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A mostrar mensagens de Setembro, 2010

Tulicreme e o resto da pandilha

Eu um dia chateio-me a sério. As urgências femininas são testes de fé. Agora descubro porque é que os chineses se fartam de matar mulheres. É para não as aturarem.
Parece que ser chata é condição sine qua non para ser mulher.
Já foi tempo em que os lugares comuns eram mal vistos. Desta vez ergo a bandeira branca. Já nada é mal visto. Já tudo foi espreitado e tudo correria melhor se ela atendesse o telefone. Preciso de me acalmar. De ter a certeza. Atende o telefone.
Dou por mim a comer pão com Tulicreme, fazendo tempo sobre o tempo. Não tenho pressa porque não posso.
É a mediocridade dos tempos do fim do mundo.
Na televisão está um profeta moderno. Gravata e cabelo bem penteado. Cheio de truques de venda e de oratória. Um alinhamento cósmico desfavorável e um planeta cheio de pressões. Da religião ao ambiente. Tudo ligado por um vídeo cheio de criancinhas e catástrofes naturais. Na televisão acredita-se em Deus.
Agora gostava mesmo de ser salvo por um intervalo.
E ela que não telefona.
Ma…

Um poeta de quadras para manjericos - parte VII

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"Ó Rapazinho. Eu sou do tempo em que fumar era giro e levar no cu era feio!"

Se as gramaste, algumas fizestes

Não há nada como arrancar em direcção ao frio. Tudo sem acordo ortográfico ou preocupação.
"A Puta que te pariu. A culpa disto tudo é da puta que te pariu!"
Os gritos não me distraem. Estou de rastos. Passei horas a organizar computadores e doenças vindouras. Apagar, excluir, tenho amachucado furiosamente tudo o que é lixo digital. Ficheiros, pastas, imagens, documentos, as merdas todas.
Ao fundo ouve-se uma chapada e um grito. Deixo cair o cigarro com desprezo e aposto com os meus botões. Hoje não há apoio à vitima nem violência doméstica. Hoje é o meu dia de ignorar sofrimento alheio. A minha consciência reza para que ele não a mate. Que passe de hoje.
Amanhã terei de voltar ao computador e envelhecer deselegantemente.
Amanhã é dia de deambular entre dores de costas e raios de sol de Outono.
Merda para isto. Cada vez é mais complicado fazer bem.
Fazer para quem? Falta imaginação e inteligência. Não há nada a fazer.
Outro grito e nem uma luz se acende.
Ao longe o que está longe.…

Sabem onde podem por a nossa cultural?

Estou cansado. Farto de ideias para o meu país. A intelectualidade os seus paradoxos e as alterações de estatutos. As revisões. As reformas. A esquerda da revolução e a revolução que os mesmos não querem. Os alinhados e os instalados. A cunha da sobrinha do primo da cunhada em manifestos anti mérito. Anti talento. Tudo sabe a leite com chocolate. É desinteressante e infantil.
Tudo é subsidiado, e apoiado, muito bem pago. Tudo é para poucos e para os mesmos.
Sempre em crise é claro.
Desisto.
Sabem onde podem por a nossa cultura?

A neura

Basta só. Eu nem sei o que basta. De vez em quando acontece alguma coisa e a coisa dá-se. Parece bruxedo! De príncipe a sapo em menos de nada.
Da cozinha ouço uma voz ensonada.
- Tou a saborear um cabelo.
- Sabe a shampoo?
- Não.
- Então é um pintelho.
Soa mal quando a faca cai no lava louça.
Lá está ele. Encostado a aduela comendo pão com algo estranhissimo.
- Hoje estamos muito espirituosos. Só gracinhas.
E estou. Hoje estou para parvoíces. Já sei que o resto do dia vai ser magnifico. Eu sou assim. Baixo as expectativas para me surpreender.
A minha reflexão é interrompida.
- Escuta lá? Existe alguma razão para a balança estar sempre entre o bidé e a sanita?
Nunca tinha pensado nisso. Talvez goste de inventar simetrias? Esta manhã está a ser muito parva.
Ao meu lado o copo de leite é bebido de penalty
- Ahhh... Estou satisfeito... Hoje sonhei com uma parvoíce. Sonhei que a Matilde me tinha enganado. Estava aos pulos de um lado para o outro, a gritar e exigir que ela me dissesse a verdade - riu-s…

