terça-feira, dezembro 14, 2010

Ela manda

Saio de outra vida. Saio composto. Bem vestido. Elegante e maduro.
Como num anuncio a perfumes.
Passa a passo na estrada molhada e brilhante. Mesmo no meio.
As mãos exibem luvas pretas, suspensas, longe do do quente do bolso forrado. Saio de outra vida. Mesmo a meio, e volto a pensar na minha jornada. Mesmo a meio.
Ao longe, quilómetros a frente, ecoa um motor, diesel.
Volto a apreciar o silêncio e o relógio que me acompanha. Que me envelhece. A minha viagem, mesmo a meio de tudo, difere de sentido. Tem vida própria e cenas de adultos. Cruza-se com o rebanho no pasto, mas insiste em pular a cerca. Ela não tem medo de lobos. Ocasionalmente até os ataca.
Cenas violentas, algumas chocantes. Algumas com sangue.
Algumas com graça.
Ele corre violenta como o galope de um cavalo, espezinhando à sorte outras vidas. Enfurecendo. Criando azar e outras metades. Mesmo ao meio.
Ela manda.
Não vale a pena contrariar, ou copiar pelo colega do lado.

segunda-feira, dezembro 06, 2010

"Se não usarmos os palavrões livre e inocentemente, eles tornar-se-ão em meras obscenidades. E para obscenidade, já basta a vida em si."



"Se não usarmos os palavrões livre e inocentemente, eles tornar-se-ão em meras obscenidades. E para obscenidade, já basta a vida em si."

Um grande actor. Um grande texto. Um enorme escritor

A vida em oleo vegetal

Lá está. Curiosamente descobri que, o factor determinante para o aperto em que os cadáveres de sardinha se apresentam dentro da lata - mesmo atingindo a estante de um vulgarizante supermercado - está intrinsecamente relacionado, com o preço do óleo conservante ser superior ao da própria sardinha.
Ou seja, apesar de necessário, o suporte acessório e complementar é mais importante que a matéria prima, condicionando a qualidade desta ultima.
É o que se passa com a arte em geral no meu país.
É o que se passa com tudo no meu país.
Mas se eu tivesse de comparar o meu país com um produto enlatado, e apesar da imagem de 3 sardinhas decapitadas parecer uma bela analogia quando pensamos politicamente, eu sem duvida que escolheria o sangacho de atum.
Algo negro, avermelhado e barato.
Algo que já esteve bem perto de uma espinha dorsal.
Uma coisa esquisita que nos põe a adivinhar? Carne desfeita, passada pelo tempo e pela chuva pesada.
Abro a lata, olho e questiono:
- Mas que merda é esta?
Nas minhas costas, uma voz trocista, assusta-me
- E devias ver o que ai vem!

quarta-feira, novembro 17, 2010

Morte aos Genéricos

Gosto de folgar à 2ª feira. É o meu dia de descanso.
Os Genéricos estão todos de mal humor e eu aproveito para ficar a recuperar dos meus atribulados fins-de-semana.
A vida de artista cansa muito.
Da minha janela vejo-os. Observo toda a sua malícia e incompetência. Todos os maus-fígados, toda a maledicência, sempre muito pouco decente.
Merda para eles. Um genérico nunca tem uma alma única. É parte de um rebanho. Não há pastor que os guie, nem fado que os lamente. No máximo podem ser residuais.
Reclamo méritos para mim. Reclamo superioridade. Reclamo direitos de autor no manifesto anti-estupidez. Morra o Genérico, morra já.
E sem Pim.
Que morra porque o mundo não precisa de mais tristes a fazer o mal. A propagandear o mal, a fazer do que é ruim, moda.
Porque fazer o mal é coisa de gente pequena.
Porque ser pequeno é coisa de gente mal formada.
Porque ser-se mal formado é epidémico.
E porque as epidemias existem para acabar com a raça humana.
Pelo menos para manipular o funcionamento da mesma.
- Ainda não são horas para falar de conspirações e não tenho aqui comigo os meus amigos pseudocientistas, carregados de metafisicas baratas polvilhadas com propriedades tecnologias, impossíveis de interpretar, pelo menos à fraca luz dos conhecimentos exibidos por tão queridos pares.
Pelo menos para corroer tudo o que foi pensado e sentido pela história. Pelas mulheres e homens do nosso mundo ocidental.
É esta janela que escurece rapidamente.
É o mal de ser Genérico. É o mesmo problema de ser ordinário, vulgar e comum.
Tudo escurece muito rapidamente

sábado, novembro 13, 2010

O meu tédio é pior que o teu

Isto é como tudo.
Acordas usas peúgas com chinelos, pensas no que vais fazer para o almoço, procuras um casaco porque está frio. Está frio e está feio. Na boca tens um sabor esquisito. Procuras comprimidos. Procuras a casa de banho e sentas-te. Como uma rapariga. Sentas-te porque tens sono e passaste a noite com dores de dentes. E tu não sabes porquê. Feijão frade e atum. Ovos não que já comeste ontem.
Farmácia, estúdio, banho e jantar de anos com amigos... Muitos mesmo. Na farmácia lembra-te de procurar um genérico como dizem na televisão. Coisas do governo.
Acendes a televisão para te irritares e voltam as dores. Volta a vontade, volta o aborrecimento.
A rapariga da farmácia sorri muito. É simpática e agradável. Desconfias sempre de pessoas simpáticas. Tu não és simpático. És arrogante e tens mau fundo. És amargo e amaldiçoado por um cínico já morto. Nada a fazer.
Volta a vontade, volta o aborrecimento.
É Sábado. Mas porque será que os Sábados te incomodam tanto. É trauma. Os Sábados são de toda a gente, mas o trauma é só teu. Foste traído. Sempre ao Sábado.
É Sábado porque deve ser! És rápido a sair da farmácia e deixas a rapariga simpática triste. Ela achou-te giro, meteu-se contigo e tu foste uma besta.
É tempo de telefones. Voltas a ligar porque está interrompido e deixas mensagem porque estás esaurido. Pensas positivamente. Obrigas-te.
Obrigas-te a mais um Sábado.
Puxas um cigarro que não deves fumar, fechas por um casaco que não te vai ajudar.
E num instante, vês de relance. A alma que ninguém quer perder. Que coisa ruim, que face penada. Um olhar mortiço que atormenta qualquer ser.
Quando comparas... Quando te sentes... Algo em ti dispara e em segundos ficas contente.
Há sempre pior... Sempre!

quinta-feira, outubro 28, 2010

A crise dos pinguins

Direito, Economias, Gestão, sempre tive facilidade neste tipo de ciências de pinguins. Só por teimosia e má fé é que estas coisas têm funcionado mal.
Ganancia e mau carácter, vá.
É próprio de gente mal formada.
Magotes de professores e os senhores doutores enchem os nossos ecrãs com concelhos e pareceres sobre a catástrofe que se abateu sobre o sistema financeiro ocidental - fatalmente é claro... ninguém lucrou com isto tudo - Os telejornais e especiais de informação parecem o BBC vida selvagem. Ali está a colónia... Todos a fazerem sons estranhos e desesperados para acasalarem com uma pinguinha toda muito bem posta.
Só que os olhos não mentem. Quando cruzo olhar com a fêmea sei de que raça é ela. É dada. É secreta. É bandida.
Ao lado e ao fundo vem alguma coisa para cá, muito lentamente e num andar esquisito. Tenho dificuldade em ver quem é porque sou míope.
- Ah é o teu par. Está na hora de me retirar. - gracejo com um sorriso.
- Eu já te digo coisas. - Responde a pinguinha insinuante.
Tem óculos. Mas esta gente tem toda óculos e fatos foleiros porquê?
Um pinguim mais velho agarra-me pelo braço e de um modo carinhoso diz-me qua ainda estou a tempo de ir trabalhar com ele.
- Sempre tiveste muita facilidade para estas coisas rapaz.
Eu que até já nem sou assim tão rapaz.
Tento explicar que o talento não me faz feliz. Muitas vezes acontece o contrário. Tenho de enfrentar outras barreiras para me sentir pessoa.
Ele insiste e tenta-me comprar com dinheiro. Com conforto. Com seguros de saúde e pinguinhas interesseiras.
- Eu sei que gostas do que é bom - insistiu.
E eu sei que não fui feito para tratar bichos e reeducar criancinhas da província e emergentes afins. Não é para mim. Mas agradecia que dessem dinheiro à mesma.
Invistam na arte. Pelo menos parece bem.
Mas cá ninguém liga a isso. O que parece bem é ter um carro grande e prateado. O mecenato é residual e apenas para os filhos e sobrinhos mais chegados que têm a amabilidade de lhes fazer companhia ao Domingo. Na missa ou nos momentos mais embaraçantes no Golf.
- Continua a fingir que sabe jogar Golf? - pergunto brincando.
- Tu sabes que prefiro ver o Benfica no sofá. É um desporto mais ao meu jeito. Tem ido ao estádio? Precisa de bilhetes?
Eu recuso pedindo desculpa enquanto uma jovem pinguim nos interrompe com uma emergência social.
Doutor. Aqui ninguém é medico.
A sala é branca e ampla. Muito iluminada. Os pinguins serpenteiam entre esculturas feitas pelos alunos de belas artes. São umas merdas sem jeito, carregadas de um intelectualismo muito triste, que amarga a vida. Tudo aquilo sabe mal.
Levo a mão ao bolso.
Sms da Pinguinha: "Parque de estacionamento, -1, bmw azul clarinho com a capota em beije."
Uau. As novas executivas são tão doidas.

quarta-feira, outubro 27, 2010

As listas estão fora de moda

Dizer estilismo está fora de moda. Também as palavras têm popularidade flutuante.
Com as ideias passa-se o mesmo. Felizmente e por mais que tentem, não se consegue catalogar ideias. O rasgo não se troca por pontos acumulados. Não há carregamentos de sensibilidade.
Manta "Dralon". Lençol em flanela. Lençol com elástico. Manta polar. Cobertura de colchão. Almofada de penas. Lençol em micro-fibras. Edredão. Colchão 140x 200 cm.

