quarta-feira, setembro 29, 2010

Tulicreme e o resto da pandilha

Eu um dia chateio-me a sério. As urgências femininas são testes de fé. Agora descubro porque é que os chineses se fartam de matar mulheres. É para não as aturarem.
Parece que ser chata é condição sine qua non para ser mulher.
Já foi tempo em que os lugares comuns eram mal vistos. Desta vez ergo a bandeira branca. Já nada é mal visto. Já tudo foi espreitado e tudo correria melhor se ela atendesse o telefone. Preciso de me acalmar. De ter a certeza. Atende o telefone.
Dou por mim a comer pão com Tulicreme, fazendo tempo sobre o tempo. Não tenho pressa porque não posso.
É a mediocridade dos tempos do fim do mundo.
Na televisão está um profeta moderno. Gravata e cabelo bem penteado. Cheio de truques de venda e de oratória. Um alinhamento cósmico desfavorável e um planeta cheio de pressões. Da religião ao ambiente. Tudo ligado por um vídeo cheio de criancinhas e catástrofes naturais. Na televisão acredita-se em Deus.
Agora gostava mesmo de ser salvo por um intervalo.
E ela que não telefona.
Mas porque é que temos de escolher? Porque é que temos aquele reflexo tonto de dizer amo-te a alguém? Esta mariquice até hoje só me trouxe chatices.
O que direi ao meu filho?
Nunca se confessa nada.
Nunca.
O telefone está a tocar. Deve ser ela.

Um poeta de quadras para manjericos - parte VII



"Ó Rapazinho. Eu sou do tempo em que fumar era giro e levar no cu era feio!"

terça-feira, setembro 28, 2010

Se as gramaste, algumas fizestes

Não há nada como arrancar em direcção ao frio. Tudo sem acordo ortográfico ou preocupação.
"A Puta que te pariu. A culpa disto tudo é da puta que te pariu!"
Os gritos não me distraem. Estou de rastos. Passei horas a organizar computadores e doenças vindouras. Apagar, excluir, tenho amachucado furiosamente tudo o que é lixo digital. Ficheiros, pastas, imagens, documentos, as merdas todas.
Ao fundo ouve-se uma chapada e um grito. Deixo cair o cigarro com desprezo e aposto com os meus botões. Hoje não há apoio à vitima nem violência doméstica. Hoje é o meu dia de ignorar sofrimento alheio. A minha consciência reza para que ele não a mate. Que passe de hoje.
Amanhã terei de voltar ao computador e envelhecer deselegantemente.
Amanhã é dia de deambular entre dores de costas e raios de sol de Outono.
Merda para isto. Cada vez é mais complicado fazer bem.
Fazer para quem? Falta imaginação e inteligência. Não há nada a fazer.
Outro grito e nem uma luz se acende.
Ao longe o que está longe.
Um gato preto evita testemunhar.
Ela não pára de chorar. Rouca e derrotada.
Habituada.
Anos passados e é sempre o mesmo crime, o mesmo castigo. Será que nunca vão aprender?

quarta-feira, setembro 22, 2010

Sabem onde podem por a nossa cultural?

Estou cansado. Farto de ideias para o meu país. A intelectualidade os seus paradoxos e as alterações de estatutos. As revisões. As reformas. A esquerda da revolução e a revolução que os mesmos não querem. Os alinhados e os instalados. A cunha da sobrinha do primo da cunhada em manifestos anti mérito. Anti talento. Tudo sabe a leite com chocolate. É desinteressante e infantil.
Tudo é subsidiado, e apoiado, muito bem pago. Tudo é para poucos e para os mesmos.
Sempre em crise é claro.
Desisto.
Sabem onde podem por a nossa cultura?