O sentido aranha dos pobres

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Toda a gente têm uma urgência parva em falar do tempo. Eu não sou excepção!
Hoje quando me levantei reparei que estava mais fresco. Depois das altas temperaturas e do vigoroso sol que nos fez companhia ontem, sou confrontado com um céu ameaçador. Com cara de poucos amigos. Apenas cinzento. Nada de azul. Como milhares de pessoas dizem neste momento: "Está fresquinho!"
Ora eu estou triste por não ter alguma parte do corpo que me alerte para as mudanças de tempo. Toda a gente tem um joelho ou um cotovelo especializado em câmbios metereológicos. Quem é que nunca ouviu?
- Isto amanhã... Isto do tempo vai mudar. Já tenho a anca a dar sinal.
É como o sentido aranha de Peter Parker. O Homem Aranha está dotado de tipo de pressentimento, que o ajuda a desviar-se das coisas más que os vilões lhe atiram.
Eu não possuo esse poder.
As pessoas insistem em exibir esse "dom" constantemente
- Olhem para mim, eu consigo saber se amanhã vou vestir camisola ou não. Sou especial. Eu adivinho a…

Já não há cartas de amor

Já não há cartas de amor.
Pelo menos das verdadeiras. Das que falam de amor verdadeiro. Do tempo onde não existem telemóveis. Por a chave do correio na ranhura, amachucar a publicidade e ficar com aquele sorriso felizmente estúpido. A magia da surpresa. Ansiosos entramos em casa e apressadamente lemos as linhas mais ternas. Puro romantismo. Mariquices apaixonantes.
Tenho saudades do que é genuíno. Do que é puro. Tenho saudades das pessoas.
- Eu não sou muito dado a essas coisas de brincar aos vampiros! Se ela quer festa desse tipo, tem de tar limpinha.
É daqueles gajos que tem opinião para tudo. Malta da calça de ganga. Devia ter escrito na testa - Há 36 anos a usar ganga.
Do outro lado da rua, ao bando de jardim mais próximo da paragem de autocarro, está um menino de cabelo curto. Nas mãos "Tabacaria". Uma edição toda catita, com traduções em Inglês e Francês. O puto tem 12 anos. Ele nunca viu uma tabacaria. Só camiões cheios de gado. Autocarros da carreira velhos. Coisas que…

Um poeta de quadras para manjericos - parte VI

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"Agora os surfistas não podem usar pulseiras do equilíbrio. Dizem que melhora o desempenho dos atletas e desvirtua a competição. Só não proíbem os piercings na língua. Porque será?"

O peixe-aranha, rock evangélico e bolinhas de cuspo

Estou desempregado e ele quer estar. Estou deprimido e cansado. Aborrecido com o mundo e com a tecnologia. Ele diz que a culpa é dos americanos e dos seus foguetões parecidos com pilas gigantes. Eu digo que ele é obcecado por genitália e pornografia. Para ele tudo no mundo ou é uma "gruta" ou um "mastro". Estou desempregado e ele só quer largar a padaria e continuar a fornicar as amantes do chefe dele.
- Têm todas óculos. O Lopes deve ter algum fetiche com lentes.
Uma gargalhada e milhares de migalhas. Partículas e migalhas e saliva, pelo sofá, pela mesa e pelo tapete. O aspirador está na despensa. Está velho. Gostava de comprar outro mas estou desempregado.
- Noutro dia, quando passei lá à tarde para receber, aquela mais magrinha teve de o gramar. Que boa pá. Muito muito boa.
Imagino. Deve ser um espanto. Ele tem um péssimo gosto. Tudo é vulgar e vulgarizante.
- Fomos para o anexo. A pêga estava de saia. Apliquei-lhe logo o movimento do peixe-aranha. Digo-te, ela não é…