Perder continua fora de moda. Perder nunca será o novo preto. Se perdemos um sonho, perdemos um pouco de nós.
E se perdermos... nunca existirá um nós.
Casaco com capuz. Sapatos casuais. Carregador de bateria. Extensão eléctrica.
Exercer poder está fora de moda. Reclamar sim, mas decidir não! Isso é coisa de quem quer mandar e querer mandar é hábito muito mal visto. Escolher nunca. Há que ficar no mesmo sitio e esperar que o vento mude.
"Se todos são imbecis, não sou eu que me vou armar em esperto."
"Pralinés" crocantes. Peitorais. Queijo fundido light. Bloco de fígado de pato. Clementina. Caramelos de fruta. Castanhas. Batata roxa.
A actualidade está fora de moda. Porque é chata e porque ninguém consegue viver decentemente.
Confessem!
Quem é que se sente preso e com vontade de rebentar o mundo?
Quantos de vocês cometem crimes?
Ou pecados pecantes dos que merecem castigo e auto-flagelação?
O motivo é o tédio, não é?
Quem é que quer fazer alguma coisa?
Confessem lá... A vossa vida é mesmo uma grande merda não é?

quarta-feira, outubro 20, 2010

O Divã - I - As madeiras


É esquisito estar deitado neste divã.
Em plena luz do dia. Acordado e a falar do que não quero.
Os meus olhos viajam por todos os pontos do consultório.

- Não o irrita? A mim tira-me do sério. Os escritores nunca dizem mal uns dos outros. Alguém que venha dizer que Os contos do Gin-tonic é o livro mais parvo de sempre.
- Tenha calma. Dificilmente o livro terá esse recorde - respondeu divertido.
- Sério - insisti - Você já leu aquilo? Se eu fosse escritor ficava envergonhado. Desprestigia toda a literatura nacional.
- Mas lembre-se que o livro teve bastante sucesso.
- Isso depende da noção de sucesso de cada um.
- E você? Acha-se uma pessoa de sucesso?

Na ultima prateleira da estante, está uma estatueta de loiça. Um mocho que tudo vê e que tudo ouve.

- Lá está. Isso depende da noção de sucesso de cada um - brinquei.
- Vá lá. Faça um esforço. Acha que o sucesso está condicionado pela opinião de terceiros? Fale-me disso. - pediu pacientemente.

Atrás da ave, uma colecção de imponentes livros azuis e dourados, obras de Julio Verne.

- Sinceramente. Pensar nisso é deprimente. O sucesso, ou o conceito em si, é sempre condicionado pelos outros. A própria ideia subjacente, é uma comparação entre indivíduos consoante as metas sociais que cada um vai atingindo, ou não. Há quem ligue e há quem não se importe. Tal e qual as mulheres. É uma questão de segurança. Quem é mais seguro lida melhor com esse tipo de pressões.
- Vejo que já passou umas horas a pensar nisso - disse enquanto escrevia no bloco bordô.
- Quem é que não pensou? Estamos em 2010... Tudo é performance. Tudo são resultados.
- E com as mulheres... considera-se um homem de sucesso?
Sim. Claro que sim. É óbvio. Sou macho. Um garanhão cobridor, potente e viril.
- Pode-se dizer que sim? - respondi a medo.
Se ele fosse esperto dizia-me já: Isso depende da noção de sucesso de cada um.

Aquele mocho é mesmo giro.

- Nunca teve dificuldades emocionais? No ponto de vista de se relacionar e de viver uma vida amorosa normal, digo.
Uma vida amorosa normal? O que é isso? Será que existe?
- Não. Dificuldades não. Julgo ter relacionamentos normais.
Minto só para saber onde a merda da conversa vai dar.
Logo eu que só conheço gente doida.
- Então essa parte não o preocupa. Está perfeitamente capacitado para ter uma relação e suportar os pontos menos bons que vão surgindo com o passar do tempo.
- Como assim? - perguntei intrigado.
- Há de concordar que os namoros e os casamentos têm altos e baixos.
- Sim, concordo...
- Por exemplo. Uma traição. Há pessoas que não conseguem superar a quebra de confiança.
Sem querer sai-me uma gargalhada.
- De que se ri? Não percebo.
- A quebra de confiança... Isso não existe. Todos os dias os casais perdoam mentiras uns aos outros.

O candeeiro tem bom aspecto. Deve ter sido caro.

- Agora sou eu que não estou a entender - disse tirando os óculos de massa.
- Isso é coisa de novela. De romance de 5ª categoria. Quebra de confiança. Que disparate. Não é isso que faz doer. O que magoa é o prazer que a pessoa traidora sente. A excitação que se consegue traindo.
- Continue.
Já estou a falar com as mãos e deixei de reparar na decoração.
- Trair é empolgante. Quebra rotinas. Quebra este aborrecimento que se apodera das nossas vidas. Dá nervo. Faz-nos sentir vivos. Ser traído é ser chato. É não conseguir satisfazer o cérebro ou o corpo de quem gostamos. Alem disso trair é natural. Quantos traidores e traidoras conhece?
- Sinceramente não me estou a lembrar de muita gente. - respondeu pensativo.
Mentiroso.
- Aposto que em pouco tempo vai arranjar uma lista de pecadores. Trair é normal. É vulgar. Acontece constantemente. Todos os dias em todos os lugares. Está na nossa natureza. Porque é que é tão condenado socialmente? Porque se criou a conversa do "não cobiçarás a mulher do próximo"? As razões e causas para trairmos são infinitas. É tão comum que chateia.
- Vejo que não acredita na fidelidade? - ironizou.
- Acredito. Claro que acredito. Mas sei que toda a gente já foi traída de uma forma ou outra.
- Sim... traído por um sócio, por um amigo, por um colega... - interrompeu-me delicadamente para me instigar o desabafo.
- Não. Eu digo que já foi traída por uma namorada, pela mulher, por alguém que partilhe o mesmo "projecto amoroso"... vá...
Fazer o gesto para as aspas é parvo. Estamos a por o nada entre aspas. E continuei.
- Sendo generoso... pelo menos uma vez na vida toda a gente é traída por alguém de que se gosta - insisti.
- Mas porquê tanto cepticismo?
- Não é descrença. É cientifico. É o que corroí a alma. É a mentira, o impulso, o momento, a justificação ou ausência da mesma. Tudo doí. Eu lembro-me da primeira vez que fui traído. Tudo mudou. Certamente aconteceu o mesmo consigo.
Adoro confronto.
- Não estamos aqui para falar de mim pois não?
- Estamos aqui para falar do que tiver de ser - desconversei.
- Se quer mesmo saber, penso que nunca fui traído - suspirou.
Bem tu sabes.
Para pagares esta sala tiveste de passar aqui muitas horas.
A ruindade está-me no sangue.
- Ora seja você a excepção a regra. Pouco me importa. É apenas a minha maneira de ver as coisas.
- Muito bem. Mas não acha que essa atitude o compromete quando pretende ter um relacionamento mais profundo?
Não sei. Talvez seja imaturo a esse ponto?
Este talvez diverte-me. Quase que acredito no que estou a dizer.
Só quase.
- Eu sei que gosto de mulheres bonitas. Não vou mentir. Sou certamente uma besta infantil por isso.
Do outro lado soa uma sonora gargalhada.
- Não é isso de que estou a falar.
- Eu sei do que está a falar. Simplesmente não me apetece falar - confesso solene - Não quero partilhar o meu sofrimento e muito menos o meu âmago. Desculpe mas prefiro andar disfarçado. É muito melhor que esmiuçar as farsas da nossa vida.
- Eu compreendo. Mas então porque veio cá?
- Por nada... Sinceramente não sei. Talvez ainda não esteja preparado - respondo-lho nos olhos.
- Como posso ajuda-lo, se não está disposto a receber a minha ajuda?
Um encolher de ombros contrai-me o corpo e fecha-me o espírito.
 
Levantei-me, desejei boa tarde com simpatia e sai do agradável consultório com quase tudo o que tinha levado.
Mas só quase.

No passeio uma data de gente transporta uma data de coisas para uma data de sítios.
É estranho.
Parece que sou o único que não tenho pressa, nem lugar para chegar.

O consultório é muito bonito.
As madeiras são muito vistosas e agradáveis. Gostava de ter móveis assim.
Nem sei de que tipo de madeiras são. Os meus pais saberiam de certeza. Eu não percebo nada de madeiras.
Os meus móveis montam-se todos com uma chave sextavada.

