida toda a gente é traída por alguém de que se gosta - insisti.
- Mas porquê tanto cepticismo?
- Não é descrença. É cientifico. É o que corroí a alma. É a mentira, o impulso, o momento, a justificação ou ausência da mesma. Tudo doí. Eu lembro-me da primeira vez que fui traído. Tudo mudou. Certamente aconteceu o mesmo consigo.
Adoro confronto.
- Não estamos aqui para falar de mim pois não?
- Estamos aqui para falar do que tiver de ser - desconversei.
- Se quer mesmo saber, penso que nunca fui traído - suspirou.
Bem tu sabes.
Para pagares esta sala tiveste de passar aqui muitas horas.
A ruindade está-me no sangue.
- Ora seja você a excepção a regra. Pouco me importa. É apenas a minha maneira de ver as coisas.
- Muito bem. Mas não acha que essa atitude o compromete quando pretende ter um relacionamento mais profundo?
Não sei. Talvez seja imaturo a esse ponto?
Este talvez diverte-me. Quase que acredito no que estou a dizer.
Só quase.
- Eu sei que gosto de mulheres bonitas. Não vou mentir. Sou certamente uma besta infantil por isso.
Do outro lado soa uma sonora gargalhada.
- Não é isso de que estou a falar.
- Eu sei do que está a falar. Simplesmente não me apetece falar - confesso solene - Não quero partilhar o meu sofrimento e muito menos o meu âmago. Desculpe mas prefiro andar disfarçado. É muito melhor que esmiuçar as farsas da nossa vida.
- Eu compreendo. Mas então porque veio cá?
- Por nada... Sinceramente não sei. Talvez ainda não esteja preparado - respondo-lho nos olhos.
- Como posso ajuda-lo, se não está disposto a receber a minha ajuda?
Um encolher de ombros contrai-me o corpo e fecha-me o espírito.
 
Levantei-me, desejei boa tarde com simpatia e sai do agradável consultório com quase tudo o que tinha levado.
Mas só quase.

No passeio uma data de gente transporta uma data de coisas para uma data de sítios.
É estranho.
Parece que sou o único que não tenho pressa, nem lugar para chegar.

O consultório é muito bonito.
As madeiras são muito vistosas e agradáveis. Gostava de ter móveis assim.
Nem sei de que tipo de madeiras são. Os meus pais saberiam de certeza. Eu não percebo nada de madeiras.
Os meus móveis montam-se todos com uma chave sextavada.

Às mulheres bonitas que se faz tarde.

terça-feira, outubro 19, 2010

A senhora doutora

Há dias apareceu-me um caroço no antebraço.
Como bom hipocondríaco que sou, fiquei cheio de medo. Entrei em modo doente. Imaginei todos os cenários que consegui.
Fiquei ansioso. Ansioso pelo dia de hoje. Ansioso por ir ao médico.
Consciente cidadão, dirigi-me a um centro de saúde publico e fui atendido com prontidão e eficiência. As coisas corriam bem demais. Como não desconfiar. Só 2,50€. Então e as mirabolantes histórias do nosso serviço nacional de saúde que inundam telejornais? Queres ver que vou ser atendido antes do tempo e tudo?
Assim foi.
Ao fundo, uma senhora diz o meu nome em voz alta.
Entrei no gabinete senhora dona médica, cheio de civilização e boas maneiras. Sentei-me após pedir licença.
- Então? - Perguntou uma senhora gorda.
Nem bom dia, nem nada? Mas que é isto?
Em fracções de segundos vi o filme todo. Médica a caminho da reforma, sem orgasmos há anos, descontente e aborrecida, com a atitude típica da maior parte dos médicos em Portugal. O síndroma, "Eu sou importante porque acabei medicina. Eu sou Deus. Eu ganho bem e sou Deus. E se me chateias eu não faço o meu trabalho e tu morres. Não há nada que me possa acontecer por ser uma besta ou por ser negligente. Eu sou Deus e os meus filhos terão a mania e serão umas bestas também."
- Apareceu-me um caroço no antebraço esquerdo, há alguns dias. - Respondi.
Sem uma palavra esticou-se dobre a secretária e tocou-me ao de leve no local. Levantou-se, e lavou as mãos num lavatório atrás de mim.
Mas que merda é esta. Só depois de me tocar é que lavou as mãos. Porque é que não lavou as mãos antes?
Voltou ao computador e começou a teclar apressadamente.
- Não me pode prescrever análises? - Perguntei ingenuamente.
- Não. Isso tem que ser com o seu médico de família. - Respondeu com um sorriso arrogante - Vai fazer uma ecografia e depois volta cá.
Cabra de merda. Claro que podias. Não queres é teclar mais um bocadinho.
Em menos de 3 minutos, entrei e sai da sala da senhora doutora. Ainda pensei em pedir o livro de reclamações mas a fila no guiché metia respeito.
Não percebo nada destas tretas do médico de família e da área de residência. De custos e cortes. Se o exame é comparticipado ou não? É desmotivante e desgastante. Vou ter de voltar a Lisboa para fazer o exame. Eu não tenho que estar doente quando o sistema quer. Eu simplesmente fico doente.
Fique doente, mas só na sua área de residência.
Abandono o centro de saúde mais doente e confuso. Não percebo o funcionamento.
Eu se quiser ainda posso dar um chapada na médica. Posso fazer queixa dela. Cuspir-lhe na cara. Posso indignar-me e acusa-la de incompetência. Posso agir judicialmente.
Mas... e quem não pode?
A maioria dos utentes do não podem.
E a maioria dos utentes precisam de ser respeitados.
A próxima vez que um médico ser armar em Deus comigo está lixado.
A próxima vez que me faltarem ao respeito num serviço nacional de qualquer coisa ajo politicamente.
No serviço nacional de saúde, ninguém parece interessado em servir.
Eu também não estou interessado em pagar impostos.
Tudo para o offshore.