sábado, setembro 18, 2010

A neura

Basta só. Eu nem sei o que basta. De vez em quando acontece alguma coisa e a coisa dá-se. Parece bruxedo! De príncipe a sapo em menos de nada.
Da cozinha ouço uma voz ensonada.
- Tou a saborear um cabelo.
- Sabe a shampoo?
- Não.
- Então é um pintelho.
Soa mal quando a faca cai no lava louça.
Lá está ele. Encostado a aduela comendo pão com algo estranhissimo.
- Hoje estamos muito espirituosos. Só gracinhas.
E estou. Hoje estou para parvoíces. Já sei que o resto do dia vai ser magnifico. Eu sou assim. Baixo as expectativas para me surpreender.
A minha reflexão é interrompida.
- Escuta lá? Existe alguma razão para a balança estar sempre entre o bidé e a sanita?
Nunca tinha pensado nisso. Talvez goste de inventar simetrias? Esta manhã está a ser muito parva.
Ao meu lado o copo de leite é bebido de penalty
- Ahhh... Estou satisfeito... Hoje sonhei com uma parvoíce. Sonhei que a Matilde me tinha enganado. Estava aos pulos de um lado para o outro, a gritar e exigir que ela me dissesse a verdade - riu-se - Quando ela confessou fiquei muito desiludido. Juro-te que acordei triste.
Matilde. Nome de velha. Quem é que põe Matilde a uma filha?
- Mas desiludido em que grau? - Inquiri.
- Em que grau? Epá... mas que parvoíce. Não sei. Muito desiludido.
Com um sorriso trocista na cara insisto.
- Desiludido como: Ver a ex-namorada com um gajo fatela. Que tu conheces... ainda por cima, ou; Ver um gajo que não curtes com uma t-shirt da tua banda favorita?
Outro sorriso responde.
- Sem dúvida que a cena da ex-namorada me deixa menos triste que ver uma atrasado qualquer com uma t-shirt da banda do coração.
Quando rimos juntos somos amigos. Quando brilhamos juntos brilhamos com mais força. Quando alguém entende o nosso mundo sem o querer povoar, sem o querer explorar, sem conquista ou missão. Quando temos amigos, temos máfia. E ter a sua própria máfia, alem de divertido, dá um jeito do caraças.
Insisto.
- E então?
- Senti-me como se tivesse comprado um tapete de Arraiolos dos chineses. Quando vês o made in china duvidas de ti. Sabes que és de um nivel inferior. Sabes que não és ninguém. És pobre e tens mau carácter. Queres ostentar e contemplar, mas só o fazes através de uma imitação. Também tu és falso. Ela fez-me sentir isto.
Fiquei a pensar naquilo, virei-me para a frente no sofá e liguei a televisão.
Como um espasmo, disse.
- É oficial. Estou com a neura.
- Hoje vai ser chatinho vai. Se calhar é melhor baixar as espectativas.
- Se calhar é.

quarta-feira, setembro 15, 2010

O sentido aranha dos pobres


Toda a gente têm uma urgência parva em falar do tempo. Eu não sou excepção!
Hoje quando me levantei reparei que estava mais fresco. Depois das altas temperaturas e do vigoroso sol que nos fez companhia ontem, sou confrontado com um céu ameaçador. Com cara de poucos amigos. Apenas cinzento. Nada de azul. Como milhares de pessoas dizem neste momento: "Está fresquinho!"
Ora eu estou triste por não ter alguma parte do corpo que me alerte para as mudanças de tempo. Toda a gente tem um joelho ou um cotovelo especializado em câmbios metereológicos. Quem é que nunca ouviu?
- Isto amanhã... Isto do tempo vai mudar. Já tenho a anca a dar sinal.
É como o sentido aranha de Peter Parker. O Homem Aranha está dotado de tipo de pressentimento, que o ajuda a desviar-se das coisas más que os vilões lhe atiram.
Eu não possuo esse poder.
As pessoas insistem em exibir esse "dom" constantemente
- Olhem para mim, eu consigo saber se amanhã vou vestir camisola ou não. Sou especial. Eu adivinho alguma coisa.
- Pena esse "dom" não te ter ajudado quando te agrafaste a um monte de silvas. Ou quando partiste o pé. Nessa altura nada pressentiste. Nem ouviste nenhuma voz a dizer "Deixa de ser urso... Olha que ainda te aleijas".
Isto é só a inveja a falar.
Eu não tenho essa bênção.
Assim, vou ter que estar sempre sujeito à surpresa e à terrível incerteza. Não posso fazer mais nada a não ser, olhar para o céu e confiar no meu tacto.