Às mulheres bonitas que se faz tarde.

terça-feira, outubro 19, 2010

A senhora doutora

Há dias apareceu-me um caroço no antebraço.
Como bom hipocondríaco que sou, fiquei cheio de medo. Entrei em modo doente. Imaginei todos os cenários que consegui.
Fiquei ansioso. Ansioso pelo dia de hoje. Ansioso por ir ao médico.
Consciente cidadão, dirigi-me a um centro de saúde publico e fui atendido com prontidão e eficiência. As coisas corriam bem demais. Como não desconfiar. Só 2,50€. Então e as mirabolantes histórias do nosso serviço nacional de saúde que inundam telejornais? Queres ver que vou ser atendido antes do tempo e tudo?
Assim foi.
Ao fundo, uma senhora diz o meu nome em voz alta.
Entrei no gabinete senhora dona médica, cheio de civilização e boas maneiras. Sentei-me após pedir licença.
- Então? - Perguntou uma senhora gorda.
Nem bom dia, nem nada? Mas que é isto?
Em fracções de segundos vi o filme todo. Médica a caminho da reforma, sem orgasmos há anos, descontente e aborrecida, com a atitude típica da maior parte dos médicos em Portugal. O síndroma, "Eu sou importante porque acabei medicina. Eu sou Deus. Eu ganho bem e sou Deus. E se me chateias eu não faço o meu trabalho e tu morres. Não há nada que me possa acontecer por ser uma besta ou por ser negligente. Eu sou Deus e os meus filhos terão a mania e serão umas bestas também."
- Apareceu-me um caroço no antebraço esquerdo, há alguns dias. - Respondi.
Sem uma palavra esticou-se dobre a secretária e tocou-me ao de leve no local. Levantou-se, e lavou as mãos num lavatório atrás de mim.
Mas que merda é esta. Só depois de me tocar é que lavou as mãos. Porque é que não lavou as mãos antes?
Voltou ao computador e começou a teclar apressadamente.
- Não me pode prescrever análises? - Perguntei ingenuamente.
- Não. Isso tem que ser com o seu médico de família. - Respondeu com um sorriso arrogante - Vai fazer uma ecografia e depois volta cá.
Cabra de merda. Claro que podias. Não queres é teclar mais um bocadinho.
Em menos de 3 minutos, entrei e sai da sala da senhora doutora. Ainda pensei em pedir o livro de reclamações mas a fila no guiché metia respeito.
Não percebo nada destas tretas do médico de família e da área de residência. De custos e cortes. Se o exame é comparticipado ou não? É desmotivante e desgastante. Vou ter de voltar a Lisboa para fazer o exame. Eu não tenho que estar doente quando o sistema quer. Eu simplesmente fico doente.
Fique doente, mas só na sua área de residência.
Abandono o centro de saúde mais doente e confuso. Não percebo o funcionamento.
Eu se quiser ainda posso dar um chapada na médica. Posso fazer queixa dela. Cuspir-lhe na cara. Posso indignar-me e acusa-la de incompetência. Posso agir judicialmente.
Mas... e quem não pode?
A maioria dos utentes do não podem.
E a maioria dos utentes precisam de ser respeitados.
A próxima vez que um médico ser armar em Deus comigo está lixado.
A próxima vez que me faltarem ao respeito num serviço nacional de qualquer coisa ajo politicamente.
No serviço nacional de saúde, ninguém parece interessado em servir.
Eu também não estou interessado em pagar impostos.
Tudo para o offshore.

A conta no banco

Como todas as pessoas ricas, também eu tenho conta no banco. Aliás. Tenho contas em vários bancos porque sou rico e não acredito na crise. Tenho riquezas.
Na semana passada dirigi-me a uma sucursal de uma banco qualquer com logótipos verdes e um ar modesto.
"Isto é demasiado simplório para uma pessoa tão rica como eu." Pensei.
Há que diversificar. Assim saltei a barreira do preconceito e fui atendido por uma pessoa com óculos.
Vê mal. Talvez seja míope. Se calhar é de trabalhar com notas e ecrãs de baixa qualidade. As letras são muito miudinhas. Os bancos devem ser geridos por pessoas muito sovinas que tratam mal os olhos dos seus colaboradores.
Uma pessoa com óculos. Não muito caros. Tem pinta de mulher casada e com filhos.
"Boa tarde" disse olhando para mim.
Expliquei que queria abrir uma conta à ordem no banco e que tinha ido lá essencialmente para isso.
Sempre quis assaltar um banco, como se faz nos filmes americanos, mas aquele balcão tem um ar demasiado pobre. Não quis arriscar prisão por uns milhares de euros. Ainda pensei em contar isso a senhora de óculos mas tive medo. Imaginei-a a pressionar um botão de alarme debaixo da secretária.
"Eu vou só buscar os papeis"
No fundo da sala está uma outra senhora. Cabelo pintado de louro. Foi certamente muito bonita nos anos dela. Casou, engordou e já trabalha ali há demasiado tempo. De certeza.
- É uma pena - deixei escapar em voz alta.
- Como disse? - interrogou a senhora dos óculos.
- Nada, nada. Então a papelada?
Eu nunca tinha assinado tantas vezes seguida. Senti-me de volta à primaria. O meu nome completo dezenas de vezes. Parecia um exercício. Talvez um castigo.
Multibanco, homebanking, declarações disto e daquilo.
- Qual é a sua profissão? - Inquiriram os óculos.
A minha profissão? Onde é que esta mulher vive. Estamos em finais de 2010. As pessoas não têm profissões. Têm situações precárias. Empréstimos para pagar.
No papel formatado para nos envolver no grande caos financeiro, escrevi: Rico.
A minha profissão é ser quem sou.
- Filiação? O que é isto?
- É o nome do pai e da mãe. Engraçado, que os mais jovens nunca sabem o que isso é - Gracejou a senhora das lentes.
- Sabe é que nós temos trauma com partidos políticos - rebati fleumaticamente.
Sabes o que é isso mas continuas a passar horas de volta de uma fotocopiadora. Gorda.
(É o meu lado negro. Não liguem.)
- Agora faça uma rubrica aqui e aqui - apontando com a ponta da esferográfica.
Eu sigo todas as instruções e procuro apressar todos os procedimentos.
Recebo uma capa com uma resma de papel. Cópias, instruções, facturas, até um ridículo e foleiro porta cartões.
Ter conta no banco é muito pouco divertido. A experiência é aborrecida. Ecologicamente é um desastre. Alem disso estamos a pagar a gatunos para guardarem o nosso dinheiro.
Complicado, não é?

quarta-feira, setembro 29, 2010

Tulicreme e o resto da pandilha

Eu um dia chateio-me a sério. As urgências femininas são testes de fé. Agora descubro porque é que os chineses se fartam de matar mulheres. É para não as aturarem.
Parece que ser chata é condição sine qua non para ser mulher.
Já foi tempo em que os lugares comuns eram mal vistos. Desta vez ergo a bandeira branca. Já nada é mal visto. Já tudo foi espreitado e tudo correria melhor se ela atendesse o telefone. Preciso de me acalmar. De ter a certeza. Atende o telefone.
Dou por mim a comer pão com Tulicreme, fazendo tempo sobre o tempo. Não tenho pressa porque não posso.
É a mediocridade dos tempos do fim do mundo.
Na televisão está um profeta moderno. Gravata e cabelo bem penteado. Cheio de truques de venda e de oratória. Um alinhamento cósmico desfavorável e um planeta cheio de pressões. Da religião ao ambiente. Tudo ligado por um vídeo cheio de criancinhas e catástrofes naturais. Na televisão acredita-se em Deus.
Agora gostava mesmo de ser salvo por um intervalo.
E ela que não telefona.
Mas porque é que temos de escolher? Porque é que temos aquele reflexo tonto de dizer amo-te a alguém? Esta mariquice até hoje só me trouxe chatices.
O que direi ao meu filho?
Nunca se confessa nada.
Nunca.
O telefone está a tocar. Deve ser ela.

Um poeta de quadras para manjericos - parte VII



"Ó Rapazinho. Eu sou do tempo em que fumar era giro e levar no cu era feio!"

terça-feira, setembro 28, 2010

Se as gramaste, algumas fizestes

Não há nada como arrancar em direcção ao frio. Tudo sem acordo ortográfico ou preocupação.
"A Puta que te pariu. A culpa disto tudo é da puta que te pariu!"
Os gritos não me distraem. Estou de rastos. Passei horas a organizar computadores e doenças vindouras. Apagar, excluir, tenho amachucado furiosamente tudo o que é lixo digital. Ficheiros, pastas, imagens, documentos, as merdas todas.
Ao fundo ouve-se uma chapada e um grito. Deixo cair o cigarro com desprezo e aposto com os meus botões. Hoje não há apoio à vitima nem violência doméstica. Hoje é o meu dia de ignorar sofrimento alheio. A minha consciência reza para que ele não a mate. Que passe de hoje.
Amanhã terei de voltar ao computador e envelhecer deselegantemente.
Amanhã é dia de deambular entre dores de costas e raios de sol de Outono.
Merda para isto. Cada vez é mais complicado fazer bem.
Fazer para quem? Falta imaginação e inteligência. Não há nada a fazer.
Outro grito e nem uma luz se acende.
Ao longe o que está longe.
Um gato preto evita testemunhar.
Ela não pára de chorar. Rouca e derrotada.
Habituada.
Anos passados e é sempre o mesmo crime, o mesmo castigo. Será que nunca vão aprender?

quarta-feira, setembro 22, 2010

Sabem onde podem por a nossa cultural?