A conta no banco

Como todas as pessoas ricas, também eu tenho conta no banco. Aliás. Tenho contas em vários bancos porque sou rico e não acredito na crise. Tenho riquezas.
Na semana passada dirigi-me a uma sucursal de uma banco qualquer com logótipos verdes e um ar modesto.
"Isto é demasiado simplório para uma pessoa tão rica como eu." Pensei.
Há que diversificar. Assim saltei a barreira do preconceito e fui atendido por uma pessoa com óculos.
Vê mal. Talvez seja míope. Se calhar é de trabalhar com notas e ecrãs de baixa qualidade. As letras são muito miudinhas. Os bancos devem ser geridos por pessoas muito sovinas que tratam mal os olhos dos seus colaboradores.
Uma pessoa com óculos. Não muito caros. Tem pinta de mulher casada e com filhos.
"Boa tarde" disse olhando para mim.
Expliquei que queria abrir uma conta à ordem no banco e que tinha ido lá essencialmente para isso.
Sempre quis assaltar um banco, como se faz nos filmes americanos, mas aquele balcão tem um ar demasiado pobre. Não quis arriscar prisão por uns milhares de euros. Ainda pensei em contar isso a senhora de óculos mas tive medo. Imaginei-a a pressionar um botão de alarme debaixo da secretária.
"Eu vou só buscar os papeis"
No fundo da sala está uma outra senhora. Cabelo pintado de louro. Foi certamente muito bonita nos anos dela. Casou, engordou e já trabalha ali há demasiado tempo. De certeza.
- É uma pena - deixei escapar em voz alta.
- Como disse? - interrogou a senhora dos óculos.
- Nada, nada. Então a papelada?
Eu nunca tinha assinado tantas vezes seguida. Senti-me de volta à primaria. O meu nome completo dezenas de vezes. Parecia um exercício. Talvez um castigo.
Multibanco, homebanking, declarações disto e daquilo.
- Qual é a sua profissão? - Inquiriram os óculos.
A minha profissão? Onde é que esta mulher vive. Estamos em finais de 2010. As pessoas não têm profissões. Têm situações precárias. Empréstimos para pagar.
No papel formatado para nos envolver no grande caos financeiro, escrevi: Rico.
A minha profissão é ser quem sou.
- Filiação? O que é isto?
- É o nome do pai e da mãe. Engraçado, que os mais jovens nunca sabem o que isso é - Gracejou a senhora das lentes.
- Sabe é que nós temos trauma com partidos políticos - rebati fleumaticamente.
Sabes o que é isso mas continuas a passar horas de volta de uma fotocopiadora. Gorda.
(É o meu lado negro. Não liguem.)
- Agora faça uma rubrica aqui e aqui - apontando com a ponta da esferográfica.
Eu sigo todas as instruções e procuro apressar todos os procedimentos.
Recebo uma capa com uma resma de papel. Cópias, instruções, facturas, até um ridículo e foleiro porta cartões.
Ter conta no banco é muito pouco divertido. A experiência é aborrecida. Ecologicamente é um desastre. Alem disso estamos a pagar a gatunos para guardarem o nosso dinheiro.
Complicado, não é?

A Dieta - 5 - A Pesagem

IMC - 26,33 Sobrepeso Não me posso pesar todos os dias. Diz que torna a malta ansiosa e acho que a ansiedade engorda. Posso-me pe...