segunda-feira, setembro 13, 2010

Já não há cartas de amor

Já não há cartas de amor.
Pelo menos das verdadeiras. Das que falam de amor verdadeiro. Do tempo onde não existem telemóveis. Por a chave do correio na ranhura, amachucar a publicidade e ficar com aquele sorriso felizmente estúpido. A magia da surpresa. Ansiosos entramos em casa e apressadamente lemos as linhas mais ternas. Puro romantismo. Mariquices apaixonantes.
Tenho saudades do que é genuíno. Do que é puro. Tenho saudades das pessoas.
- Eu não sou muito dado a essas coisas de brincar aos vampiros! Se ela quer festa desse tipo, tem de tar limpinha.
É daqueles gajos que tem opinião para tudo. Malta da calça de ganga. Devia ter escrito na testa - Há 36 anos a usar ganga.
Do outro lado da rua, ao bando de jardim mais próximo da paragem de autocarro, está um menino de cabelo curto. Nas mãos "Tabacaria". Uma edição toda catita, com traduções em Inglês e Francês. O puto tem 12 anos. Ele nunca viu uma tabacaria. Só camiões cheios de gado. Autocarros da carreira velhos. Coisas que tresandam. Também ele tem dentro, todos os sonhos do mundo.
- A panleirice só tem uma cura. É a morte. - Insiste o homem vestido de ganga do outro lado da rua.
Fala para dentro da tasca aos gritos. Está a porta para poder fumar.
Agora não se pode fumar em lado nenhum mas toda a gente vai morrer de cancro.
Desço a rua sem traumas e não comprimento ninguém. Finjo que sou anónimo e tapo com a mão direita o umbigo. Dizem que o mau-olhado entra dentro de nós pelo umbigo. Dizem que essas coisas existem, e eu acredito.
Enquanto despejo o lixo no contento, ouço velhas assuntando:
- É o tempo deles vizinha - Diz uma velha coxa com as mamas muito grandes. Está debruçada sobre o muro baixo olhando de lado a companheira. Uma triste figurinha, baixa e magra que se vai esticando para alcançar o estendal. Só roupa preta e branca.
- Ai mas a da Lurdes ia mai bnita. Parecia um filme. Mesmo o rapaz ia muito composto - diz a velha que estende roupa.
- Esse na vi. O mê Jorge apanhou um bubederão temivle. Vemitou-se toda a manhã e eu tive lá a assistir-lo. Cuido que ele anda outra vez amantizado ca neta da Dulcina.
- Cristo. Ela tem um ar assim muito coiso - Franze o nariz e a testa como se tivesse a ficar enjoada - Só tatuaiges e aqueles brincos esquesites. Coisas que natraumente puxam à droga.
- Não - interrompe prontamente a outra velha - Ele não é dessas coisas. Gosta de beber o seu copito, mas eu até nem nunca o vi fumar.
Quando a tampa do contentor cai a conversa pára assustada. Na minha direcção os olhos da velhas, tentam conhecer-me. Identificar-me. Saber de quem sou eu?
Eu sou meu.
Viro costas e volto para casa tapando o umbigo. O banco da tabacaria estava vazio e a porta do café central também já exibia um silencio digno e sem ganga.
Nem todos deviam ser pais!
Todas as terras têm um café central e um banco dos velhos.
"Sítios de apodrecimento" diz o poeta de quadras de manjericos. Rasga-me um sorriso e um aperto de mão vigoroso.
- Então rapaz? Por cá?
A conversa salta trivialidades e desconfortantes perguntas. Apenas votos de boa sorte e convites para tertúlias noctívagas entre poetas e vinhos doces.
- Diz a menina para aparecer também. Adeus.
Digo que sim com a cabeça mas não sei se me apetece. Sinto-me longe de um sorriso. Estou quente e mole.
Subo a rua cheia de sol enquanto verifico o telemovél. Ainda é cedo. Não tenho nada para fazer, mas ainda é cedo para qualquer coisa.
Depois de fechar o portão remexo a caixa do correio. Amaroto a publicidade, conto as contas e fixo o momento num postal. Cheio de amor e como antigamente. Foi o carteiro regateiro que o trouxe. Leu-o de certeza, mas não importa. Um postal cheio de graça. Honesto e puro. De amor. De saudade. Sou meu mais uma vez e volto a ficar feliz. Talvez passe na casa do poeta de quadras para manjericos. Trocaremos versos e risos sem hora marcada. Sem hora de chegada.
Olho para o meu cão e digo-lhe em voz alta.
- Lá estás tu. Cheio de metafisicas.
Ele pensa.
Isso do amor é muito bonito mas já me levavas à rua.

segunda-feira, setembro 06, 2010

Um poeta de quadras para manjericos - parte VI


"Agora os surfistas não podem usar pulseiras do equilíbrio. Dizem que melhora o desempenho dos atletas e desvirtua a competição. Só não proíbem os piercings na língua. Porque será?"