Estou cansado. Farto de ideias para o meu país. A intelectualidade os seus paradoxos e as alterações de estatutos. As revisões. As reformas. A esquerda da revolução e a revolução que os mesmos não querem. Os alinhados e os instalados. A cunha da sobrinha do primo da cunhada em manifestos anti mérito. Anti talento. Tudo sabe a leite com chocolate. É desinteressante e infantil.
Tudo é subsidiado, e apoiado, muito bem pago. Tudo é para poucos e para os mesmos.
Sempre em crise é claro.
Desisto.
Sabem onde podem por a nossa cultura?

sábado, setembro 18, 2010

A neura

Basta só. Eu nem sei o que basta. De vez em quando acontece alguma coisa e a coisa dá-se. Parece bruxedo! De príncipe a sapo em menos de nada.
Da cozinha ouço uma voz ensonada.
- Tou a saborear um cabelo.
- Sabe a shampoo?
- Não.
- Então é um pintelho.
Soa mal quando a faca cai no lava louça.
Lá está ele. Encostado a aduela comendo pão com algo estranhissimo.
- Hoje estamos muito espirituosos. Só gracinhas.
E estou. Hoje estou para parvoíces. Já sei que o resto do dia vai ser magnifico. Eu sou assim. Baixo as expectativas para me surpreender.
A minha reflexão é interrompida.
- Escuta lá? Existe alguma razão para a balança estar sempre entre o bidé e a sanita?
Nunca tinha pensado nisso. Talvez goste de inventar simetrias? Esta manhã está a ser muito parva.
Ao meu lado o copo de leite é bebido de penalty
- Ahhh... Estou satisfeito... Hoje sonhei com uma parvoíce. Sonhei que a Matilde me tinha enganado. Estava aos pulos de um lado para o outro, a gritar e exigir que ela me dissesse a verdade - riu-se - Quando ela confessou fiquei muito desiludido. Juro-te que acordei triste.
Matilde. Nome de velha. Quem é que põe Matilde a uma filha?
- Mas desiludido em que grau? - Inquiri.
- Em que grau? Epá... mas que parvoíce. Não sei. Muito desiludido.
Com um sorriso trocista na cara insisto.
- Desiludido como: Ver a ex-namorada com um gajo fatela. Que tu conheces... ainda por cima, ou; Ver um gajo que não curtes com uma t-shirt da tua banda favorita?
Outro sorriso responde.
- Sem dúvida que a cena da ex-namorada me deixa menos triste que ver uma atrasado qualquer com uma t-shirt da banda do coração.
Quando rimos juntos somos amigos. Quando brilhamos juntos brilhamos com mais força. Quando alguém entende o nosso mundo sem o querer povoar, sem o querer explorar, sem conquista ou missão. Quando temos amigos, temos máfia. E ter a sua própria máfia, alem de divertido, dá um jeito do caraças.
Insisto.
- E então?
- Senti-me como se tivesse comprado um tapete de Arraiolos dos chineses. Quando vês o made in china duvidas de ti. Sabes que és de um nivel inferior. Sabes que não és ninguém. És pobre e tens mau carácter. Queres ostentar e contemplar, mas só o fazes através de uma imitação. Também tu és falso. Ela fez-me sentir isto.
Fiquei a pensar naquilo, virei-me para a frente no sofá e liguei a televisão.
Como um espasmo, disse.
- É oficial. Estou com a neura.
- Hoje vai ser chatinho vai. Se calhar é melhor baixar as espectativas.
- Se calhar é.

quarta-feira, setembro 15, 2010

O sentido aranha dos pobres


Toda a gente têm uma urgência parva em falar do tempo. Eu não sou excepção!
Hoje quando me levantei reparei que estava mais fresco. Depois das altas temperaturas e do vigoroso sol que nos fez companhia ontem, sou confrontado com um céu ameaçador. Com cara de poucos amigos. Apenas cinzento. Nada de azul. Como milhares de pessoas dizem neste momento: "Está fresquinho!"
Ora eu estou triste por não ter alguma parte do corpo que me alerte para as mudanças de tempo. Toda a gente tem um joelho ou um cotovelo especializado em câmbios metereológicos. Quem é que nunca ouviu?
- Isto amanhã... Isto do tempo vai mudar. Já tenho a anca a dar sinal.
É como o sentido aranha de Peter Parker. O Homem Aranha está dotado de tipo de pressentimento, que o ajuda a desviar-se das coisas más que os vilões lhe atiram.
Eu não possuo esse poder.
As pessoas insistem em exibir esse "dom" constantemente
- Olhem para mim, eu consigo saber se amanhã vou vestir camisola ou não. Sou especial. Eu adivinho alguma coisa.
- Pena esse "dom" não te ter ajudado quando te agrafaste a um monte de silvas. Ou quando partiste o pé. Nessa altura nada pressentiste. Nem ouviste nenhuma voz a dizer "Deixa de ser urso... Olha que ainda te aleijas".
Isto é só a inveja a falar.
Eu não tenho essa bênção.
Assim, vou ter que estar sempre sujeito à surpresa e à terrível incerteza. Não posso fazer mais nada a não ser, olhar para o céu e confiar no meu tacto.

segunda-feira, setembro 13, 2010

Já não há cartas de amor

Já não há cartas de amor.
Pelo menos das verdadeiras. Das que falam de amor verdadeiro. Do tempo onde não existem telemóveis. Por a chave do correio na ranhura, amachucar a publicidade e ficar com aquele sorriso felizmente estúpido. A magia da surpresa. Ansiosos entramos em casa e apressadamente lemos as linhas mais ternas. Puro romantismo. Mariquices apaixonantes.
Tenho saudades do que é genuíno. Do que é puro. Tenho saudades das pessoas.
- Eu não sou muito dado a essas coisas de brincar aos vampiros! Se ela quer festa desse tipo, tem de tar limpinha.
É daqueles gajos que tem opinião para tudo. Malta da calça de ganga. Devia ter escrito na testa - Há 36 anos a usar ganga.
Do outro lado da rua, ao bando de jardim mais próximo da paragem de autocarro, está um menino de cabelo curto. Nas mãos "Tabacaria". Uma edição toda catita, com traduções em Inglês e Francês. O puto tem 12 anos. Ele nunca viu uma tabacaria. Só camiões cheios de gado. Autocarros da carreira velhos. Coisas que tresandam. Também ele tem dentro, todos os sonhos do mundo.
- A panleirice só tem uma cura. É a morte. - Insiste o homem vestido de ganga do outro lado da rua.
Fala para dentro da tasca aos gritos. Está a porta para poder fumar.
Agora não se pode fumar em lado nenhum mas toda a gente vai morrer de cancro.
Desço a rua sem traumas e não comprimento ninguém. Finjo que sou anónimo e tapo com a mão direita o umbigo. Dizem que o mau-olhado entra dentro de nós pelo umbigo. Dizem que essas coisas existem, e eu acredito.
Enquanto despejo o lixo no contento, ouço velhas assuntando:
- É o tempo deles vizinha - Diz uma velha coxa com as mamas muito grandes. Está debruçada sobre o muro baixo olhando de lado a companheira. Uma triste figurinha, baixa e magra que se vai esticando para alcançar o estendal. Só roupa preta e branca.
- Ai mas a da Lurdes ia mai bnita. Parecia um filme. Mesmo o rapaz ia muito composto - diz a velha que estende roupa.
- Esse na vi. O mê Jorge apanhou um bubederão temivle. Vemitou-se toda a manhã e eu tive lá a assistir-lo. Cuido que ele anda outra vez amantizado ca neta da Dulcina.
- Cristo. Ela tem um ar assim muito coiso - Franze o nariz e a testa como se tivesse a ficar enjoada - Só tatuaiges e aqueles brincos esquesites. Coisas que natraumente puxam à droga.
- Não - interrompe prontamente a outra velha - Ele não é dessas coisas. Gosta de beber o seu copito, mas eu até nem nunca o vi fumar.
Quando a tampa do contentor cai a conversa pára assustada. Na minha direcção os olhos da velhas, tentam conhecer-me. Identificar-me. Saber de quem sou eu?
Eu sou meu.
Viro costas e volto para casa tapando o umbigo. O banco da tabacaria estava vazio e a porta do café central também já exibia um silencio digno e sem ganga.
Nem todos deviam ser pais!
Todas as terras têm um café central e um banco dos velhos.
"Sítios de apodrecimento" diz o poeta de quadras de manjericos. Rasga-me um sorriso e um aperto de mão vigoroso.
- Então rapaz? Por cá?
A conversa salta trivialidades e desconfortantes perguntas. Apenas votos de boa sorte e convites para tertúlias noctívagas entre poetas e vinhos doces.
- Diz a menina para aparecer também. Adeus.
Digo que sim com a cabeça mas não sei se me apetece. Sinto-me longe de um sorriso. Estou quente e mole.
Subo a rua cheia de sol enquanto verifico o telemovél. Ainda é cedo. Não tenho nada para fazer, mas ainda é cedo para qualquer coisa.
Depois de fechar o portão remexo a caixa do correio. Amaroto a publicidade, conto as contas e fixo o momento num postal. Cheio de amor e como antigamente. Foi o carteiro regateiro que o trouxe. Leu-o de certeza, mas não importa. Um postal cheio de graça. Honesto e puro. De amor. De saudade. Sou meu mais uma vez e volto a ficar feliz. Talvez passe na casa do poeta de quadras para manjericos. Trocaremos versos e risos sem hora marcada. Sem hora de chegada.
Olho para o meu cão e digo-lhe em voz alta.
- Lá estás tu. Cheio de metafisicas.
Ele pensa.
Isso do amor é muito bonito mas já me levavas à rua.

segunda-feira, setembro 06, 2010

Um poeta de quadras para manjericos - parte VI


"Agora os surfistas não podem usar pulseiras do equilíbrio. Dizem que melhora o desempenho dos atletas e desvirtua a competição. Só não proíbem os piercings na língua. Porque será?"

quinta-feira, setembro 02, 2010

O peixe-aranha, rock evangélico e bolinhas de cuspo

Estou desempregado e ele quer estar. Estou deprimido e cansado. Aborrecido com o mundo e com a tecnologia. Ele diz que a culpa é dos americanos e dos seus foguetões parecidos com pilas gigantes. Eu digo que ele é obcecado por genitália e pornografia. Para ele tudo no mundo ou é uma "gruta" ou um "mastro". Estou desempregado e ele só quer largar a padaria e continuar a fornicar as amantes do chefe dele.
- Têm todas óculos. O Lopes deve ter algum fetiche com lentes.
Uma gargalhada e milhares de migalhas. Partículas e migalhas e saliva, pelo sofá, pela mesa e pelo tapete. O aspirador está na despensa. Está velho. Gostava de comprar outro mas estou desempregado.
- Noutro dia, quando passei lá à tarde para receber, aquela mais magrinha teve de o gramar. Que boa pá. Muito muito boa.
Imagino. Deve ser um espanto. Ele tem um péssimo gosto. Tudo é vulgar e vulgarizante.
- Fomos para o anexo. A pêga estava de saia. Apliquei-lhe logo o movimento do peixe-aranha. Digo-te, ela não é nada má. O negócio ficou intenso.
- Movimento do peixe-aranha? - Interrompi.
- Sim pá. Só dar aquele jeitinho à cueca. Puxas para o lado e zuca. Lá dentro. Ataque rápido.
Como é que alguém se digna a nomear tais coisas?
Ele ri e faz zapping e pára sempre que vê um decote.
Olho para o telemóvel frequentemente. Estou a espera de uma mensagem. De alguém que me ligue e acabe com aquela migalhada.
- Mas eu não vou continuar a cena ninja com ela. Estas gajas são assim doidas para cobrir, porque andam naquelas igrejas maradas. Protestantes, evangélicas e do 35º dia que testemunharam tudo. Malta dos peixinhos nos carros. Merdas à americana. Nunca viste?
Eu concordo com a cabeça e volto a olhar para o telemóvel.
- Foda-se e as bandas que ela ouve? Só merda. Cenas dessas do evangelho Esses pastores todos, têm bandas de rock. Rock? Uma parvoíce. Coisas mesmo sem jeito nenhum. Canções zero, ideias nicles. Depois ninguém toca um caralho e são feios como tudo. Aquilo para gente abençoada estão bem fora da graça de Deus.
Levanto os olhos do telemóvel, olho para ele e pergunto?
- Rock do Deus?
- Rock do Senhor do Jesus e do Pastor. Sério?
Ajeito o corpo no sofá e insisto.
- Queres ver que eles também andam de skate?
- Oh. Isso tudo. Doidinhos mesmo. A apelar à vida sem drogas e ao amor. Tudo cheio de castidades e de respeito. Uma cena mesmo da cruz. Isso agora está tudo na moda.
Invejei e tentei pecar por categorias, mas as migalhas acumulavam-se. Lá fora havia um mundo mais agressivo para o meu futuro filho. Hoje bandas de rock da merda, amanhã guerra santa. Cruzadas VIII - O regresso da verdade.
No ecrã uma apresentadora mamalhuda, da beijinhos a duas dúzias de crianças. Eu já sei que ele vai comentar.
- Olha o cabrão do camera. Deve estar a vir-se em seco. E o realizador. Bloqueou certamente. Quem é que está a olhar para os putos?
Podes crer que há muita gente a olhar para os pequenos. Pelo menos quero acreditar que sim. Também eu não consigo desviar o olhar do decote da apresentadora.
Sair com uma gaja destas deve ser de sonho. Agora não que estou desempregado! Depois não que continuarei pobre. Depois não que continuarei feio.
- Esta gaja tá cá com um aço. Não lhe perdoava nada. Era até fazer ferida.
Estas mulheres nunca me conhecerão. São assediadas em demasia. Não olham para o lado. Têm sempre alguém a olhar para elas. Também elas devem ir à igreja.
- Era um consolo.
- Era, dizes bem - digo eu baixinho enquanto olho novamente para o telemóvel.
Já não me diz mais nada. Está chateada comigo por ter gritado com ela. Vaca de merda. Puta. Logo agora que estou desempregado. Onde está o apoio?
- Digo-te já que é perfeitamente possível mamar um petisco destes. Nunca se sabe.
A vassoura está atrás da porta da casa de banho. Ficou lá quando estive a fazer a barba. Ele que nunca mais pára. Às vezes gostava que ele desaparecesse.
- Curte só.
Uma bolinha de cuspo é soprada em direcção ao nervoso ecrã. Parece uma pequena bola e sabão. Quando chega às cores rebenta.
- Eh meu! Não faças isso à televisão - Protesto - Olha-me essa javardice.
- Vá lá. Tu eras o campeão desta arte! As tuas bolas de cuspo viajavam sempre muito mais.
Pois era.
Agora? Perdi toda a ambição.
Agora estou desempregado e fechado contigo numa sala a ver programas estúpidos. Números de telefone em rodapé. Agora espero cientificamente pelo mensagem.
Talvez ela me queira desempregado.
Sinto uma dor no ombro. Alguém se vira para mim e pergunta.
- Escuta lá? Estás deprimido?

terça-feira, agosto 31, 2010

Atenção! Atenção! Apelo à população

Dormir nu é que é!
Livra-te do teu "vidro duplo".
Isso de andar sempre com a pila protegida cria uma habituação mariconsa. É um pedaço de cobardia genital. Não prepara o menino para as situações mais agressivas.
Tudo se treina. O pénis não é excepção.
Quantos de vocês conhecem alguém que usa boxers por baixo dos calções de banho? Quantos conhecem duas ou mais pessoas que o fazem? Quantas vezes repararam na protecção contra o ataque dos monstros marinhos? Muito sucintamente. É ridículo! É como usar sandálias e meias. Para quê aconchegar? A pila não cai, nem foge, e alem de ter vida própria e despertar nas ocasiões mais inconvenientes, não se deve domar.
Homem que é homem, caça, sofre e aguenta.
Diz não ao "vidro duplo"!

P.s - no próximo post: todos os truques e dicas sobre o movimento do "peixe-aranha", como evitar o rock evangélico, e ainda, bolinhas de cuspo: arte ou javadice?

domingo, agosto 29, 2010

As respostas do Quentin - Alvoroço canino


Na noite de ontem cheguei ao pé do cão e perguntei:
- Quem música parva é esta que põe os cães todo em alvoroço?
- Chama-se Trance.

Domingo de manhã

Há muito que não via um domingo de manhã.
Sabe-me bem. Especialmente depois de uma noite de Sábado muito frouxa, cheia de nada.
A matemática insiste.
Dores nas pernas, tédio, três ex-moscas que atentaram contra o meu sono. Aqui chego. Lúcido e acordado, numa manhã de Domingo! Sem nada de especial para fazer à tarde. Talvez um bruto filme que passará entre intervalos de meia hora? Talvez pegar na guitarra? Talvez esperar? Talvez organizar coisas pendentes?
A matemática insiste.
Mais magro, mais denso, mais só e mais nervoso. Não há muito mais para mim.
Pelo menos num Domingo de manhã.

sexta-feira, agosto 06, 2010

Fãs de ciclismo. Arrependimento e perdão

Ia escrever sobre ciclismo, mas depois cai em mim.
Sim, as roupas são ridículas, os gajos rapam-se todos, aquilo sem doping é impossível. Concordo com tudo.
Contudo, ser "treinador" de uma equipa de ciclismo deve ser uma belo profissão.
Alguém te paga para passeares de carro, tranquilamente e sem cinto. Só tens de dizer "Vai", "Puxa", "Vai com ele", "Ataca", "Tu consegues", "Acredita".
Confesso.
É um pouco mais complicado que ser treinador de atletismo.
Quando treinas uma atleta, o único sacrifício que fazes, é o de comer uma gaja feia.

Fora o ciclismo e fora o atletismo.
São coisas estúpidas!

Bom fim de semana

quinta-feira, agosto 05, 2010

As perguntas do Quentin - Lençois de seda


Gosto de cães.
Alias, o meu companheiro está mesmo a meus pés. Justo descanso.
Antes de adormecer fez-me uma pergunta.
- O que é um grande amor?
Ele anda um pouco desanimado. Apaixonou-se por uma cadela vadia que vive no fim da rua. Já a viu rodeada de outros cães e ficou triste. Desiludido. Muito sinceramente, eu acho que ele consegue fazer muito melhor, mas o coração dele embicou para ali.
Tentei responder com graça.
- Um grande amor é o que te valeu, quando mijaste à porta de casa.
Mexeu os olhos na minha direcção, desviou o tapete com a pata e esticou-se melhor no chão frio para refrescar. Continuou a olhar para mim sériamente e insistiu.
- Gostava mesmo de saber...
Sentei-me ao pé dele, dei-lhe um beijinho. Enquanto lhe fazia festas comecei...
- Um grande amor não se define. É coisa complicada. Simplesmente sentes a sua dimensão. Sentes o seu peso. Tem importância e vive contigo. Nunca o abandonas, nunca deixas de o carregar. Faz parte de ti. Se ele desaparece, ficas menos. Ficas mais pequeno. Com peças a menos. É estranho, mas é tanto que te deixa feliz.
- E onde é que o achas? - interrompeu.
- Não achas. Ele é que te acha a ti. Por vezes gostas de alguém e tudo corre bem. Está tudo divertido, tudo é maravilhoso, tudo para formar um casal feliz e uma relação impar... mas não é um grande amor. Se fosse assim tão simples...
- Então é melhor não pensar muito nisso? - voltou a interromper.
- Não. Se gostas dessa cadelinha, procura-a. Mas lembra-te. O que não faltam para ai são meninas lindas. E tem cuidado com as pulgas e carraças. Não quero nada dessa bichesa cá em casa - Adverti.
- Não, não... vou ser um cão cheio de classe. Até me vais forrar a alcofa com lençois de seda.
- Lençois de seda? Isso é coisa de casal de meia idade com peso a mais.
- Para escorregar melhor quando se levantam?
- Ah pois. E mais. Essa gente dos lençois de seda são meninos para comprar tapetes de Arraiolos nos chineses.
- Isso não tem lá grande classe, pois não?
- Não.

quarta-feira, agosto 04, 2010

Um poeta de quadras para manjericos - parte V



"Fisalis é tipo chinchila. É uma ganda confusão"

A critica construtiva

Existem muitos culpados no estado da música em Portugal.
É estrutural e sistémico.
Começamos pela falta de cultura musical. Somos um povo demasiado sereno. Até para mexer o cérebro. Alem disso e segundo os famosos subsídios, nem todos os tipos de música são dignos. Quanto à formação, toda ela é uma palhaçada. Completamente desactualizada. Os instrumentos são caros, existem poucos sítios para tocar, os públicos são inexistentes ou residuais, não existem verdadeiros produtores, ninguém conseguiu fazer uma masterização decente, as editoras só estragam e as rádios rebentam com o resto.
Estou treinado a discutir estes temas. Não me vou dispersar por aqui. Tenho apenas que vincar que o principal culpado deste imbróglio é o produto.
Ou seja, o que os artistas e as bandas têm para vender às pessoas.
(Ora eu não vou generalizar porque seria injusto para muita gente. O cenário é confuso e promete tormentas, mas existem coisas muito boas.)
Mas é nas ideias que a música vive. Na inspiração, na originalidade. Neste país das bandas de covers, onde ligamos a radio e ouvimos sempre as mesmas 350 canções, as ideias não abundam. É raro ouvir algo com conteúdo. Porem cada vez mais pessoas têm a ideia de fazer um projecto musical. "Há mais artistas e menos arte."
Há dias entrei em contacto com uma entrevista a uma banda de miúdos. Rapaziada tonta, que começa a dar os primeiros passos nestas coisas.
Eles queixavam-se que a malta dizia mal deles. Mas de uma forma gratuita. Ninguém tinha o cuidado de descontar as dificuldades que eles encontram como banda. Ninguém fazia uma critica construtiva!