quinta-feira, setembro 02, 2010

O peixe-aranha, rock evangélico e bolinhas de cuspo

Estou desempregado e ele quer estar. Estou deprimido e cansado. Aborrecido com o mundo e com a tecnologia. Ele diz que a culpa é dos americanos e dos seus foguetões parecidos com pilas gigantes. Eu digo que ele é obcecado por genitália e pornografia. Para ele tudo no mundo ou é uma "gruta" ou um "mastro". Estou desempregado e ele só quer largar a padaria e continuar a fornicar as amantes do chefe dele.
- Têm todas óculos. O Lopes deve ter algum fetiche com lentes.
Uma gargalhada e milhares de migalhas. Partículas e migalhas e saliva, pelo sofá, pela mesa e pelo tapete. O aspirador está na despensa. Está velho. Gostava de comprar outro mas estou desempregado.
- Noutro dia, quando passei lá à tarde para receber, aquela mais magrinha teve de o gramar. Que boa pá. Muito muito boa.
Imagino. Deve ser um espanto. Ele tem um péssimo gosto. Tudo é vulgar e vulgarizante.
- Fomos para o anexo. A pêga estava de saia. Apliquei-lhe logo o movimento do peixe-aranha. Digo-te, ela não é nada má. O negócio ficou intenso.
- Movimento do peixe-aranha? - Interrompi.
- Sim pá. Só dar aquele jeitinho à cueca. Puxas para o lado e zuca. Lá dentro. Ataque rápido.
Como é que alguém se digna a nomear tais coisas?
Ele ri e faz zapping e pára sempre que vê um decote.
Olho para o telemóvel frequentemente. Estou a espera de uma mensagem. De alguém que me ligue e acabe com aquela migalhada.
- Mas eu não vou continuar a cena ninja com ela. Estas gajas são assim doidas para cobrir, porque andam naquelas igrejas maradas. Protestantes, evangélicas e do 35º dia que testemunharam tudo. Malta dos peixinhos nos carros. Merdas à americana. Nunca viste?
Eu concordo com a cabeça e volto a olhar para o telemóvel.
- Foda-se e as bandas que ela ouve? Só merda. Cenas dessas do evangelho Esses pastores todos, têm bandas de rock. Rock? Uma parvoíce. Coisas mesmo sem jeito nenhum. Canções zero, ideias nicles. Depois ninguém toca um caralho e são feios como tudo. Aquilo para gente abençoada estão bem fora da graça de Deus.
Levanto os olhos do telemóvel, olho para ele e pergunto?
- Rock do Deus?
- Rock do Senhor do Jesus e do Pastor. Sério?
Ajeito o corpo no sofá e insisto.
- Queres ver que eles também andam de skate?
- Oh. Isso tudo. Doidinhos mesmo. A apelar à vida sem drogas e ao amor. Tudo cheio de castidades e de respeito. Uma cena mesmo da cruz. Isso agora está tudo na moda.
Invejei e tentei pecar por categorias, mas as migalhas acumulavam-se. Lá fora havia um mundo mais agressivo para o meu futuro filho. Hoje bandas de rock da merda, amanhã guerra santa. Cruzadas VIII - O regresso da verdade.
No ecrã uma apresentadora mamalhuda, da beijinhos a duas dúzias de crianças. Eu já sei que ele vai comentar.
- Olha o cabrão do camera. Deve estar a vir-se em seco. E o realizador. Bloqueou certamente. Quem é que está a olhar para os putos?
Podes crer que há muita gente a olhar para os pequenos. Pelo menos quero acreditar que sim. Também eu não consigo desviar o olhar do decote da apresentadora.
Sair com uma gaja destas deve ser de sonho. Agora não que estou desempregado! Depois não que continuarei pobre. Depois não que continuarei feio.
- Esta gaja tá cá com um aço. Não lhe perdoava nada. Era até fazer ferida.
Estas mulheres nunca me conhecerão. São assediadas em demasia. Não olham para o lado. Têm sempre alguém a olhar para elas. Também elas devem ir à igreja.
- Era um consolo.
- Era, dizes bem - digo eu baixinho enquanto olho novamente para o telemóvel.
Já não me diz mais nada. Está chateada comigo por ter gritado com ela. Vaca de merda. Puta. Logo agora que estou desempregado. Onde está o apoio?
- Digo-te já que é perfeitamente possível mamar um petisco destes. Nunca se sabe.
A vassoura está atrás da porta da casa de banho. Ficou lá quando estive a fazer a barba. Ele que nunca mais pára. Às vezes gostava que ele desaparecesse.
- Curte só.
Uma bolinha de cuspo é soprada em direcção ao nervoso ecrã. Parece uma pequena bola e sabão. Quando chega às cores rebenta.
- Eh meu! Não faças isso à televisão - Protesto - Olha-me essa javardice.
- Vá lá. Tu eras o campeão desta arte! As tuas bolas de cuspo viajavam sempre muito mais.
Pois era.
Agora? Perdi toda a ambição.
Agora estou desempregado e fechado contigo numa sala a ver programas estúpidos. Números de telefone em rodapé. Agora espero cientificamente pelo mensagem.
Talvez ela me queira desempregado.
Sinto uma dor no ombro. Alguém se vira para mim e pergunta.
- Escuta lá? Estás deprimido?

A Dieta - 5 - A Pesagem

IMC - 26,33 Sobrepeso Não me posso pesar todos os dias. Diz que torna a malta ansiosa e acho que a ansiedade engorda. Posso-me pe...