"Critica construtiva?"

Mas que raio é que é uma "critica construtiva"? Quem foi o imbecil que se lembrou deste eufemismo. Isto de certeza que foi algum professor de secundária na província. Que parvoíce.
Dá para fazer uma critica construtiva a um serial killer? Aquele gajo austríaco, que trancou a filha 28 anos e a violou repetedimente... que critica construtiva é que lhe podemos fazer? Quando uma pessoa maltrata um animal, ou quando o abandona. Que podemos construir a partir dai?

Deixei de lado estas questões e foquei-me no apelo dos entrevistados.
Tendo em conta que:
- Os rapazes tanto podiam gostar de música com ser forcados.
- Se tiverem sorte, apenas um extra terrestre lhes trará talento a 30 de Fevereiro do ano 3000.
- Quem têm um problema grave nos ouvidos, na cabeça e na vida.
- Que já os vi ao vivo.
- Que já os ouvi ao morto.
- Que já vi este filme centenas de vezes.
A única critica construtiva que eu tenho para lhes fazer é:
- Desistam da banda e apostem nos estudos.

domingo, agosto 01, 2010

Ihr Revier ist die Autobahn (4 dias no SW Alentejano)

Alarm für Cobra 11 - Na RTP: Alerta Cobra.
Os meus amigos já sabem.
Domingo à tarde, no período de ressaca, depois de uma manhã mal dormida... tudo passa com um almoço ligeiro embalado pela empolgante acção da série alemã. Perseguições a alta velocidade e os melhores acidentes de viação da história.
Já tinha visto umas cenas nos canais de cabo, mas quando ouço alemão, da-me um espasmo no dedo e mudo de canal.
Pavlov conseguiria explicar.
Será pelos, Scorpions, Rammstein, Tokio Hotel, Helloween, Die toten hosen... mas o que é isto? Façam com os franceses. Desistam do rock. Está provado: não há talento musical para tanto.
Ou terei ainda uma imagem de que os Godos, são um povo de tarados obesos, que invadem a Madeira para oferecer gelados aos garotos? Gigantes de pele leitosa, Deambulando babosamente pelas mais sórdidas fantasias da ilha... arrastando a sua psicose e olhar tresloucado.
Se calhar vou ter sempre preconceitos com os macavencos.
Por mais que tente não discriminar, eles parecem-me esquisitos.
É um bicho perigoso.
Afinal: Usam sandálias. Tiveram aquele episódio dos nazis. As mulheres são feias e têm pés enormes - Como explicar? São parecidas com homens - Assassinam a arte de jogar bom futebol. O seu cão policia chama-se Rex - que é nome de dinossauro.
Juntem a isto tudo, a sonoridade da língua alemã. Agressiva e áspera, desprovida de doçura. "Estão sempre a ralhar!"; "Parece que estão a falar ao contrário."
Para os mais radicais, também eles merecem um genocidiozito. "Só para não ter a mania que invadem o mundo e dão conta dos Judeus". A atitude dentro da União Europeia também não tem ajudado. Dão beijinhos à França para comer o resto da Europa. Até ao osso.
Como não sou um gajo medroso, fui ver alemães. Como sou um gajo pobre, tive de me orientar pelo burgo. E como a minha namorada queria ir para a praia - Sudoeste de Portugal. Ai vamos nós.
Para mim esta viagem foi um safari sem espingardas.
Eu nunca imaginei. Em Monte Clérigo foi demais. Ali estava eu. No restaurante - Alerta Cobra - Na praia - mais Alerta Cobra - Mas será que eles não sabem que em Portugal se roubam criancinhas à bruta? Toda a gente que lá estava era estrangeira. Não me entendam mal. Todos se estavam a comportar, com cordialidade e simpatia, mas uma praia portuguesa tem uma reputação a manter. Ter alemães na praia, esteticamente - e mesmo em termos ecológicos - é muito mau para a nossa imagem. Eu defendo que praias com gente dessa, não devia ter bandeira azul. Hoje alemães, amanhã ingleses. Era só o que faltava. Para completar a Tripla aliança da fealdade, só faltam franceses.
Tudo acompanhado de meias brancas e os fatos-de-treino q.b.
Vinde a nós gente feia.
Já para não falar no défice de banho que essa malta apresenta. Eu já estive no estrangeiro com eles. Eu sei como parece e ao que cheira, a higiene pessoal desse gang. É por isso que nós estamos sempre na cauda da Europa. Gastamos dinheiro em sabonete. Pasta de dentes. Shampoo. Água. Essas coisas não contabilizam eles em Bruxelas e em Estrasburgo. Basta ver na Euronews. Só gente gira e aceada!
Vou escrever uma carta para a National Geografic, pedir uma bolsa para desenvolver uma reportagem. É sobre este tipo de Morsa esbranquiçado e mal-cheiroso, que invade o sul do meu país nos meses mais quentes.
Cá para mim isto é Karma. Temos o que merecemos.
Em Odeceixe precisei de comprar pão. Procurei em três sítios antes de o conseguir. Nesses três estabelecimentos, ninguém tinha pão fresco e sequer me indicaram uma alternativa. Encolheram os ombros. Ora numa terrinha daquele tamanho, ninguém sabia onde se vendia pão como deve ser. Minutos depois entrei numa modesta padaria. Muito arranjadinha e com ar limpo. Do outro lado do balcão estava um homem de t-shirt laranja e cabelo rapado. Não muito alto. Nas orelhas, brincos e um alargador. Tatuagens nos braços. A barba também não estava muito bem feita. Perguntei:
- Tem pão fresco?
- Tenho. Quer de quais? - Respondeu ele com um sotaque manhoso.
Olho para cima do balcão e à minha direita, encostados à parece, uma pilha de livros em alemão. Cada um 3€.

Temos o que merecemos.

P.S - Quem quiser fazer uma versão portuguesa do Alerta Cobra, podem contar com um guionista. Ainda entro com um fiat uno 45s de 88 e conheço um tipo igualzinho ao Semir.

terça-feira, julho 27, 2010

Um poeta de quadras para manjericos - parte III

"A minha filha joga futsal. O meu miúdo já fez três workshops de Salsa. E depois é o preto de carapinha loura, que não é natural."

Quando acontece é lixado

Acontecer (ê)
v. intr.
Suceder inesperadamente (o que não se tinha previsto ou já se previra).
verbo unipessoal

Quando acontece é lixado.
Quando a única explicação é o acaso, o destino, o fado, o fatal... é muito doloroso.
A mim interessa-me este lado do oculto. Justificar o insjutificável. A facilidade como nos escapa da boca, "aconteceu". Mesmo quando estamos a mentir. Encolhemos os ombros preguiçosamente, e desviamos as restantes perguntas como um catavento num dia de vendaval.
Isto está enraizado. É como o "foda-se". Serve para tudo.
- Então, bateste com o carro?
- Pois foi. Aconteceu.
(Factos como, estar bêbado, conduzir em excesso de velocidade, distraído e cansado, são irrelevantes)
- O sr Presidente de Junta tentou apropriar-se de património alheio, com a finalidade de o vender e receber dividendos desse crime?
- O sr Juiz vai-me desculpar, mas é uma oportunidade de negócio para objectos sem uso. Acontece.
(Corrupção, fraude, tráfico de influências, abuso de poder. Tudo obra do acaso)
- Disseste que gostavas de mim. Prometeste verdade e lealdade. Quando dou por ti, estás aos beijos a outro.
- Desculpa... a sério. Aconteceu.
Esta é a altura em se diz:
- Foda-se!

Existe algo de fantástico e de fenomenal na nossa essência que permite confundir verbos. Reinventar conforme o nosso interesse. Por exemplo. Demonstrei com relativa facilidade que os significados de "acontecer" e "foder" se entrelaçam numa simbiose pura. Um pode ser a génese do outro e vice-versa. Ou consequência. Tanto faz. Cada pessoa tem o seu dicionário. Quando eu digo a alguém para ela "ir à merda", posso estar a comentar geopolítica. O que parece uma ofensa directa e rude, hoje em dia pode ter qualquer interpretação.

Eu sempre pensei como um optimista, mas, viver nos dias de hoje é complicado.
Acontece

sexta-feira, julho 23, 2010

Assim não vale. Ainda vamos todos presos

Ontem estava a ver televisão e um reclame ao Danone Spiderman, despertou-me o instinto.
Peguei no meu notebook e escrevi: "O Danone Spiderman, sabe a quê?"
Continuei divagando pelas variàveis da questão:
- Sabe a Homem?
Os meninos mais sensiveis e habituados a tios que andam sempre com chupa-chupas, são um nicho de mercado como outro qualquer.
- Sabe a aranha?
Quem é que quer comer uma aranha? E mesmo quem estiver habituado às gastronomias asiàticas, facilmente apanha uma aranha. Não é preciso pagar.
- O iogurte tem super poderes?
Isso dava jeito... mas mesmo assim, um iogurte não é uma poção mágica. E mesmo que fosse, quantas embalagens teriamos de comer para o sentido aranha disparar, ou, para ter a força e agilidade de Peter Parker?
Fui investigar.
Mal chego ao google, descubro que o Danone Spiderman não é o unico iogurte esquisito do mercado. Sequer o meu favorito.
Peguei no meu notebook voltei a escrever: "O Danone Hannah Montana, sabe a quê?"

Bom fim de semana!


in http://www.danone.pt/marcas/outras/

Hannah-Montana
Iogurte de polpa de morango com
pepitas de chocolate.
Nutritivo e divertido,
especialmente pensado para os mais novos

SpiderMan
Um iogurte de banana
com coloridos discos de chocolate,
ideal para uma alimentação
energética para as crianças

Um poeta de quadras para manjericos - parte II

"Fico doido. Em Inglaterra nasceu uma menina branca e loura, filha de pais nigerianos. Não é albinismo e o casal já tem dois filhos pretinhos. Gostava de falar com o pai e perguntar-lhe se ele é estúpido!"

quinta-feira, julho 22, 2010

Tsubasa goal

É sempre engraçado quando revemos os desenhos animados da nossa infância.
Fico sempre com uma sensação agridoce. Vejo, mas já não vibro. Já não estou ansiosamente colado ao ecrã para ver o resultado... aliàs... eu já sei o resultado.
Ultimamente reencontrei-me com o Tsubasa.
Houve um génio qualquer da rtp - daqueles que andam para lá ao pontapé - que resolveu aproveitar o embalo do mundial e colocou na grelha da rtp2 a série Oliver e Benji. Capitan Tsubasa (como se diz pelo estrangeiro). Detalhe. Duas vezes por dia. Segundo detalhe. À hora do almoço e à hora do jantar. Ou seja, já vi o Oliver, o Benji Price, Mark Landers, Toby Misaki, o Julian Ross e o seu problema de coração, o remate falcão do outro apanleirado, o Roberto, etc.
Realmente é um animé fantástico. É engraçadissimo ver futebol assim. Grandes golos, jogadas impossíveis e pseudo fintas. O jogo é animado e como em Inglaterra, ninguém sabe defender. Aparecem sempre sozinhos, ninguém marca o homem, é raro ver um cartão amarelo. Os bonecos abanam-se de um lado para o outro e fazem um drible. Só o pormenor de se notar a curvatura terrestre quando o Tsubasa acelera o jogo é fantástico.
E a personagem principal. Oliver é excepcional. Alem disso ganha sempre. Tem mais técnica, é mais inteligente, treina mais, tem mais querer, maior concentração, maior força mental... e é integro. Nunca podia jogar no inatel. Moralmente é único. Um santo. O rapaz joga a bola todos os dias e nunca diz um palavrão. Um líder, dentro e fora do campo. O maior jogador japonês de todos os tempos. É tão bonzinho que enjoa.

Quando deu pela 1ª vez a série em Portugal, não havia Internet. Os telemóveis custavam cem contos e a malta usava muito a bmx para conhecer miúdas novas.
Assim quando investiguei online a história de Capitan Tsubasa fiquei boquiaberto.

http://en.wikipedia.org/wiki/Captain_Tsubasa

Aqui podemos encontrar tudo sobre a série de culto: Chamo a atenção para a fantástica carreira de Tsubasa a nivél profissional. (O rapaz jogou no São Paulo, no Barcelona e Juventus). Para as biografias detalhadas das várias personagens. De podermos ainda, consultar todos os resultados das 9 temporadas (entre 83 e 2002), entre outras curiosidade e efemérides.

E doidinhos somos nós? 'Tá provado que os nipónicos rebental a escala.


terça-feira, julho 20, 2010

Game, set and match


Viver no campo tem destas coisas.
Repentinamente deixamos a alienação tecnológica e o mundo sedentário para nos dedicarmos ao nosso bem estar. Até eu voltei ao desporto. Tenho disponível uma bicicleta para passear, e para dar uns saltinhos. Infelizmente esta actividade dá-se mal com os meus órgãos genitais.
Assim, sempre que tenho companhia, volto ao meu amor antigo: o ténis
Ainda hoje estive 4 horas, com alguns dos meus melhores amigos, em emocionantes partidas. Federer & Nadal vs Sampras & Agassi.
Este desporto em ambiente rural tem as suas nuances.
Desde já ninguém paga o aluguer do espaço. As freguesias, autarquias, e gatunos afins, têm de "fazer coisas para a juventude". Toda a terrinha, mesmo sem crianças há 30 anos, têm uma infraestrutura desportiva para servir a população. Mas há mais.
Existe um silêncio fantástico. Ideal para a concentração. O court chama-se "campo". "Volar" corresponde a servir. Ninguém sabe os nomes das diferentes pancadas, e isso também não interessa. São "estrangeirices". Mas o facto de se poder discutir a validade das bolas com violenta frequência e, a hipótese de usar ténis brancos justificadamente, seduz os praticantes.
Para quem não esteja ao corrente, não existe hip-hop ou hardcore straight edge no meio rural e ténis brancos, é coisa de emigrante de 2ª geração.
E por cá, estilo é muito importante.

sexta-feira, julho 16, 2010

Ontem fiz amor com uma vampira. Tenho a cama cheia de sangue!

'Tou com uma dor de costas terrível. Passo a explicar...
Eu vivo afastado da população. Praticamente no meio dos bichos. Osgas, sapos, ouriços... até galinhas. Espécies selvagens. De tudo um pouco é avistado nesta zona. Uma coisa que se encontra por aqui com alguma frequência são vampiros. Existem muitos ratinhos do campo, por vezes até uma cabra ou outra, e têm sempre reboques de tractores para descansar um pouco, quando o cansaço chega.
Os locais estão habituados à vampiragem. Toda a gente tem um crucifixo em casa e como à noite dá a telenovela, ninguém se cruza assim muito com os sugadores de sangue. Estes últimos também não morrem de amores pelos camponeses. Não gostam do cheiro. Muitos vampiros migraram para o campo vindos da cidade, e são um pouco snobs com os aldeões. "Viemos pela natureza, pela paz de espírito, pelo sossego, e estas bestas só querem eucalipto, milho transgénico e motos 4. E aquelas rosáceas... Vê-se bem que só bebem vinho de merda."
Eu estou um pouco no meio deste conflito. Consigo ir à tasca local sem precisar de tradutor - sempre tive facilidade com línguas estrangeiras - mas sinto falta do anonimato e da sofisticação. Sou citadino, nado e criado na capital, e frequentei as suas melhores instituições. Carrego estes pergaminhos e valores vitaliciamente. Orgulho-me disso. O meu exílio, prende-se com a deterioração da cidade mais linda do mundo - Lisboa - vitima da ganancia e da corrupção. A migração continuada e em massa, dos filhos dos novos ricos de província, também não tem ajudado. Os novos Lisboetas não percebem patavina da cidade e da sua história. Gostam do cenário e de brincar aos actores, mas nunca conseguirão escrever a peça. Dramaturgicamente falando. É uma tragédia. Agora longe, vivo o campo moderadamente.
Ontem à noite, enquanto passeava o cão, senti um arrepio gélido nas minha espinha. Como que por instinto, voltei-me para trás. Foi com surpresa que o meu olhar encontrou tão confiante e cativante sorriso.
- Olá. Boa noite. Já tinha ouvido falar de ti. És tu o que veio da cidade?
Assim que acabou, começou a caminhar, com deslizantes passos felinos, em direcção ao meu silêncio.
Completamente surpreso, fiquei perdido na sua figura. Hipnotizado por tão harmonioso rosto. O cabelo esvoaçante acabava com a minha reacção. Parecia que o vento tinha combinado com demónio. A sanidade estava derrotada. Só voltei a acordar quando ela insistiu:
- O que foi? O gato comeu-te a língua?
- Boa noite. Eu sou o Daniel. Prazer! - Pus o meu melhor sorriso e estiquei a mão, como se faz nos Estados Unidos.
Ela sorriu de volta e apertou-me a mão. Os dedos eram cuidados, finos. A pele, fria como pedra antiga.
- Eu sou a Inês. O prazer é meu. E ele, como se chama? - apontando para o meu companheiro.
- Ele é o Quentin... e se estivesse no teu lugar.. Tinha cuidado. Daqui a bocado ele pode tentar marcar-te.
- Mas como? Ele morde? - Fazendo uma festa na cabeça do animal.
- Não... mas de repente pode fazer xixi em cima da tua perna. Ele gosta de marcar tudo.
A gargalhada que ela foi contagiante. O som foi perfeito. Reparei então que escondia o sorriso. Como fazem as meninas envergonhadas. O cabelo avermelhado, tinha vida própria. Tudo nela era movimento. Tudo era ondulante e tudo se afastava do vulgar.
O resto foi charme e unhas.
Passeamos toda a noite. Falamos da cidade, das serras, da fraca qualidade da rede de telemóvel no local onde vivemos. Assumiu-se como vampira. Eu assumi-me como heterossexual. Contou-me que no tempo da monarquia, ser judeu era muito mais radical que andar de sk8. Que apesar dos seus 569 anos não teve muitos parceiros sexuais. É esquisita e demora a ficar "pronta". Diz ainda que:
- A maior parte dos homens vem-se depressa demais e não faz ideia de como funciona o corpo de uma mulher. Já nem falo da cabeça. Isso para vocês é um mistério idecifravel - reforçou sorrindo.
- És uma descrente nesse aspecto. Presumo que nem sempre seja fácil viver com tanto cepticismo. Alem de que te deves masturbar bastante - respondi.
Ela voltou a gargalhar, os olhos voltaram a brilhar e nós continuamos a conversa. A Inês é uma vampira sensual. Tem bom aspecto. Tem corpo. É boa, como dizem os trabalhadores do campo. A sua figura é cheia de insinuantes curvas. Não é nada andrógena, sequer esbranquiçada, como aqueles vampiros adolescentes dos filmes de merda que andam ai. Aliás. Fartou-se de gozar com isso. "Mas que vampiro... dito macho...é que anda num Volvo para gaja? Alem de que, nós voamos. Eu daqui para casa vou voar. Não preciso de carro para nada". Ser vampiro deve ser fixe. A cultura geral dá para ganhar todos os concursos da tv. E sem ajudas. Pode-se ser extravagante, sem preconceitos. Contou-me que tem no quintal, uma floresta bonsai, onde vivem anões que apanha pelo país inteiro. Sempre que vai de férias, cá dentro, trás um anão da zona que visitou. "O mais giro é o meu Dádá. Veio do Gerês. É mesmo fofinho e meigo. Faz tudo o que lhe digo... Tenho outro minhoto, mas é ruim. Morde muito e quer sempre violar os animais das quintas vizinhas. Até tenho vergonha de contar isto. Um dias destes, o meu pai, O Rui Vampirão, para o acalmar, levou-o a uma casa de meninas. Não é que o doidinho queria entrar dentro da senhora... mas de cabeça. É de loucos."
Quando faltavam apenas três horas para o sol nascer perguntou-me:
- Tens estores no teu quarto?
- Tenho - respondi prontamente - Porquê não podes apanhar sol?
- Posso. Mas não gosto. Gosto de temperaturas amenas. É raro ir à praia. Mas adorava ir a tua casa...
O resto guardo para mim. Foi muito bom. Aconselho. Vampiras é do melhor. Antes de mais, não há doença que entre com elas. Não têm período, nem sentido de posse. Tudo rijinho mas com experiência. Flexíveis e energéticas. É preciso dar ao cabedal. O toque é um pouco frio, mas nada que não se aguente. O único senão é que engravidam com facilidade.
Mas agora com a nova lei, tudo se arranja.

segunda-feira, julho 12, 2010

O ano da morte de Saramago

Fazer retrospectivas no final do ano, é coisa de bailarino.
Eu faço-o numa altura diferente. Em Julho. Um dos meses mais parvos. O mês onde mais se finge trabalhar. O sétimo mês marca um dos pontos mais importantes do ano: A pré-época do Benfica.
Sei que doravante terei o meu tempo condicionado. Também eu estou em estágio para conseguir aguentar a extensa e penosa temporada futebolistica. Sei ainda que depois das férias de verão, entramos nas depressões, nas filas do desemprego, nos novos programas da tarde.
Assim enquanto espero que fique menos calor para aproveitar o meu verão, entretenho-me a fazer balanços sobre o ano.
Era isso ou andar pelas feiras medievais a brincar com outros adultos, cheios de cabedal e espadas. Tal e qual como numa música de Manowar. Descobri ainda, que existia um festival erótico medieval, onde podemos ver o João Cabeleira (dos Xutos e Pontapés) em cima de um cavalo. Tudo com silicone e fios dental q.b. Varões, brasileiras manhosas, espanholas manhosas, malta do norte, enfim, exotismo para todos os gostos.
Engraçado, os atrasados que andaram pela televisão e exigir o regresso da monarquia em ano de centenário da republica, nunca vão a essas coisas. Vão à tourada. As putas ficam na bancada e os exóticos na arena.
Em 2010 e sempre. Viva o regicidio. Por um pais laico e livre.
No ano da morte de Saramago. Imagino o sorriso do velho comunista, quando leu abençoadas páginas, cheias de rancor e ira. Como ficou feliz com o titulo mundial para a Espanha, depois de ter eliminado Portugal e, como ficou vaidoso. De agora em diante todas os alunos terão de ler obrigatoriamente a sua entediante obra.
Mais uma vez, o comunista comeu as criancinhas.
A comunicação social come governos e prega rasteiras a uma justiça muito manca.
Por falar nisso. Alguém andou a comer criancinhas e ainda não fez a digestão.
Resumindo. Agora vou resumir para outro lado, e depois acabo o que o balanço.

segunda-feira, julho 05, 2010

A internet dos outros

A Internet dos outros é sempre melhor que a minha. É histórico. Desde o tempo dos 56k que não estou em igualdade com outro utilizador qualquer.
A banda larga apenas me aumentou as contas de telefone. Passei a gastar tempo e dinheiro a reclamar, a renegociar, a pedir informações. Gritei com uma série de operadores de call center - essa raça feliz, com aquele brilho nos olhos - tendo recebido em casa um número exagerado de estafetas, técnicos de instalação, entre outros.
Assim não foi com surpresa que mesmo antes de utilizar a nova banda larga tmn, consegui fazer duas reclamações e passar 1h ao telefone a descompor os iluminados que contactam com o publico. "Como se chama?", "Como posso reclamar?", "Quanto tempo vai demorar?", "E o que é que eu tenho a haver com isso?"
Logo pensei. "Tive sapo adsl (em duas casas), netcabo, meo, vodafone, tmn e nenhuma delas funcionou normalmente." Mas os cabrões têm dinheiro para sustentar agências de publicidade e de comunicação, televisões, rádios, etc. Também deviam garantir o funcionamento do serviço tal e qual como anunciado.
Claro que reclamar presencialmente é desmotivante para o consumidor, alem de que ainda existe o fascínio da nova tecnologia, à qual tudo é permitido, mas, sempre achei que o preço exagerado que custa o serviço, tornasse o utilizador mais exigente. Afinal não. Passados mais de dez anos, tudo continua igual. Vemos um anuncio na televisão, telefonamos para um numero esquisito, falamos com um suburbano com fracas competências, esperamos pelo desenrolar normal do processo, até chegar um estafeta lento, por vezes mal cheiroso, ao qual entregamos fotocopias e dinheiro. Assinamos e vamos todos contentes experimentar a nossa Internet nova.
Assim que o facebook vai abaixo, lá estamos a falar com uma parva qualquer, a explicar tudo pela centésima vez e a pensar. "Mas porquê?"

quarta-feira, junho 16, 2010

A moda de ser burra!

Eu não sou de há muito tempo, mas certamente serei doutro tempo.
No meu tempo não existiam revistas para mulheres tão estúpidas. Aliás, acho mesmo que a estupidificação feminina é coisa do apocalipse. Se estamos perto do fim, a culpa, tal qual como no inicio, será delas. Pobre Eva.
Tudo começou quando me passaram com desprezo, um colorido monte de papel que dizia na capa, “Gosto de ser a outra”. O artigo é composto por um conjunto de “testemunhos” falsos que assumem ser amantes de alguém. Cheira a “Sexo e a Cidade” em cada frase. A aventura, a excitação, os momentos de diversão, o sexo fantástico (Quem é que qualifica o sexo como fantástico? Só um jogador de futebol ou um cavaleiro tauromáquico depois da alternativa), a emoção de viver um triângulo amoroso, como nos filmes de Domingo a tarde. Cá para mim que sou ordinário, estas revistas são escritas e para, chatas mal jeitosas assim a dar para o “infantil-ou-besta”, que nunca foram amantes de ninguém, simplesmente porque ninguém lhes pega!
E andam para ai gajos que são muito boa boca.
Sem moralismos. Nada contra as amantes e apoio 100% qualquer tipo de promiscuidade sexual neste campo. Acho até charmoso e contra-corrente.
A evangelização doentia a que está sujeita a nossa juventude, isso sim, enoja-me!
Mas alguém dá dinheiro pelas 300 páginas cheias de baboseiras, de promoções e talões, escritas por crianças débeis, afectadas pelos efeitos secundários da coloração capilar? Os conteúdos apresentados nessas revistas, fazem com que um anúncio a pensos higiénicos, pareça inteligente… até inteligível.
A insegurança é o novo preto e a estupidez, uma tendência que nunca passa de moda.

quarta-feira, janeiro 20, 2010

Não há culturas feias

Confesso que me sobressalta esta necessidade das pessoas conhecerem "novas culturas".
Para uma pessoa insegura como eu, a hipótese de levar uma tampa da "nova cultura" é aterrorizadora. Prefiro que a "nova cultura" me queira conhecer a mim. Quebra-se o gelo muito mais facilmente. Também existe outro facto que acho abusivo. Ninguém pergunta à "nova cultura" se quer ser conhecida. Esta descoberta pode ser uma violação de privacidade com consequencias muito graves. Violentas até. Esta mania que temos de ambicionar a mulher do vizinho deixa-me melindrante. Não é coisa correcta. Estar sedento de conhecer e experienciar a "nova cultura", é como levar uma adolescente para casa. Um corpinho rijo e hormonas revolucionárias tendem ser derrubados por muito pouco conteúdo. É o que se passa com a maioria das "novas culturas". Não estão maduras. São sobrevalorizadissimas e brevemente envelhecerão para uma "média cultura", cheia operações plásticas. Alem disso temos de cuidar da nossa "velha cultura". É a cultura que tento conhecer há anos. Cheira-me que nem cheguei a metade do livro. É a cultura que está num lar de 3ª idade, sempre à espera da nossa visita, votada ao abandono, cheia de rugas, fraldas e cadeiras de rodas. Tudo porque preferimos ir ao "shopping center" ao Domingo, comprar um viagem para conhecer uma cultura mais nova. Puro turismo sexual. Continuamos superficiais, mas cheios de feridas profundas.

A Dieta - 5 - A Pesagem

IMC - 26,33 Sobrepeso Não me posso pesar todos os dias. Diz que torna a malta ansiosa e acho que a ansiedade engorda. Posso-me pe...